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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Então, Bruno, ninguém gosta do presidente?

Não, Carla, há muita gente que gosta do presidente da República. António José Seguro continua a ter uma popularidade elevada. Já tínhamos visto aqui há umas semanas que os níveis de popularidade não são os do Marcelo, o que até deve agradar a Seguro, mas a avaliação dos portugueses é largamente positiva, de acordo com os barómetros mais recentes. O problema é que, entretanto, começaram a aparecer críticas vindas de vários lados e alguns até inesperados para António José Seguro. Ferro Rodrigues, o antigo presidente da Assembleia da República, considera a presidência até o momento positiva, mas lamenta aquilo a que chamou as muitas ausências de Seguro em matérias importantes. Ascenso Simões, também do PS, foi ainda mais longe, disse que o presidente corre o risco de se transformar numa espécie de rainha de Inglaterra. Agora já é rei, já não é rainha de Inglaterra, mas diz que Seguro arrisca-se ser alguém que está lá, que faz uns discursos simpáticos, mas que não intervém quando se espera uma palavra mais firme. À esquerda, o Bloco de Esquerda e o PCP também criticam o silêncio de Belém sobre o custo de vida e a habitação, e discordam de várias decisões do presidente sobre leis mais polêmicas. À direita, a AD tem elogiado a postura institucional de António José Seguro, mas também há críticas vindas de figuras próximas de Passos Coelho, que pedem mais iniciativa ao presidente. Ou seja, da ampla coligação informal que elegeu António José Seguro, parece que só sobra o governo, que é o único que, neste momento, não atira achas pra fogueira.

E é hoje, parece que é mesmo hoje, que vamos saber quem é que vai comprar a TAP.

É verdade, Nelson, é mesmo hoje que se fica a saber quem vai ser o comprador. Os dois finalistas são a alemã Lufthansa, que tem no seu grupo outras companhias de outros países como a Swiss, a Austrian Airlines ou a Eurowings. E do outro lado estão os franceses e holan-- ainda se pode dizer holandeses ou não?

Neerlandeses.

Neerlandeses da Air France e da KLM. O Conselho de Ministros vai decidir então quem compra os quase 45% do capital da TAP, das propostas concretas. Sabe-se pouco, sabe-se que os alemães oferecem, por exemplo, todo o preço que propõem, que não se sabe qual é, mas que se propõem pagar em dinheiro, all in cash, dinheiro vivo, à antiga.

Em sacos.

Não será em saco, talvez uma transferência bancária, mas com muitos zeros, certamente. E no caso da Air France KLM propõem, como alternativa, que uma parte do negócio seja pago através de uma troca de participações. Ou seja, o que é que isso significa? A Air France KLM, no seu modelo, ficava então com os quase 45% da TAP e em vez de pagar isso tudo, dava ao Estado português a possibilidade de ficar também com uma pequena percentagem na Air France KLM. Já agora, a Air France KLM tem participações também minoritárias, abaixo dos 30%, quer do Estado francês, quer do Estado neerlandês, dos Países Baixos. Portanto, nós assim ficaríamos, imaginem, todos acionistas e sócios da Air France KLM, além da TAP, isso era uma maravilha. Vamos ver.

O governo prefere cash.

Vamos ver o que o governo vai decidir, não é?

Aposto. Fica aqui a minha-

Achas? Achas sim. A minha mirinha à antiga, não vamos estar cá com modernices, troca de participações.

Alguma imprensa que dá conta de algum favoritismo da Lufthansa, mas temos que confirmar pela-

É possível. Os alemães são sempre favoritos em tudo, não é? No fim ganham eles.

11 contra 11.

No futebol, já não. Já não no futebol. Isso é de outros tempos. Depois da decisão de hoje, há um calvário burocrático e de regulação com Bruxelas e só daqui a dois anos, mais ou menos, é que o processo vai estar fechado, mesmo depois da decisão e do acordo fechado. Mas é um passo decisivo, este de hoje, para voltar a vender a empresa. A empresa já foi vendida, privatizada e nacionalizada várias vezes, e para afastar o Estado de decisões que são empresariais. João Cravinho já queria, nos anos 90, vender a TAP a um grande grupo europeu, na altura era a Swissair, que entretanto faliu. E reparem, essa ideia vai acontecer então 30 anos depois.

É o ano do limite.

É o tempo que demora a traduzir as coisas pra português.

Exato.

É o tempo que demora a maturar a ideia, como se diz agora. Também vi na imprensa que ambas subiram as suas propostas depois daquela ronda extra de negociação.

É normal, sim. O governo depois junta-se numa sala com um, depois vai pra outra sala com outro, que é pra tentar fazer render, como é evidente.

Muito bem, Bruno. Só faltava a Greta Thunberg agora nas manifestações de Paris. Lá apareceu, não é?

É verdade, e é caso pra dizer: "Olha quem é ela", ou "Bons olhos te vejam". Os estudantes franceses até têm feito um excelente trabalho ao nível dos protestos. Também é uma tradição francesa, mas agora contam com um reforço de peso, uma especialista das greves às aulas, a ativista climática sueca Greta Thunberg. A jovem apareceu em Saint-Denis, nos arredores de Paris, e declarou que o futuro dos jovens está a ser roubado. Uma frase que serve pra quase tudo, mas que neste caso até vinha acompanhada de uma lista bastante concreta de queixas sobre o estado das escolas francesas, da falta de professores à degradação dos edifícios. Greta Thunberg, ela que faltava às aulas pra defender o planeta, agora está ao lado daqueles que protestam por falta de condições para ter aulas. O que interessa, como ela disse, é que o futuro dos jovens está a ser roubado. O futuro dos jovens ocidentais, coitadinhos. Ainda vão a tempo de chamar António Guterres, depois é só juntar aqui umas tendas e umas bandeiras da Palestina e temos uma manifestação multiúses para todas as gerações, e não só para os jovens que veem o seu futuro a ser roubado.

E por falar em mudanças, o mundo da televisão e dos direitos de transmissão já não é o que era. Paulo, as coisas vão mudar.

É, parece que é irreversível. E aquilo que timidamente foi acontecendo nos últimos grandes eventos vai passar a ser o padrão. A Netflix comprou os direitos exclusivos da transmissão para Espanha e para Andorra do Mundial de Futebol 2030, que está a ser organizado também em Espanha, mas em parceria com Portugal e Marrocos. E a plataforma vai assegurar então a cobertura integral e em direto dos 104 jogos. Em Espanha, haverá um jogo obrigatoriamente em canal aberto por cada jornada e um conjunto de jogos que inclui todos os jogos da seleção espanhola, as duas meias-finais e a final, que também serão transmitidos em canal aberto. As estações de televisão tradicionais estão assim cada vez mais fora de jogo também nos grandes eventos desportivos, que são campeões de audiências em quase todo o mundo quando ocorrem. No Mundial este ano já tínhamos tido a experiência cá em Portugal também da Live Mode TV, o que significa que agora com as grandes plataformas a chegarem a este negócio, isto já não volta atrás.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais pra fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.