A camisola da UD Oliveirense que Kazuyoshi Miura adicionou ao guarda-fatos pesa-lhe cada vez que a coloca no corpo. Nela não carrega o peso da idade porque dessa tem uma comitiva pessoal de fisioterapeutas, cozinheiros e nutricionistas que trouxe para Portugal e que lhe tratam de prolongá-la. Pesa-lhe antes a vontade de jogar futebol que renova a cada dia que passa. 55 anos fazem de Kazuyoshi Miura, reforço japonês do emblema da Segunda Liga, o jogador mais velho do mundo que leva uma história que, como disse em entrevista ao L’Equipe, em 2019, não vai ficar por aqui: “Quero jogar até morrer”.

“King Miura” instala-se por estes dias em Oliveira de Azeméis. Por mais qualidade que tenha o hotel em que pernoita, Miura prova que não são precisas cinco estrelas para dar nas vistas. O jogador está habituado a ser reconhecido no Japão ou não tivesse sido uma das maiores referências da seleção nipónica durante vários anos. Ainda em julho de 2022, quando o PSG fez uma tour promocional pelo Japão, Kazu Miura recebeu Messi, Neymar e Mbappé.

Também na cidade do distrito de Aveiro, a sua chegada não passou em claro. Nos próximos seis meses, período em que cumprirá o empréstimo proveniente do Yokohama FC, equipa japonesa que detém os direitos desportivos do jogador, Miura, que até fala português, vai ser jogador da UD Oliveirense. A transferência não é obra do acaso, faltando apenas saber se terá o mesmo rendimento do que mediatismo.

A nova SAD do clube, presidida por Nobuyuki Yamagata, é comandada pelo Grupo Onodera (com uma participação de 52,5%), uma empresa japonesa com intervenção na área da alimentação, educação, desporto e medicina que assumiu o controlo da UD Oliveirense em novembro do ano passado. Também o Yokohama FC é detido pelo grupo Onodera, o que terá potenciado o negócio.

O treinador da UD Oliveirense, Fábio Pereira, tem menos 11 anos que o seu recente reforço. Antes de ser oficializada a chegada do jogador, o técnico comentou como seria ter um jogador tão experiente no plantel. “Se chegar um jogador com 55 anos, será tratado como os de 20 anos. E só jogarão aqueles que merecerem ir lá para dentro”, disse antes da transferência que se veio mesmo a confirmar. Os adeptos esperam que seja possível ver Miura em campo, no Estádio Carlos Osório, casa da UD Oliveirense, este sábado no jogo contra o Vilafranquense. Ainda assim, o ídolo nipónico já esteve a assistir ao jogo da equipa em Mafra, na jornada anterior da Segunda Liga, e percebeu-se logo aí que a realidade local vai mudar.

As opiniões dos adeptos dividem-se entre o elogio à jogada de marketing de trazer o jogador mais velho do mundo para Oliveira de Azeméis, colocando o clube nos meios de comunicação internacionais, e o desgosto pela falta de aposta em jogadores jovens. As métricas das redes sociais não escondem que Miura ajudou ao desenvolvimento dos meios do clube. A UD Oliveirense criou uma conta do Twitter em japonês que, com apenas quatro publicações, já tem mais seguidores do que o perfil principal do clube. 

Antes de rumar a Portugal, a “lenda” Miura, tal como a UD Oliveirense lhe chamou no vídeo de apresentação, encontrava-se a jogar, também por empréstimo do Yokohama FC, ao serviço do Suzuka Point Getters. Na quarta divisão do futebol japonês, o internacional nipónico era treinado pelo irmão, Yasutoshi Miura. Outro passo numa longa carreira que, a nível sénior, teve início no longínquo ano de 1986.

Sem nenhuma relação de parentesco, mas com bastantes semelhanças identificadas há muito pelos nipónicos, a cara de Kazu Miura assemelha-se a uma figura bastante conhecida do público mais jovem. Na série animada Capitão Tsubasa, o protagonista principal, Oliver, foi inspirado na figura de Kazu Miura, partilhando com a personagem animada o local de nascimento, Shizuoka, e o passado futebolístico no Brasil (e a determinada altura da carreira do jogador de 55 anos, o remate).

Foi precisamente no Brasil que Miura iniciou a carreira. Com 15 anos, começou a formação no Juventus de São Paulo, onde esteve até, já como sénior, fazer a estreia no Santos em 1986. Seguiram-se passagens em Matsubara, CRB, XV de Jaú, Coritiba e, na última experiência no Brasil, regressou ao Santos. Na América do Sul, encantou com a dança que fazia quando marcava golos, uma espécie de samba com molho de soja que não passava ao lado sequer dos adeptos adversários.

Em 1991, assinou com o Tokyo Verdi e foi no clube da capital do Japão que conquistou os quatro campeonatos nipónicos que tem no palmarés (de 1991 a 1994). O sucesso que alcançou fê-lo a voar até Génova, tornando-se no primeiro jogador asiático a atuar a Seria A. Miura foi para Itália por intermédio da multinacional Kenwood, que pagava o salário ao jogador e, sempre que entrava em campo, dava um bónus ao clube italiano. No fim da temporada, voltou ao Tokyo Verdi onde esteve mais quatro temporadas até regressar à Europa para representar os croatas do Dínamo Zagreb. Mais uma vez, a experiência durou apenas uma temporada.

De regresso ao Japão, Kyoto Sanga e Vissel Kobe foram a casa de Miura até chegar ao Yokohama FC. No final de 2005, foi emprestado aos australianos do Sydney FC, passando a somar experiências em quatro continentes. Na temporada seguinte, voltou ao Yokohama FC, de onde não saiu até 2021 quando se mudou para a equipa do irmão.

Quando entrou em campo, pelo Yokohama FC contra o Varen Nagasaki, em 2017, superou o mítico inglês Stanley Matthews, que detinha o registo de jogador mais velho fixado nos 50 anos e cinco dias. No dia em que o japonês deixar os relvados vai definir uma nova marca a ultrapassar por quem quiser ficar com o recorde.

Na seleção do Japão, o atacante fez 91 internacionalizações e 55 golos. Em 1992, sagrou-se campeão asiático. No entanto, nunca chegou a disputar o Mundial com os nipónicos. Pelo menos de futebol, uma vez que, em 2012, foi ao Mundial de futsal, onde defrontou… Portugal.

Na referida entrevista ao L’Équipe, Kazu Miura afirmou só estar preocupado em jogar futebol. “Não estou interessado em tornar-me treinador, presidente de um clube, diretor desportivo ou comentador desportivo. O meu único desejo é jogar e até à morte de possível. Quando morrer, não quero que seja noticiado que morreu o ex-jogador Kazu Miura, mas que morreu o jogador Kazu Miura”.