O genérico da apresentação podia ser decalcado dos Monty Python, a expressão “And Now for Something Completely Different” dificilmente assentaria melhor no que está em causa. A Segunda Liga portuguesa tem algumas apostas mais distintas do habitual, como aconteceu por exemplo na última temporada no caso da Oliveirense com Kazu Miura, japonês de 56 anos que é o mais velho jogador profissional ainda em atividade depois de passagens por Brasil, Itália, Croácia e Austrália além de vários escalões nipónicos e que chegou a Oliveira de Azeméis também pelo facto de o principal acionista da SAD do clube ser o grupo Onodera, que detém também o Yokohama FC. No entanto, o Länk Vilaverdense deu o passo em frente nesse particular.

Inspirou Tsubasa, tem uma comitiva pessoal, fala português, jogou Mundial de futsal: o jogador mais velho do mundo reforçou a UD Oliveirense

O anúncio da contratação de Sherwin Dandery já poderia ser um motivo suficiente para acompanhar de forma mais atenta o percurso do atual penúltimo classificado do segundo escalão (a um ponto da zona de playoff e a cinco da manutenção quando falta jogar quase toda a segunda volta). O avançado neerlandês de 25 anos tem um currículo até pouco habitual para este patamar nacional, com passagens por Wolverhampton e Bradford depois de ter feito formação no Excelsior, no NAC Breda e na Nike Academy, mas dá nas vistas não por esse percurso que após os escoceses do Motherwell esteve interrompido durante quase três anos mas por ser sobrinho de Clarence Seedorf, único jogador que conquistou a Champions por três formações diferentes (Ajax, Real e AC Milan). “Mas temos uma relação distante, quase não falamos”, admitiu à BBC.

Havia mais. E o mais acaba por ser uma aposta que ninguém percebeu ao certo o que pretende e o que pode trazer em termos desportivos mas não só. Sabe-se, apenas, que é aposta. Nome? Courtney Reum.

Comecemos pelo mais básico e que é também o mais fácil de contar. Tendo 45 anos, Reum é avançado mas nunca jogou futebol a um nível profissional em nenhum clube e a experiência que tem na modalidade está resumida à passagem que teve pelos Columbia Lions, equipa de futebol da Columbia University de Nova Iorque. Apesar da “falha” para quem pretende jogar a um certo nível, o currículo é bem mais vasto mas não na parte desportiva, com Courtney Reum a destacar-se como empresário, investidor e autor de um livro de sucesso (“Shortcut Your Startup: Speed Up Success with Unconventional Advice from the Trenches”).

Irmão mais velho de Carter Reum, conhecido por ser casado pela socialite e bisneta do fundador da cadeia de hotéis Hilton, Paris Hilton, Courtney, que nasceu em Wayne, no Illinois, é um dos co-fundadores da M13, uma empresa de investimento que tem operado na área da saúde e apresenta um património líquido avaliado acima dos 32 milhões de euros. Licenciado em Economia e Filosofia, fez parte da lista dos “30 Under 30” da Forbes e das “500 empresas privadas norte-americanas que tiveram um crescimento mais rápido” da Inc. Após a passagem como investidor pela Goldman Sachs, criou uma empresa de marca própria de álcool, a VeeV, que depois cresceu em termos nacionais e acabou por ser vendida num negócio milionário em 2016, altura em que fundou também com o irmão a M13 com participações em dezenas de empresas e startups.

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Courtney Reum, à esquerda, é o irmão mais velho de Carter Reum, marido da socialite e herdeira dos hotéis da cadeia Hilton, Paris Hilton

Sobre futebol, poucas ou nenhumas referências no currículo e na própria página do Instagram, que reúne quase 300 mil seguidores. E o próprio Länk Vilaverdense não pretende dar mais explicações sobre a aposta. “Foi uma escolha do departamento de scouting. A idade não seria um problema porque tem a energia de um jogador de 20 anos” respondeu o clube ao jornal A Bola. Para já, a estreia ainda está longe. Ou melhor, está literalmente muito longe: num dia em que o conjunto de Vila Verde vai receber o Santa Clara, que lidera o segundo escalão nacional, Courtney Reum tem-se entretido a colocar fotografias no Uyuni, na Bolívia, onde se encontra o maior deserto de sal do mundo. E, mais uma vez, sem alusões ao futebol.