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“Não vou fazer comentários, não é necessário, porque também é irrelevante”. A segunda etapa do Giro não teve propriamente grandes surpresas, com uma chegada ao sprint que deu a primeira vitória à estreante Alpecin-Felix através de Tim Merlier, mas houve mais um “episódio” que colocou a Deceuninck Quick-Step no centro das atenções por dois segundos. Assim mesmo, dois segundos. Porque na teoria seriam dois segundos trabalhados para João Almeida, que tinha ainda a esperança de conseguir a camisola rosa antes da chegada à montanha nas bonificações, mas que foram quase oferecidos a Remco Evenepoel, de regresso às provas após aquele arrepiante acidente na Volta à Lombardia há nove meses. Instado pelo Record a pronunciar-se, o português fugiu a uma qualquer fricção na equipa: “Foi mais um dia sem percalços e com um bom feeling na bicicleta”.

Os adversários de João Almeida estão em todo o lado: português desce para quinto com o mesmo tempo de Evenepoel (que bonificou)

O belga acabou por encostar no companheiro de equipa, com João Almeida a descer para a quinta posição da geral com os mesmos 20 segundos de desvantagem para o atual líder, Filippo Ganna. Mais do que isso, gerou-se uma dúvida em torno da Deceuninck Quick-Step, que chegou ao Giro de 2021 com muito mais argumentos para discutir a vitória no final do que tinha por exemplo no ano passado, quando o jovem português não aguentou a rosa na alta montanha da terceira semana por ficar muitas vezes sozinho: Almeida ainda era o líder da equipa ou Evenepoel passara de número dois a um? Mais: estará o belga pronto para a montanha a sério após uma paragem competitiva tão longa? Uma coisa é certa: a tática original não foi exatamente cumprida.

O Pantera voltou para ir atrás da rosa: João Almeida faz quarto no contrarrelógio e é protagonista da “bomba” do dia

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“O João vai deixar a nossa equipa no final do ano. O seu agente tem mostrado relativamente pouco respeito nas negociações. Já me disse várias vezes ‘Patrick, juro pelos meus filhos’. Sou alérgico a esse tipo de declarações. Se isso vai mexer com o Giro? Não vai determinar as nossas escolhas táticas, isso vão ser as pernas. Para mim não me importa se ganho com um português ou com um belga. O João é o líder, o Remco tem papel livre mas se o Remco for o mais forte e o João não fizer o que esperamos podemos trocar e vice-versa”, tinha defendido Patrick Lefevere, diretor desportivo da equipa, no dia do contrarrelógio inicial em Turim. A prática foi então invertida.

A ligação entre Biella e Canale, terceira e mais longa etapa do Giro até ao primeiro dia de descanso (190km), não deveria trazer grandes mudanças na classificação apesar de ter algumas subidas até à chegada mas era sobre o conjunto belga que continuavam a recair as atenções enquanto a Bora ia colocando os seus homens na frente (com Ineos logo atrás), sobretudo depois do pedido de Peter Sagan para que a tirada fosse mais rápida e não permitisse que todos os candidatos à vitória chegassem tão “frescos” ao último quilómetro. No entanto, todos se distraíram. Tanto que nasceu mais um improvável herói na terceira etapa do Giro, neste caso dos Países Baixos.

Taco van der Hoorn, da Intermarché–Wanty–Gobert, conseguiu ganhar algum avanço na frente, a reação de todo o pelotão já veio tarde e o holandês de 27 anos conseguiu cortar a meta sozinho com quatro segundos de avanço, num triunfo que deixou até o próprio surpreendido. No outro sprint, Davide Cimolai conseguiu superar Peter Sagan, Elia Viviani e Patrick Bevin. Na classificação geral, João Almeida subiu ao quarto lugar com o mesmo tempo de Remco Evenepoel (terceiro), a 20 segundos do líder Filippo Ganna, da Ineos, e a quatro de Tobias Foss. Edoardo Affini, que perdeu algum tempo na etapa, afundou-se na classificação.