Morreu Frederik Willem de Klerk, antigo presidente da África do Sul. Foi o último presidente da República sul-africano nos tempos do apartheid e uma das mais importantes personalidades a participar na transição para a democracia. Tinha 85 anos e sofria de mesotelioma, um cancro que afeta um fino tecido que cobre alguns órgãos internos.
A morte foi confirmado ao News 24 por fonte oficial da fundação de Frederik Willem de Klerk: “O antigo Presidente morreu no início da manhã na sua casa em Fresnaye depois de uma luta contra o cancro”, disse Dave Steward. O atual Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, deve prestar declarações em breve.
Frederik Willem de Klerk venceu com Nelson Mandela o Prémio Nobel da Paz em 1993 “pelo trabalho a favor do fim pacífico do regime do apartheid e por lançar as bases para uma nova África do Sul democrática”, explicou o comité do galardão na altura.
Aliás, foi ele quem libertou Mandela da prisão, permitindo que o ativista viesse a assumir a presidência da África do Sul em 1994 com Frederik Willem de Klerk como número dois até 1996. Um relatório publicado quatro anos depois sobre as atrocidades praticadas no apartheid ainda aponta responsabilidades a De Klerk, mas o ex-Presidente protestou em tribunal e ganhou o processo, libertando-se das acusações.
Sete meses depois de ter assumido a liderança do Partido Nacional, De Klerk tornou-se Presidente de África do Sul nas últimas eleições em que só pessoas brancas podiam votar. Precisamente um ano depois de ter tomado posse, a 2 de fevereiro de 1990, anunciou ao Parlamento que iria libertar Nelson Mandela. O processo de negociação ainda durou quatro anos, mas abriu portas para o fim da segregação na África do Sul.
Ainda assim, o papel de De Klerk no apartheid e as visões que tinha sobre o regime sempre causaram dúvidas e suscitaram novas críticas mais recentemente. Em 2012, o antigo Presidente sul-africano condenou os efeitos do apartheid, mas não recuou na defesa de um sistema de cidadãos “separados, mas iguais”.
Na entrevista à CNN nesse ano, a jornalista Christiane Amanpour disse: “Estou a oferecer-lhe a oportunidade, como pessoa que ajudou a desmantelar o apartheid, a dizer se acredita ou não que [o sistema de segregação] também era moralmente repugnante, hoje, em retrospetiva”. De Klerk respondeu: “Só posso dizer isso de forma qualificada. Na medida em que atropelou os direitos humanos, era — e continua a ser, e eu também disse publicamente — moralmente indefensável. Muitos aspetos são moralmente indefensáveis”.
Em resposta à polémica que surgiu depois da publicação da notícia, fonte oficial da fundação de De Klerk afirmou que as declarações do antigo Presidente tinham sido retiradas do contexto e que ele se referia aos ideais que defendia quando era jovem. O próprio De Klerk veio acrescentar: “Não vou lamentar por dizer o que me moveu quando era jovem, antes de decidir que precisamos de abraçar uma nova visão”.
“Foi uma busca para trazer justiça aos sul-africanos negros de uma forma que não faria — era o que eu acreditava na altura — destruir a justiça a que o meu povo tinha direito. O meu povo, cuja autodeterminação foi tirada pelo poder colonial na Guerra Anglo-Boer”, prosseguiu De Klerk. Ainda assim, houve quem defendesse que o antigo Presidente nunca tinha sido perentório a condenar a segregação sul-africana.
O debate reacendeu-se em fevereiro do ano passado, quando Frederik Willem de Klerk afirmou que a classificação do apartheid como um crime contra a humanidade “era e continua a ser um projeto agitprop iniciado pelos soviéticos e pelos aliados do Congresso Nacional Africano e do Partido Comunista para estigmatizar os sul-africanos brancos associando-os a verdadeiros crimes contra a humanidade”.
Mais uma vez a Fundação Frederik Willem de Klerk veio a público com declarações do próprio político que colocariam água na fervura: “Concordo com a Fundação Desmond e Leah Tutu em como este não é o momento para reclamar sobre os graus de inaceitabilidade do apartheid. Era totalmente inaceitável”, concluiu.
Filho de Johannes de Klerk, que foi ministro do Partido Nacional e participou no estabelecimento do apartheid como sistema sociopolítico oficial da África do Sul, e de Hendrina Cornelia Coetzer, cuja família paterna era originalmente austríaca, as raízes de Frederik Willem de Klerk fazem dele descendente de Eva Krotoa, uma tradutora da língua cóis que trabalhou com a Companhia Holandesa das Índias Orientais durante a fundação da Colónia do Cabo, no Cabo da Boa Esperança (a primeira colónia naquela região) e que teve descendentes com um holandês.
O papel político do pai na criação do apartheid influenciou o início do percurso de Frederik Willem de Klerk, admitiu o próprio irmão, que em jovem era já mais liberal que o ex-Presidente. Ambos foram educados com os costumes da cultura africânder e ouviram sobre as histórias da “era da injustiça” cometida pelos britânicos contra ela. Este contexto transpareceu nas opiniões partilhadas mais recentemente por Frederik Willem de Klerk sobre o apartheid, apesar de ele mesmo ter participado decisivamente no derrube do regime e na luta pelo sufrágio universal.