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Olá e bem-vindo ao "Conversas no Tee", o podcast que cruza a paixão pelo golfe com o universo pessoal e profissional de quem o joga. Um projeto em parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e com o apoio da DS Automobile, a acompanhar esta viagem pelo universo do golfe, onde cada detalhe conta. Diz-se frequentemente que alguns dos melhores negócios e parcerias não se fecham numa sala de reuniões, mas sim ao longo de 18 buracos e por isso hoje vamos falar sobre o green como espaço de networking, confiança e relações empresariais. Eu sou a Maria João Simões e tenho comigo dois nomes bem conhecidos: a especialista em comunicação e apaixonada jogadora de golfe, Rita Serrabulho, e o presidente da Federação Portuguesa de Golfe, Pedro Nunes Pedro. Bem-vindos aos dois. Muito obrigada por terem aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia, muito obrigada, ambos.

Obrigado, Maria João.

Rita, começo por si. Vem do mundo da comunicação e dos assuntos públicos e pelo que estive a ver, é presença assídua em torneios. Quando entra num campo de golfe, até que ponto o jogo é evasão ou é uma extensão natural do seu networking?

Antes de mais, bom dia uma vez mais. Obrigada pelo convite. É um gosto estar neste podcast dedicado a uma modalidade que bem precisa de ser promovida e explicada, porque tem efetivamente muitas nuances e muitas vantagens do ponto de vista desportivo e eu diria até do ponto de vista social e mental e também networking. Indo à sua questão. Eu diria que é um jogo, desse ponto de vista, algo esquizofrénico e eu explico porquê. Porque para se jogar bem golfe é preciso um enorme foco e claro que cada pessoa é uma pessoa, e eu falo pela aquilo que é a minha experiência. E portanto, para haver foco tem que haver uma evasão de todas as preocupações.

Portanto, não levar para o green as preocupações.

Não levar para o campo as preocupações. Por outro lado, se estivermos em networking constante, isso passa a ser uma distração, passa a ser uma armadilha. No entanto, estamos a falar de uma caminhada de cerca de 10 km durante quatro horas e é natural que as pessoas entre si troquem algumas informações e algumas ideias. E efetivamente, imagino que já lá iremos, que tipo de ideias e que tipo de conversas é que se têm. Mas é esquizofrénico por isso, porque não podemos jogar, de facto, preocupados com nada, o foco tem que ser total. Mas é muito difícil também nós jogarmos quando temos responsabilidades e quando temos preocupações com as próprias. E portanto, a competição também começa com nós próprios desse ponto de vista.

O que é que o golfe tem de tão diferente quando se trata de conhecer verdadeiramente quem está ao nosso lado? Diz-se que quatro horas num campo revelam muito mais sobre o caráter de alguém do que quatro meses num escritório. Assina por baixo, Rita?

Sim, eu acho que o golfe é uma expressão de nós próprios, daquilo que é a personalidade de cada pessoa, porque como é um jogo que exige muita concentração, muita técnica e onde nós jogamos acima de tudo com o campo, também com quem estamos, mas acima de tudo com o campo. E se formos competitivos, que é o meu caso, eu sou uma pessoa altamente competitiva, é um jogo que nos pode dar a maior das alegrias, como a maior das tristezas e frustrações. E portanto, nesse sentido, eu subscrevo, sim.

Pedro, enquanto presidente da Federação Portuguesa de Golfe, como é que olha para esta dimensão corporativa e social da modalidade em Portugal? O golfe é cada vez mais visto como um ativo para o tecido empresarial.

Eu acho que sim. Não quero fugir à pergunta, ou seja, eu acho que a Rita já disse, e bem, nesta parte inicial. Eu acho que o golfe tem aqui duas dimensões. Uma é uma dimensão corporativa, porque há muitos empresários, muitos gestores que jogam golfe, pequenos e médios empresários, enfermeiros, políticos e por aí fora. Portanto, há muita gente que joga golfe.

Convém desmistificar a ideia de que é uma elite só, não é?

Sim, não é elite. Somos muito poucos em Portugal, a nossa elite é muito pequena e nós somos quase 20 mil jogadores e por isso não há 20 mil ricos a jogar golfe. Eu acho que há 19.937 pobres, ou pelo menos classe média, a jogar. Por isso, eu acho que, obviamente, e a Rita disse e bem, é uma dimensão de networking que nós podemos ter, porque estamos quatro horas com uma pessoa e temos acesso, obviamente, a pessoas que jogam golfe e que são pessoas que gostam de jogar golfe porque sim, porque fazem exercício, porque andam os tais 10 km ou 12 km e queimam muitas calorias. Portanto, essa parte, essa dimensão é importante também. Agora, durante quatro horas eu já vi muitos empresários, a partir do buraco dois, que estão completamente focados é no jogo e não querem saber de conversas de política ou de economia ou de negócios. Agora, conhece-se as pessoas durante quatro horas. O que a Rita estava a mencionar, e concordo, durante quatro horas nós estamos a falar com as pessoas sobre a sua vida, a sua mulher, os seus maridos, os seus filhos, como é que está a saúde, por aí fora, e isso tem uma dimensão depois para além do networking, porque fica a amizade. São quatro horas que nós estamos juntos e contactamos. Temos ali um breaking ice, temos ali uma fase onde conseguimos quebrar o gelo e é mais fácil depois, se calhar, de falar um dia ou telefonar, porque as pessoas normalmente ficam ou com os contactos. Agora, o outro lado é a dimensão social, que eu acho que essa parte é que é No caso da Federação diz mais respeito que é a parte do envelhecimento ativo, a parte das pessoas poderem jogar as tais caminhadas 10 km.

Não existe uma idade limite, é até o corpo permitir.

Não, o golfe eu costumo dizer é dos sete aos 77, como o Tintim, mas é mais do que isso. Hoje em dia, com o envelhecimento mais longo, nós temos muitas pessoas a jogar acima dos 80 anos e que bom que é, porque estão ativos, não estão nos cafés.

E gostam mentalmente também.

Não estão a fumar cigarros, estão a ouvir a Rádio Observador provavelmente de manhã, mas a seguir vão jogar golfe. E eu acho que isso é bom. É muito usual ver nos clubes pessoas mais velhas permanentemente a conviverem. E a seguir, se calhar, vão tratar dos netos à tarde ou qualquer coisa, mas pelo menos aquela manhã estão a desfrutar da manhã e isso é uma alegria ver, porque eu vou chegar lá e vou querer estar num campo de golfe a jogar até aos meus 80 ou 90 anos, se puder.

Mas o facto é que ainda existe o preconceito que o golfe é um clube fechado. Além de podcasts como este, o que a Federação tem feito para desmistificar esta ideia e para mostrar que o green está de portas abertas a novos praticantes?

Não temos tempo, como é óbvio, porque isso é um podcast mais curto, mas obviamente que o golfe tem essa parte antiga dos clubes, fechado. Mas eu costumo dizer, os campos são todos públicos. No fim do dia, são todos públicos. Há muito poucos campos privados em Portugal. Há um acesso onde as pessoas podem jogar, têm que pagar. Eu costumo dizer também que é como os restaurantes, há restaurantes três estrelas Michelin, duas estrelas Michelin e há tascas e boas tascas. Há uma espécie de um menu, uma panóplia de campos e de acesso, ou seja, há campos mais caros. Hoje em dia temos excelentes campos, quer no Algarve, quer na costa alentejana, que tem sido agora um dos destinos mais reconhecidos e mais promovidos, e são campos menos acessíveis aos portugueses, à bolsa dos portugueses.

É um aspeto muito importante.

Que é importante. E a seguir, há os campos mais acessíveis que nós temos, quer no centro de Lisboa, quer no norte de Lisboa, e onde nós podemos jogar a preços bastante razoáveis e comparáveis com outras modalidades. Nós tentamos fugir sempre ao preço dos campos, mas eu acho que nós quando gostamos de uma modalidade, e eu conheço pessoas que têm muitas dificuldades financeiras e quando gostam de uma modalidade, seja no windsurf, seja no ténis, seja no paddle ou no golfe, as pessoas quando gostam de uma modalidade, realmente investem nessa modalidade, porque não vão jogar outra coisa qualquer, ou seja, passa a ser a nossa modalidade.

E a fazer parte do dia a dia e do bem-estar.

Muitas vezes fala nos ginásios, mas há pessoas que gastam num ginásio fortunas por mês.

E às vezes sem irem lá.

Por quê? Porque gostam dos ginásios. E eu não vou dizer que os ginásios são mais caros ou mais baratos. Não, as pessoas gostam dos ginásios, há os que gostam do golfe, há os que gostam do paddle e por isso investem nessa modalidade, porque é uma modalidade física, mental.

Rita, temos de voltar ao início. O que se fala nestas quatro horas no green enquanto se percorrem os 18 buracos?

Eu também sou uma jogadora.

Começou há muito tempo?

Não comecei há muito tempo, comecei há seis anos.

Já é bom.

Mas eu sou uma jogadora que preciso de estar focada, concentrada no jogo e tenho consciência que as conversas, às vezes entre buracos, me distraem, me desfocam e que isso se sente depois no meu jogo, portanto tento me manter. Mas o golfe não são apenas os 18 buracos que se fazem a pé. Normalmente, a seguir, taça-se um pouco junto, toma-se um café. Os torneios às vezes são de dois, três e quatro dias e a pessoa está de manhã à noite, não apenas a jogar, mas também almoça, também faz programas fora do campo e também se convive muito. Não querendo fugir à pergunta, fala-se de tudo e não querendo fugir acima de tudo ao tema deste podcast.

Do networking, não é?

Do networking. Há uma componente de networking, eu creio que do ponto de vista pessoal, ou seja, desenvolvem-se de fato relações de amizade. Eu tenho amigos e amigas que são do âmbito do golfe, ponto. E alimentamos e jogamos e sabemos e crescemos do ponto de vista de uma amizade por causa do golfe. E também tenho, estaria a mentir, senão episódios onde já desenvolvi contactos do ponto de vista profissional, fruto dessas mesmas conversas, porque a pessoa pergunta o que é que faz, como é que estão as coisas, ou então sabe que faz não sei o quê e precisa de uma opinião e às vezes daí decorre acontecerem alguns negócios ou alguns projetos ou alguns processos. E isso é uma realidade. Há um livro que eu gosto muito, que se chama "Nunca almoces sozinho", que é do Ferrazzi, e que é um livro, aliás, que eu uso muito nas minhas formações de comunicação, que é a história de um dos maiores networkers do mundo, que começou precisamente como caddie de golfe.

Tenho que ler o livro, ainda não li.

Temos de ler.

Americano, que vinha de uma família altamente desfavorecida e começou muito novo para ganhar algum dinheiro a ser caddie de golfe e começou a aprender no golfe como é que se fazia networking. E veio tornar-se um dos maiores nomes de networking a nível mundial. E portanto, é uma realidade. Há muitos homens de negócios e é natural, como o Pedro estava a explicar, que no âmbito não apenas de um jogo, mas dos torneios, dos encontros, dos almoços, do antes e do depois, que algumas dessas conversas se concretizem e algumas delas sejam efetivamente projetos profissionais. Sem dúvida.

Antes de terminarmos, que dica ou um conselho que daria a um executivo ou empreendedor que está a pensar em começar a jogar golfe, precisamente para expandir a sua rede de contactos, por onde deve começar para dar a tacada certa, Pedro?

Acho que a tacada certa é, primeiro, o golfe é um desporto técnico. Nós temos a mania quando se vai fazer esqui na neve, as pessoas nunca têm professor. Quando vemos um grupo, é sempre um português que se faz melhor que os outros e não dá aulas. Eu acho que é um desporto técnico, portanto, devemos contactar os nossos profissionais, os clubes que têm profissionais nos centros desportivos. Nós temos uma academia que é o Jamor, que tem cinco profissionais e está completamente cheia permanentemente. Portanto, temos muita gente a jogar golfe. Temos agora Oeiras, que é um campo público e que abrimos em Oeiras, que também tem essa modalidade. E temos um programa que se chama 9 Semanas e Meia, que tem um título interessante.

Mete-nos póvo.

Exato, porque no fundo, durante nove semanas e meia, são 19 aulas que nós podemos dar a preços simbólicos, eu diria que são €10 por aula, portanto, muito acessível, por grupos, que é uma coisa que no golfe também não existe. Nós estamos sempre na tentativa de aprender até com outras modalidades e com outras atividades. E fomos buscar um bocadinho aquilo que o padel tem, que é no fundo, como é que se junta no padel quatro pessoas com tanta facilidade e depois nós no golfe às vezes não conseguimos juntar quatro pessoas. Portanto, aqui temos uma formação em grupo e por isso é muito acessível. Hoje em dia, qualquer campo de golfe do país tem esses programas.

E essas informações estão todas no site da Federação?

Essas estão no site da Federação. Nós temos uma divulgação grande, os próprios clubes têm essa vocação de angariar clientes e angariar novos sócios. Portanto, eu acho que desmistificando, as portas dos clubes hoje estão muito mais abertas, lá está, voltando a referir que aos tais preços que são diferenciados. E depois, a Rita joga há seis anos e meio.

E o Pedro?

Eu jogo há mais, há um bocadinho mais, não vou dizer.

Não vai dizer.

Eu jogo desde os seis anos e meio. Portanto, eu tenho 42. Não, estou a brincar. Mas a Rita joga há seis anos e meio e eu acho que a frase que eu ouço mais nos campos de golfe é: "Por que eu não comecei a jogar este desporto mais cedo?"

Mais cedo.

E eu falo muitas vezes com o professor.

Sente isso, Rita?

Não sei, mas se calhar sim. Não desmintas.

Eu ainda estou numa fase da minha vida profissionalmente muito ativa e frustra-me um pouco não ter mais tempo disponível para jogar.

O Pedro fica todo contente ao ouvir.

Claro.

Mas é verdade, porque é um jogo que para se evoluir, tem que se praticar, tem que se ter aulas, tem que se jogar. E eu não tenho ainda muito tempo livre para chegar ao handicap que eu desejaria. Agora, para qualquer idade, eu sou maratonista também e devo dizer que é mais desafiante do ponto de vista desportivo, ser jogador de golfe do que maratonista.

Bem.

Uau.

E em termos de retorno, a experiência de contacto com a natureza durante quatro horas, a imersão que se tem, a interiorização não apenas do jogo, mas dos diferentes momentos de estarmos quatro horas imersos na natureza, é uma experiência que não faz apenas bem ao corpo e faz muito bem também à mente. E eu acho que nos dias de hoje é um desporto que nos permite desacelerar e ter essa experiência que tanto nos faz falta neste mundo tão acelerado.

Portanto, recomenda vivamente.

Recomendo.

Rita Serrabulho e Pedro Nunes Pedro, muito obrigada pela conversa e por partilharem conosco esta visão do golfe além do desporto. Muito obrigada-

Muito obrigado

...por terem vindo à Rádio Observador. O "Conversas no Tee" é uma parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e o apoio da DS Automóbil, onde a elegância, a precisão e a paixão pelo detalhe nos conduzem a novas conversas. Eu sou a Maria João Simões, regresso na próxima semana com um novo episódio. Até lá, bons swings.