Começa com um “Tens de ouvir isto”, passa pelo “Acho que já ouvi isto em algum lado” e chega ao obrigatório “Isto é incrível” antes de se repetir de novo, com outra pessoa, uma a uma até serem dezenas, centenas, milhares. Sempre foi assim, o boca a boca, e continua a sê-lo, apenas que com Bandcamp, Spotify, Whatsapp ou Telegram e botões de partilha pelo meio.

Só que não. Desta feita não é bem assim – no fim não acaba toda a gente a dizer “Isto é incrível”; pela primeira vez em muito tempo, num mundo dominado por filmes de super-heróis e pop de travo R’n’B que é convencional há duas décadas, num mundo em que a cultura deixou de ser divisiva, deixando que esse lugar fosse ocupado por justiceiros no Twitter, uma banda tornou-se alvo da atenção dos melómanos e, felizmente, não criou unanimidade, não fez toda a gente render-se, espojar-se a seus pés: chamam-se Black Country, New Road e têm colocado os melómanos à cabeçada quanto ao valor de For the First Time, o seu primeiro álbum.

Ah, que saudades disto.

Nada no mundo dos Black Country, New Road é muito normal, a começar pela dimensão: são 7, a lembrar aquela altura do indie-rock em que os canadianos eram incapazes de fazer uma banda com um número de elementos menor que o necessário para um 5×5 mais treinador e massagista. A conjugação instrumental também está longe do habitual: há bateria, baixo, teclas e duas guitarras e até aqui tudo convencional, mas a adição de saxofone e violino permite-lhes as mais variadas abordagens sónicas. Nos seis minutos e 23 segundos de “Athens, France”, o segundo tema do disco, começam como herdeiros dos Arab Strap (dedilhado melancólico de guitarra, voz cava) e acabam numa cacofonia que não seria descabida num disco dos Tuxedomoon.

[“Athens, France”:]

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Mas também quase todos os trechos musicais de For the First Time podiam, em separado, fazer parte de outros discos – For the First Time é uma espécie de Zelig musical que consegue estar em todo o lado, soar a pós-punk num instante, a klezmer javarado noutro, a cajun (a música do Louisiana feita com violinos), a vanguarda a seguir e, do nada, numa guinada, acabar num refrão pop. Vá, isto é mentira: não há nada pop em For the First Time, um disco que logo nos 5m27s do instrumental com que abre se anuncia como uma maluqueira infernal capaz de assustar os devotos dos refrões e das canções com estruturas mais clássicas.

Os exemplos desta tendência para a música desviante e caótica abundam como empréstimos sem garantia num banco mal gerido: aos três minutos e meio de “Science Fair” há um saxofone a chiar como um gato que fosse alvo de sevícias de um psicopata que treinasse as suas maldades nos bichos antes de as experimentar nos humanos; um minuto à frente grita-se “It’s a Black Country out there” e de repente cai a artilharia toda, riffs, sopros desvairados, violinos a zurzir, como um Blitzkrieg com a precisão da pressão do Liverpool na saída de bola do adversário nas épocas de 18/19 e 19/20 – e esta é literalmente a melhor metáfora para ataque musical coordenado aos sentidos alguma vez criada, pelo que estamos todos de parabéns, em particular eu.

[“Science Fair”:]

O cérebro humano tem a particularidade de sentir prazer com uma determinada dose de dor e caos e será essa a explicação tanto para o masoquismo como para a euforia que se sente quando se ouve “Science fair”, um tratado de porradaria auditiva encalacrado entre “Athens, France” e “Sunglasses”, os dois singles lançados nos tempos pré-pandemia que, de imediato, criaram um pequeno culto que lhes concedeu, inclusive, lotações esgotadas na primeira digressão que marcaram.

A pandemia transformou o que poderia ter sido uma explosão num incêndio em lento crescendo, mas isso – a forma e velocidade a que a devoção pelos Black Country, New Road alastrou e se sedimentou – é menos interessante que ouvir os 9 minutos e 21 segundos de “Sunglasses” e tentar perceber o que terá acontecido ao mundo para que uma quantidade assinalável de pessoas validasse estes quase 600 segundos de loucura em regime pára-arranca, com um saxofone sociopata a espancar notas fora de tempo na pauta, apoiado por um violino claramente fã de Texas Chainsaw Massacre, ambos a secundarem um vocalista que berra “I’m more than adequate / leave my daddy’s job out of this”. E posto isto e uma defesa do comportamento de Kanye West, entra uma batida pós-disco e a letra seguinte é “She sells chemtrails to students”.

[“Sunglasses”:]

O que é isto, quem são estas pessoas e, mais importante que tudo, que nome usamos para descrever esta música? Talvez ajude se soubermos que esta é a segunda encarnação da banda – a primeira chamava-se Nervous Conditions e se há coisa a que imediatamente associamos a música dos Black Country, New Road é a uma condição mental instável, a algo de negro que encerra uma explosão, a banda-sonora da bipolaridade. Ao 1m40 de “Track X” uma voz feminina trauteia uns uhuhuhus que são o mais próximo da doçura que encontramos no disco todo. Dura pouco e no resto do tempo estamos sempre à espera que algo descambe.

Os Nervous Conditions acabaram de um momento para o outro quando o vocalista foi acusado de abuso sexual; a banda recomeçou sem ele, num estado de estupefação pelo sucedido: Isaac Wood, guitarrista nas duas bandas, tornou-se o vocalista dos BC,NR numa altura em que, diz, estavam “muito frágeis e emocionalmente confusos”, mas não o suficiente para perderem por completo o sentido de humor: a dada altura ouvimo-lo cantar que os BC,NR são “the world’s second-best Slint tribute act”.

As comparações aos Slint fazem sentido pelo ataque das guitarras, pela noção de canção-desconstruída, de pára e arranca, mas sonicamente os BC,NR são mais amplos. É claramente música feita por miúdos espertos, com uma valente coleção de discos, que estão naquela fase da vida em que acreditam piamente na mais disparatada das ideias lançadas em estúdio – “Opus”, com os seus oito minutos e andamentos variados, não poderia ser criada por adultos inseguros ou por velhotes sabidos; este tipo de experiência radical, de lata, de contorcionismo de género é exclusivo da juventude que acredita estar a reinventar a roda (mesmo que não esteja).

[“Track X”:]

Se estão ou não é outra questão: Brian Eno, que nos Roxy Music era responsável pelas teclas e pela injeção de disfuncionalidade, quando ouviu os BC,NR pela primeira vez disse à rapaziada “Uau, não acredito que 40 anos depois de eu ter inventado este género ainda se faz este tipo de música”, uma afirmação que talvez diga mais do narcisismo e do desconhecimento de Eno sobre a duração de sub-géneros musicais do que sobre a música dos BC,NR propriamente dita. Por sua vez, Karl Hyde, dos Underworld (uma banda que foi verdadeiramente disruptiva numa altura em que já havia televisão a cores) é um fã gigantesco do septeto.

Três dos sete – Evans, Ellery e Kershaw – têm treino clássico e de jazz, o que costuma ser uma péssima ideia numa banda pop, mas felizmente os Black Country, New Road não são uma banda pop. Evans aos 12 anos já aprendia improvisação com músicos klzemer, Ellery e Kershaw (pobrezinhos) cresceram a tocar em orquestras e sobreviveram, mas é muito possível que o trauma explique a vontade que os BC,NR têm de magoar e confundir o ouvinte.

Não entrem em For the First Time à espera dos novos Arcade Fire – os AF são uma banda pop sabida cuja gritaria épica esconde canções convencionais (isto não é uma crítica, não há nada de errado nisso). Não há muito de convencional aqui e a música que os BC,NR referenciam (dos Soft Machine aos Fall) jamais terá o apelo mediático e comercial que os AF têm.

Por agora trata-se menos de oferecermos doces aos nossos ouvidos e mais de estarmos em contacto com o lado masoquista do nosso cérebro, pôr o volume no máximo e, durante os oito minutos da maluqueira explosiva de “Opus”, admirarmos música que foi feita para situações improváveis como um mundo em colapso, o fascismo a ascender ou um vírus que anda pelo ar e mata pessoas.

Os Black Country, New Road têm concerto marcado para dia 1 de novembro na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa