A recaptura de Shergili Farjiani em Itália só foi conhecida esta terça-feira, mas o cidadão georgiano que fugiu da prisão de Vale de Judeus em setembro já tinha sido encontrado — e detido — pelas autoridades italianas, em Pádua, na semana passada, a 5 de dezembro, durante uma operação de trânsito. Apresentou-se com um nome falso, mas a investigação das autoridades italianas permitiu concluir que Farjiani era um dos cinco homens procurados pela Polícia Judiciária há três meses.

A informação detalhada sobre a detenção de Shergili Farjiani é avançada pelas próprias autoridades italianas, que explicam em comunicado que a polícia de Pádua estava a fazer uma ação de fiscalização de trânsito na manhã de quinta-feira da semana passada, pelas 10h20, quando os agentes viram um carro de matrícula francesa “conduzido por um homem que mostrava incerteza durante a condução”.

Vale de Judeus: Três meses depois da fuga, três presos já foram recapturados. Shergili Farjiani é o primeiro estrangeiro a ser encontrado

Fonte ligada à investigação em Portugal refere que Shergili Farjiani foi detetado pela polícia italiana “numa zona de grande concentração de cidadãos magrebinos e do leste [da Europa] que se dedicam a furtos e roubos”. A polícia de Pádua tem “uma equipa própria para investigar este tipo de crime itinerante” e foram esses elementos a conduzir a investigação que acabou por apurar a verdadeira identidade do georgiano que fugiu de Vale de Judeus a 7 de setembro.

Fugitivo disse que não tinha documentos e apresentou nome falso

Com o Citroen já parado, refere o comunicado da polícia italiana, os agentes pediram os respetivos documentos de identificação — de Shergili Farjiani e do carro que conduzia —, mas o homem, que ainda não tinha revelado a sua identidade, respondeu, “gesticulando, que não estava a entender os polícias e que não tinha os documentos consigo“, lê-se no documento.

Shergili Farjiani deu aos agentes um nome falso, mas tendo em conta que não tinha qualquer identificação consigo, foi encaminhado para a esquadra. Aí, “foi identificado como sendo um homem de 42 anos, natural da Geórgia, com numerosos antecedentes criminais relacionados com crimes contra a propriedade”, além de pender sobre si “um mandado de captura emitido em dezembro de 2021” pelas autoridades gregas, uma vez que este georgiano praticou também crimes na Grécia e tem, aliás, uma pena de prisão de um ano para cumprir neste país.

Nesta altura, quando a investigação sobre a verdadeira identidade deste homem estava no início, a polícia de Pádua ainda não sabia que estava perante um dos cinco fugitivos da prisão de Vale de Judeus, com um mandado de captura emitido pela Europol. Foi só quando um dos agentes desta polícia fez uma pesquisa em “fontes abertas” que percebeu que tinham sido emitidos mandados de captura a nível europeu por Portugal e pela Grécia.

Uma vez que os agentes perceberam primeiro que Shergili Farjiani era procurado pela Grécia, foi enviada a respetiva informação para as autoridades gregas e só depois é que os dados chegaram a Portugal. Com explicou fonte próxima da investigação ao Observador, o contacto entre a Polícia Judiciária e as autoridades italianas só foi feito a 10 de dezembro — três dias depois de as autoridades gregas já terem confirmado o pedido de emissão de mandado internacional sobre Farjiani — porque a investigação terá demorado mais tempo a apurar que o fugitivo também era procurado pelas autoridades em Portugal.

Ainda não foi possível apurar há quanto tempo Shergili Farjiani se encontrava naquela região do norte de Itália. Mas a detenção — e o facto de dois países, Portugal e Grécia, terem emitido mandados de detenção internacional — coloca agora a questão sobre o destino do georgiano. Na Grécia, Farjiani tem uma pena de prisão por cumprir de cinco anos, depois de ter sido condenado a cinco anos por crimes de roubo agravado praticados em 2013. Em Portugal, cumpria uma pena de sete anos  (que deveria terminar em 2026) pelos mesmos crimes.

Diretor nacional da PJ destaca “trabalho essencial” de autoridades italianas

Shergili Farjiani foi o terceiro fugitivo de Vale de Judeus recapturado desde a fuga da prisão, a 7 de setembro. No comunicado em que divulgou a detenção do georgiano, a Polícia Judiciária dava conta do mais recente episódio da operação “Retorno”: “O evadido do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, Shergili Farjiani, de 40 anos, foi recapturado, hoje, em Itália, pela Polícia Judiciária (PJ), depois de um persistente, complexo e ininterrupto trabalho de investigação e de recolha de informação desta Polícia, desde o dia da fuga.”

O mesmo comunicado referia que “a operação policial contou com a colaboração das autoridades italianas para recapturar este cidadão georgiano com extensa carreira criminal, como crimes de furto violento e falsificação de documentos”, sobre o qual recaía uma “notícia vermelha na Europol”.

Já esta quarta-feira, o diretor nacional da PJ destacou o “trabalho essencial” das autoridades italianas, que levou à recaptura de Farjiani. “Sempre falámos entre nós que o sul da Europa era uma área onde eles podiam estar“, afirmou Luís Neves em declarações à RTP, revelando que uma das medidas aplicadas há três meses foi o estabelecimento de contactos com as autoridades das regiões onde havia maior probabilidade de os cinco se localizarem. “Temos vindo a falar em vários níveis com os colegas, no sentido de evolução das imagens, e sucedeu uma operação da Polizia di Stato numa área onde há a presença de criminosos, de delinquentes de diversa natureza”, confirma.

Vale de Judeus. Diretor nacional da PJ salienta “trabalho essencial” da polícia italiana para captura de fugitivo

Também a ministra da Justiça enalteceu hoje a investigação. “Estes resultados são demorados, exigem uma grande ponderação, um grande trabalho de bastidores e a Polícia Judiciária merece toda a minha confiança”, disse Rita Alarcão Júdice, também à margem da conferência organizada pela Polícia Judiciária para assinalar o Dia Internacional Contra a Corrupção. “Estamos muito confiantes com os resultados e muito satisfeitos por ter sido feito através de uma boa cooperação internacional. É um grande sinal que se dá”, sublinhou a responsável pela pasta da Justiça.