Tudo corria da pior forma, tudo começou a correr numa versão melhor é impossível. E começou a correr logo desde início, o que perante tudo o que acontecera antes deixava os bons resultados à espera de confirmação. Chegou pela primeira vez na segunda sessão de treinos livres, quando Miguel Oliveira arrancou o terceiro melhor tempo apenas atrás de Jorge Martín e Maverick Viñales. Chegou depois na Q2, quando ficou com o segundo lugar da grelha de partida atrás de Martín. Chegou mais uma vez na sprint, quando alcançou o seu melhor resultado de sempre num sábado com a segunda posição. O Sachsenring funcionou como palco de redenção para todos os males, a ponto de o piloto português ter conseguido fazer mais pontos só na sprint do que em todas as corridas de 2024, tendo em conta que o oitavo lugar em Espanha rendera oito e o segundo lugar agora contara nove. Agora, a nova vida queria ganhar prolongamento em mais um pódio.

A melhor qualificação do ano trouxe o melhor resultado do ano: Miguel Oliveira é 2.º na corrida sprint do GP da Alemanha

“É difícil identificar a única razão que levou a esta melhoria de desempenho. É uma combinação de vários factores. Por um lado, é a pista, depois é a nossa abordagem de não mudar demasiado a mota porque este fim de semana só trabalhámos na suspensão e na eletrónica. Como resultado, consegui tirar o máximo partido da minha mota. Quando ultrapassei o Pecco [Bagnaia], sabia que podia seguir o Martín. Infelizmente, a pressão dos meus pneus subiu um pouco entretanto. Apesar de ter tido uma corrida livre e o pneu ter arrefecido novamente, não foi suficiente para apanhar o Martín na frente”, explicou o piloto de Almada após o primeiro pódio do ano, neste caso alcançado na corrida sprint entre os líderes do Mundial.

“Estamos muito felizes com os resultados. Este foi o primeiro pódio da Trackhouse Racing no MotoGP e acho que o Miguel fez um trabalho fantástico. Teve um bom arranque, fez uma boa corrida e foi consistente. Esteve a lutar com os outros, protegeu-se de quem vinha atrás e tentou atacar o Martín. No global, teve um ritmo muito forte e mesmo tendo assumido que o vento foi um problema, o segundo lugar foi um resultado fantástico”, comentou também Wilco Zeelenberg, diretor da Trackhouse Racing. Mais uma vez, melhor era quase impossível e foi isso que teve também o condão de mostrar um novo Miguel Oliveira em termos de discurso para fora, deixando quase uma resposta a todas as críticas pelo início de temporada.

“Não faço isto por mais ninguém, senão por mim. Estou no Campeonato do Mundo por mérito próprio, não tenho nenhum grande patrocinador português em nenhuma equipa, não paguei o meu lugar nem para estar em lado nenhum, tudo aquilo que tenho feito e alcançado na minha carreira desportiva tem saído do braço, tem saído do meu suor e vai continuar a ser assim. Aproveito para agradecer aos verdadeiros fãs, à minha família que está sempre do meu lado. Não vão ser meia dúzia de comentários de redes sociais de pessoas frustradas, a quem falta muita conquista na vida pessoal, que me vão deitar abaixo”, apontou, no mesmo dia em que Fabio Quartararo, que na chegada a Alemanha teria apontado Fabio Di Giannantonio como o “preferido” para a nova equipa da Pramac na Yamaha, se desfez em elogios ao português.

Agora, antes de uma paragem de um mês com o regresso marcado para o início de agosto na Grã-Bretanha, chegava uma espécie de última missão. Qualquer resultado no top 5 já seria bom à luz da atual temporada e da possibilidade de subir ao 11.º lugar do Mundial antes das 11 provas da segunda metade da época de 2024 mas a sprint abria a ambição de somar novo pódio na principal corrida, algo que não conseguia desde 2 de outubro de 2022 quando ganhou com mestria o Grande Prémio da Tailândia. Para isso, à semelhança do que tinha acontecido na véspera, o arranque seria um dos elementos decisivos para o resto da corrida.

Foi um início quase perfeito. Aliás, além de ter arrancado bem, Miguel Oliveira chegou mesmo a colocar a sua mota ao lado de Jorge Martín mas ficou na segunda posição, descendo um lugar na volta seguinte por Pecco Bagnaia e tendo na roda Franco Morbidelli, com um arranque canhão que lhe deu alguns postos até entrar na luta pelo pódio. Ao invés, Raúl Fernández desceu a sétimo mais uma vez. As posições continuavam instáveis, com a terceira volta a fechar com Bagnaia na frente, Martín em segundo e Morbidelli já em terceiro.

Morbidelli chegou a ter três décimas e meia de vantagem em relação ao português mas Miguel Oliveira teve uma boa reação, colando de novo no italiano tendo Álex Márquez na sua roda e com Maverick Viñales, Raúl Fernández e Marc Márquez apostados em não perder o comboio. Seria o espanhol da Gresini a ganhar a luta com o português, que desceu a quinto mas sempre com tudo em aberto e com Morbidelli a conseguir de novo colar nos dois da frente para criar um fosso em relação à concorrência numa fase em que Martín assumia a liderança e Maverick Viñales passava pela gravilha após falhar a manobra em busca do quinto lugar.

O renascido Morbidelli continuava a dar nas vistas, subindo mesmo a segundo à frente de Pecco Bagnaia com Jorge Martín na frente a ganhar uma ligeira vantagem e Miguel Oliveira “entalado” entre as duas Gresini dos irmãos Álex e Marc Márquez. Até meio da volta, eram os espanhóis que conseguiam ter supremacia sobre o português; a partir daí, no terceiro e sobretudo quarto setores, o português voltava a ser mais rápido. Com Bagnaia sem ritmo para voltar a colar em Morbidelli, Miguel Oliveira continuava a ter uma corrida quase em forma de “harmónio” no quinto posto, a atrasar e aproximar consoante a zona da pista. Um pouco mais atrás, Enea Bastianini passava Raúl Fernández na sétima posição e voltava a desenhar uma prova de trás para a frente quando o top 6 estabilizava mas com Franco Morbidelli a perder fulgor e Marc Márquez a passar Miguel Oliveira na curva 13 quando estávamos exatamente a meio da corrida na Alemanha.

Pouco depois, a ameaça de Enea Bastianini confirmou-se e Miguel Oliveira desceu mesmo a sétimo, numa posição de onde já seria muito complicado descer mas também sem grandes hipóteses de subida perante o recital das Ducati na frente já com Álex Márquez em terceiro à frente de um Morbidelli que ia perdendo o seu ritmo inicial de corrida. A decisão da corrida estava em aberto entre Martín e Bagnaia, o pódio tinha na luta os irmãos Márquez, Morbidelli e o próprio Bastianini, Miguel Oliveira rodava na terra de ninguém a 1,5 segundos da frente e com mais de cinco segundos de avanço para Raúl Fernandez. A luta pelo quinto posto era o grande foco mas o golpe de teatro estava para chegar, com Jorge Martín de novo a errar e Pecco Bagnaia a assumir a liderança após a queda do espanhol que lhe retirou também o topo do Mundial, com Marc Márquez a conseguir ainda selar uma fantástica recuperação passando de 13.º para o segundo posto.

Apesar de não ter conseguido repetir o brilharete da véspera, em que conseguiu chegar ao pódio na sprint, Miguel Oliveira terminou como a melhor mota não Ducati no Grande Prémio da Alemanha e mantém o 13.º lugar do Mundial, atrás Marco Bezzecchi, Franco Morbidelli e de Álex Márquez, que fecha o top 10. Até aqui, o português tinha 32 pontos, agora subiu a 51 – ou seja, fez 40% apenas em dois dias. Na frente, Bagnaia aproveitou o “presente” de Jorge Martín e fecha primeira parte da temporada na liderança.