O US Open não é propriamente um Grand Slam como Roland Garros ou Wimbledon. Junta os melhores dos melhores, tem os maiores prémios mas não funciona propriamente da mesma maneira, num aspeto que se tornou tema de conversa ao longo desta semana entre argumentos a favor e contra a ideia. Em resumo, existe uma nuance que a faz diferir dos dois Majors europeus e que tem a ver com a forma como se veem os jogos que tantos sonham ver, num estilo de maior entretenimento em Nova Iorque ao contrário da forma mais sóbria como se controlam as emoções entre pontos em França ou Inglaterra. Todavia, e de forma inevitável, este domingo seria diferente e não havia ninguém que não tivesse noção do que se poderia passar.

Está fechada a trilogia que mudou o ténis: Djokovic vence Wimbledon e iguala 20 Grand Slams de Federer e Nadal

Novak Djokovic conseguiu ganhar seis vezes na relva de Wimbledon e duas na terra batida de Roland Garros mas foi em piso rápido, a começar e a terminar a época, que foi consolidando um caminho que todos iam olhando como algo impensável entre os nove triunfos no Open da Austrália e os três até aqui no US Open. Tudo aquilo que o sérvio fez ao longo de 13 anos estava escrito na história para colocá-lo como um dos mais adorados de sempre do ténis mundial mas se é verdade que foi o facto de ter havido (ou haver) um Roger Federer e um Rafael Nadal que lhe elevou o nível de jogo, também foi isso que o colocou na maioria das opiniões como um segundo ou terceiro melhor. São opiniões, claro. Que podia passar a ser o maior entre os maiores, isso ninguém poderia colocar em causa. E o caminho para esse estatuto estava a uma vitória.

Vou tratar o próximo encontro [da final] como se fosse o último jogo da minha carreira, vou dar tudo. Porque é, sem dúvida, o mais importante da minha carreira. Os três triunfos na Austrália, em França e em Wimbledon já são história, agora será aquele que poderá tornar toda a época única e histórica. Será uma grande batalha, frente a um adversário que está em grande forma”, resumiu o número 1 do ranking mundial na antecâmara do jogo com Daniil Medvedev.

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Depois da maratona ganha frente a Alexander Zverev em cinco sets, Djokovic partia para a final desta noite com mais seis horas nas pernas do que o adversário russo, atual segundo classificado na hierarquia ATP, e dois objetivos históricos além da quarta vitória no US Open: tornar-se o primeiro jogador do circuito com os quatro Majors ganhos no mesmo ano depois de Rod Laver em 1969 e passar a ser o tenista com mais Grand Slams de sempre, superando os 20 de Federer e Nadal. Isto num ano de 2021 onde tinha ainda outra meta em mente mas que caiu aos pés de Zverev, quando tentava igualar Steffi Graf e juntar a tudo isto a medalha de ouro olímpica, como a antiga número 1 germânica conseguiu fazer no longínquo ano de 1988.

Falou-se um pouco de tudo mas sempre olhando apenas para um lado do court. Erro. Grande. Até porque, contas feitas, Daniil Medvedev também podia fazer história com o primeiro Grand Slam da carreira aos 25 anos depois das derrotas no US Open de 2019 e no Open da Austrália de 2021. Foi mesmo isso que aconteceu depois de uma exibição fabulosa do russo, letal no serviço e com uma estratégia que encaixou na perfeição no que Djokovic estava a jogar (que era pouco). Ansiedade? Cansaço? Lesão? Um daqueles dias em que nada corre bem? Alguma coisa aconteceu ao número 1 do mundo, sem que com isso se retire qualquer mérito ao espectáculo Medvedev. E assim se escreveu a história daquele que foi o primeiro jogo também em que um dos jogadores da denominada nova geração bateu alguém da “velha guarda” na final de um Major.

O encontro começou com uma imagem que fez recordar Cristiano Ronaldo no seu regresso a Old Trafford, quando assumiu que conseguiu disfarçar um enorme nervosismo que estava a sentir. Até os maiores não são de ferro e foi isso que aconteceu com Novak Djokovic: sofreu um break logo a abrir, viu Medvedev fuzilar no seu primeiro jogo de serviço e começou a terceira partida com um 0-30. O sérvio levava já sete erros não forçados e o público sentiu o que se passava, rendendo-se com uma enorme salva de palmas para acalmar o número 1 do mundo. Funcionou, tanto que Djokovic conseguiu evitar mais dois breaks para fazer o 2-1. No entanto, esse arranque tinha dado uma enorme confiança ao russo, que foi letal nos seus jogos de serviço até fechar de forma natural o primeiro set em 6-4 bastando para isso apresentar a sua melhor arma.

O jogo iria assumir contornos distintos e foi isso que se viu logo nas primeiras três partidas: Djokovic com mais soluções de serviço a segurar o 1-0, Medvedev a ter o sangue frio para evitar três break points e fazer o 1-1 com o sérvio a bater com as mãos nas pernas pedindo mais movimentação e intensidade em campo, de novo Djokovic a tremer tendo um break contra que foi anulado para o 2-1. Nada do que se passara a abrir era obra do acaso o segundo set poderia cair para cada um dos lados, até porque a melhoria do número 1 do mundo não impediu por completo alguns erros não forçados anormais no jogo do sérvio, os mesmos que fizeram com que perdesse a cabeça e partisse a raquete com três pancadas no chão antes do 2-2 após ter perdido mais duas oportunidades para fazer o break. Para ele, o pior estava ainda para vir: Daniil Medvedev fez depois o 3-2 no serviço contrário, segurou os seus jogos de sérvio e fechou em 6-4.

Durante uma hora e meia não houve Djokovic, durante os minutos seguintes ainda menos houve: quando havia aquela secreta esperança na bancada que o sérvio iniciasse uma reviravolta épica como aquela que lhe valeu o triunfo em Roland Garros frente a Stefanos Tsitsipas, foi Medveved que entrou com dois breaks consecutivos e praticamente sentenciou as contas com o 3-0, confirmando depois a vitória por 6-4 num set que só não foi mais rápido porque o sérvio conseguiu ainda quebrar o serviço do russo e ganhar depois o seu antes de não aguentar as lágrimas enquanto batia com a mão no peito a agradecer todo o apoio das bancadas. Algo de estranho se passou em Nova Iorque este domingo. Se foi ou não um só jogo, o ano de 2022 logo dirá. Uma coisa é certa: nunca Djokovic, ao longo de 31 finais do Grand Slam, sofreu uma derrota tão pesada.