A rara entrevista foi transmitida pela CBS, este domingo, embora a estação tenha feito saber que a conversa com a realizador foi gravada em julho do ano passado. Aos 85 anos e decorridas quase três décadas desde a última grande entrevista em televisão, Woody Allen respondeu às questões do jornalista Lee Cowan. Em cima da mesa, esteve o expectável tema quente: a acusação de abuso sexual por parte da filha adotiva, Dylan Farrow, quando esta tinha apenas sete anos.

“Acredito que ela pensa mesmo aquilo. Ela era uma boa miúda. Não acredito que esteja a inventar nada. Nem acredito que esteja a mentir. Acho que ela acredita naquilo”, referiu o realizador durante a entrevista. “É tão absurdo, mas o estrago já está feito”, admitiu ainda. “Preferem agarrar-se, se não ao facto de a ter molestado, à possibilidade de o ter feito. Mas nada do que fiz com a Dylan em toda a minha vida pode ser interpretado dessa maneira”, continuou.

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Segundo a filha adotiva do ex-casal, o alegado abuso sexual terá ocorrido em 1992, na casa de Mia Farrow, em Bridgewater, no estado do Connecticut. A queixa surgiu logo em agosto desse ano, mas o abuso nunca foi comprovado pelas autoridades, não tendo havido qualquer queixa formal contra o realizador. “Não seria a lógica? Porque é que um homem de 57 anos que nunca foi acusado de nada, de repente, entraria numa terrível disputa na casa de campo da Mia com uma menina de sete anos. à primeira impressão, nem achei que fosse necessária qualquer investigação”, referiu ainda na entrevista transmitida este domingo.

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Com 35 anos, Dylan O’Sullivan Farrow é a mais velha dos três filhos (dois adotivos e um biológico) de Woody Allen e Mia Farrow, cuja relação durou entre 1980 e 1992, altura em que o realizador iniciou um relacionamento com Soon-Yi Previn, a filha adotiva da atriz e do ex-marido, André Previn, na altura com 21 anos.

A entrevista surge depois da estreia do documentário “Allen v. Farrow”, no início deste ano, no qual Dylan e Mia reiteram a acusação de pedofilia. À CBS, o realizador disse ter vontade de entrar em contacto com a filha adotiva, embora admita que não voltaram a falar desde que a acusação foi feita.

Woody Allen and Mia Farrow Sighting in New York City - October 1, 1984

Woody Allen e Mia Farrow em 1984 © Getty Images

Questionado sobre se nunca terá considerado impróprio manter uma relação com a filha adotiva da namorada, Allen respondeu que não e reforçou que o início do relacionamento com Soon-Yi, com quem está casado desde 1997 e tem duas filhas (também adotivas), foi algo gradual. “A última coisa que queríamos fazer era ferir os sentimentos de alguém. Só queríamos deixar claro que tínhamos um relacionamento”, continuou.

“Se me tivessem dito que ia acabar casado, e bem casado, com uma mulher asiática muito mais jovem e de fora da indústria, teria dito que as hipóteses de isso acontecer eram mínimas. Não teria acreditado. Mas foi o que aconteceu”, justificou ainda.

Também as duas filhas do atual casamento do realizador foram tema de conversa. Bechet e Manzie, de 22 e 21 anos respetivamente, foram adotadas já na adolescência. “Não entregariam duas meninas a alguém que achassem que podia ser um pedófilo”, reforçou. Sobre o impacto que a polémica tem tido em Hollywood”, o realizador disse não se importar com o que os outros pensam, descrevendo os que não acreditaram na sua inocência como “bem intencionados, mas parvos”.

Sobre o documentário da HBO, que estreou em fevereiro deste ano, o casal pronunciou-se através de um comunicado, afirmando que os produtores em questão “não tinham interesse na verdade”, acusando-os de “colaboração com os Farrow para fazer um trabalho repleto de falsidades”. Num dos episódios de Allen v. Farrow, surge um vídeo de Dylan, com sete anos, a relatar o alegado abuso à mãe.