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Uma, duas, dez, dezenas. Em juniores, em Sub-23, nos seniores. É a própria Vanessa Fernandes, que tinha nos seus genes a fibra, a resiliência e a perseverança do pai Venceslau, o velho Venceslau que com quase 40 anos foi ainda a tempo de ganhar a Volta a Portugal em bicicleta (e que ainda hoje sobe a Senhora da Graça a brincar como quem a sobe em competição), que assume ter entrado quase por acaso no desporto. A carolice, graças a um talento inato como poucas vezes se viu em Portugal, tornou-se um caso sério. E continuou ali, no topo, nos Europeus, nos Mundiais, nos Jogos Olímpicos. Aqueles cinco anos entre 2003 e 2008 revelaram a super atleta com um currículo sem paralelo nesse período no desporto nacional. E a seguir, onde foi?

Vanessa, aquela Vanessa que era (e continua a ser) uma das meninas queridas de Portugal pela forma como aliava o toque de Midas nas sucessivas provas de triatlo e duatlo que lhe valiam vitórias ao sorriso ainda de aparelho ao cortar a meta, quebrou. Pior do que isso, quebrou à frente de todos com quase todos a olharem para ela como se não tivesse quebrado. Hoje, sem aparelho, sorri de outra forma com as pequenas vitórias que vai conseguindo nas coisas mais simples da vida que nunca teve naqueles anos de consagração. E é esse trajeto até à medalha de prata em Pequim, naquele que seria o último grande triunfo internacional, que explica o valor que dá às coisas que por serem tão simples quase desvalorizamos nos dias que correm.

Bulimia, depressão e internamento são alguns dos pontos que Vanessa Fernandes aborda no documentário 72 Hotas Antes, uma curta metragem do projeto Betclic NXT que aborda a preparação da atleta para os seus segundos Jogos (em Atenas foi oitava) mas que se transforma com o passar dos minutos num arrepiante testemunho de como se pode fazer mal a um dos maiores bens inatos que o desporto nacional teve.

Quando chegou ao Centro de Alto Rendimento de Rio Maior, com apenas 16 anos, teve muitas dificuldades em continuar a seguir os estudos porque chegava às aulas já cansada, tanto que não conseguiu conciliar e as duas vertentes e não acabou o décimo ano. Das 6h às 20h, tudo era dedicado ao treino. “Tem de se aniquilar a parte de criança que temos para sermos mais adultos e termos resultados. Por exemplo, quando disseram que era bom perder algum peso para ser melhor na corrida, foi super doloroso para a minha mãe ver que não estava a comer a comida dela. O meu treinador chegou a ligar ao meu pai a perguntar o que é que fazíamos ao fim de semana, quando vinha a casa, porque parecia uma velha. ‘Não fazemos nada, descansa'”, conta. Numa das idas levou mesmo uma tenda que simulava maior pressão e ali passou o fim de semana.

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“Dizia à minha irmã que só queria ter uma vida normal, amigos e namorado. Mas ao mesmo tempo pensava que se fosse aos Jogos, cortasse a meta e ganhasse uma medalha, estava tudo bem, já podia morrer descansada. Só discutia porque achava que nunca era suficiente o que eu andava. ‘Vamos aguentar mais um bocado e logo se vê’”, recorda. “Gostava dos dias pré-prova, era como se fosses buscar o máximo de coisas para arranjar prazer. Há desculpa para descansar um pouco mais, para comer mais, para não treinar tanto e eu aproveitava. Tinha episódios bulímicos constantes. Eram horas e horas e horas durante um dia. É de alguém que está doente, a fazer mal ao corpo. Muita gente sabia mas o que podia acontecer? Perdiam tudo. O que permiti a mim também permiti que me fizessem. Falava muito feliz mas dez minutos antes estava a fazer as piores porcarias e quase a acabar com a vida”, acrescenta, antes de falar do dia da medalha.

“A minha mãe segurou muita coisa, é incrível, parece que estou a ver isso. Ela assegurou que eu não me desligasse”, diz sobre a mãe que andou pela única vez de avião nessa viagem para Pequim, quase como se estivesse a adivinhar o que se ia passar. “Ali é uma vida inteira num dia. Na prova, entrei num espetáculo. Mergulhei, quase que ainda me lembro do cheiro dentro de água. Vais para ali, vais para dentro de uma guerra, de uma arena. Vais armar-te e dizer que não aí? Não, é lutar até ao fim. Entras no modo perfeito de uma máquina de competição. Na transição para a corrida, nem me chateei ir para a frente, quase quis uma desculpa. Houve quase uma autosabotagem na passagem para a corrida. Toda a gente a dizer que tinha de ir à medalha, a terceiro pelo menos, e eu ‘calem-se pá, acham que eu não sei?’ Só ouvia que era preciso sofrer até morrer mas eu queria era libertar-me, estava farta desta coisa das medalhas. Diluí a minha pessoa por completo na obtenção desse resultado”, assume a antiga atleta nacional.

“Entras numa personagem. És o Deus, o invencível. Era como se me tivesse deixado ser escrava do meu próprio sucesso. Estava com uma depressão e recorri a ajuda. Ia destruir a minha vida. Fui internada. Foi um caminho de acordar para o desenvolvimento pessoal, a seguir vem vida, paz, harmonia, aceitação, vem libertação”, concluiu no documentário que teve a antestreia esta terça-feira numa sala de cinema.

“Ainda estou a sair de uma ressaca. O que me dá hoje prazer? Viver o mais simples possível”

“Não digo que seja um aliviar, é apenas a abertura de uma porta, o contar das coisas e sensibilizar um bocado até por tudo o que aconteceu nos Jogos, é uma questão que está agora no auge. Quis apenas dar o meu contributo e contar um bocado da minha história. Tive sempre muitos apoiantes, Portugal sempre me apoiou e achei que era importante abrir esta porta porque são bastante importantes e a minha história com eles vai estar sempre muito junta. Ah, e ao mesmo tempo saberem onde é que estou, porque desapareci assim meio de repente. Sinto-me bem em fazer este documentário”, começou por comentar depois Vanessa Fernandes, hoje com 36 anos, aos jornalistas presentes, antes de falar sobre o que tem feito e o futuro.

“Senti durante toda a entrevista [que depois deu o documentário] muita libertação. Até em termos físicos, corpo e coração. E senti que fosse quase como se estivesse a fazer uma terapia para mim mesma, conversar comigo mesma para ver a minha história e não me massacrar com ela, apenas ver de uma forma diferente. Foi como se houvesse uma comunicação comigo mesma, de aceitação e de como foi a minha história. Não preciso de estar a causar pena ou sofrimento com isso, a vida é para andar para a frente. Já andei muito tempo nesse trabalho e nesse processo, porque bate durante algum tempo, mas depois vem um novo olhar e uma nova vida. Até acontecer é preciso haver esse mergulho mais interno”, salientou.

Está a ver uma ressaca? Acho que estou ainda a sair de uma ressaca… Quando parei tive aquele impacto, ‘ok, não sou mais atleta, não sou mais aquilo, e agora?’. Quase que preferes ficar a sofrer e seres uma personagem e uma identificação com aquilo do que dizer ‘acabou-se, tenho de me virar para outro lado’. É um desvincular de uma identidade, como se quebrasse o que acreditava e achava de mim, para entrar numa linha de pensamento e uma linha nova de vida”

“O que me dá prazer? Viver o mais simples possível, ver as coisas o mais simples possível porque como fui tão habituada a viver com estímulos, que era ganhar, ou pessoas, ou dinheiro, ou patrocínios, ou fama… Agora… Tenho de saber estar nesta simplicidade, é um alívio muito grande porque preciso de muito pouco para me amar, para estar bem comigo, para viver bem. É nessa simplicidade que me vou encontrando cada vez mais e adoro este tipo de conversas. Tudo para mim desde que seja para conhecer e abrir horizontes para ajudar a humanidade, o desporto… É assim agora, ir ao mais simples possível. Natureza, praia… Criar um novo ciclo meu, que também vai ao encontro de resgatar a minha parte feminina que tem sido um dos meus trabalhos e que foi muito aniquilada com o passar dos anos. É uma nova sabedoria, um novo ciclo”, referiu, admitindo a possibilidade de ser treinadora ou no mínimo trabalhar com jovens numa nova dinâmica.

“O primeiro conselho que dava hoje a uma rapariga de 16 anos que viesse de Perosinho para um Centro de Alto Rendimento? Não podia dar conselho nenhum sem a conhecer primeiro, perceber de onde veio e qual é a dinâmica dela… A única coisa sem conhecer era respeitar sempre os seus limites e o que está preparada para fazer, não porque alguém de fora lhe diz que tem de fazer mais mas ela ser capaz de dizer e de respeitar o ponto onde está. E se for preciso dizer não, dizer não, que não faz. Se soubesse isso hoje se tinha desistido? Não acho que seja um caso de desistir, é fazer as coisas de uma maneira diferente. Muitas vezes vemos os treinadores como os deuses, os que mandam, a quem não se pode dizer que não… Se calhar deveria muitas vezes ter feito isso, quando me estava a custar e quando os dias não estavam fáceis, dizer ‘basta, hoje não’. Ter uma comunicação diferente é o que muda as coisas”, explicou.

“O meu início no desporto foi super espontâneo, as coisas só começaram a ser mais intensas e comprimidas em 2006, 2007… Começou a ser tudo muito tenso, foi um boom muito grande. Mágoas? Vamos falar de mágoas, será que isso é bom? Eu não vou falar de mágoas, houve coisas que me marcaram mas não estou aqui para culpar pessoas. São atitudes, atitudes que quando os atletas olímpicos estão juntos é preciso que se respeitem uns aos outros, respeitar o que cada um está a passar e houve um momento em que passou das marcas mas também foi porque eu permiti”, concluiu, querendo passar ao lado da parte má que viveu.