A pintura de Domingos Sequeira Descansando durante a fuga para o Egipto foi arrematada esta quarta-feira por 95 mil euros euros, avançou o jornal Público, citando o galerista Phillipe Mendes, que assistiu ao leilão online. A obra foi adquiria pelo casal de colecionadores portugueses Maria e João Cortez de Lobão, reporta o Expresso, que avança que a pintura será vista na sede da Hispanic Society, em Nova Iorque.
Descansando durante a fuga para o Egipto, realizada em 1824 e cujo paradeiro foi descoberto recentemente, foi vendido pela leiloeira ArtEnchères. Desconhece-se, para já, a identidade do novo proprietário do quadro. O diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Joaquim Caetano, confirma ao Observador que participou no leilão com a Museus e Monumentos de Portugal (MMP), empresa pública que tutela os museus nacionais. A mesma entidade confirmou entretanto que o Estado português participou no leilão, mas que o valor da venda excedeu o montante máximo disponível e, por isso, “não foi possível concretizar a compra”.
Em comunicado enviado às redações, a MMP informa que teve conhecimento a 20 de janeiro da ida a leilão da obra de Domingos Sequeira. “Após análise pelos serviços competentes, estimou-se que a MMP participaria no leilão com uma proposta de aquisição no valor máximo de 100 mil euros (incluindo comissões), visando a posterior integração da obra na coleção do Museu Nacional de Arte Antiga. O valor foi estimado após avaliação realizada in loco por um especialista do MNAA enviado a Lyon e resulta da ponderação entre a relevância artística e patrimonial da obra, o contexto atual de valorização do mercado da arte e a criteriosa gestão dos recursos disponíveis a que, enquanto entidade pública, a MMP está obrigada”, justifica o documento.
Joaquim Caetano lamenta que a obra não tenha ficado num museu nacional. “Tenho pena”, diz ao Observador, reagindo à notícia. Ainda assim, sublinha a importância de o quadro ter sido comprado por “um colecionador que disponibiliza publicamente as obras”.
Rita Marques, presidente da Fundação Livraria Lello, confirma ao Observador que a fundação também participou no leilão, mas “não foi bem sucedida na sua tentativa de compra, que teria como objetivo, em linha com a missão da Fundação, a colocação em depósito de mais uma importante obra nos museus nacionais, tal como acontece atualmente com a obra Descida da Cruz“. “Esperamos que o novo comprador possa, de alguma forma, viabilizar a fruição pública da obra, valorizando a arte nacional”, acrescenta.
A pintura antiga na coleção de Maria e João Cortez de Lobão: “É uma história de paixão”
Esta quarta-feira, a ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, disse aos jornalistas que o Estado estava “atentíssimo” leilão da tela. O Observador contactou o gabinete de imprensa da tutela, mas não obteve resposta.
A venda da pintura, que se encontrava num mau estado de conservação, ultrapassou em muito as expectativas. O lote tinha uma base de licitação entre 3000 e 5000 euros.
Resta saber quando será possível ver a obra em Portugal. O jornal Expresso, citando os proprietários, avança que o quadro vai ser exposto em Nova Iorque, onde o casal de proprietários se encontra atualmente. Mas não é descabido que a pintura venha a ser mostrada no Museu de Arte Antiga, em Lisboa, já que há um protocolo entre o museu e a fundação de Maria e João Cortez de Lobão, a Gaudium Magnum. O acervo do casal “tem tomado uma dimensão de facto importante”, afiançava Joaquim Caetano, do MNAA, ao Observador em 2022. “Há muito tempo que não se tem estado a fazer uma coleção de pintura antiga em Portugal desta dimensão. Temos que recuar aos colecionadores do século XIX para vermos uma só família com interesses em criar uma coleção assim”.
Membros da Hispanic Society Museum & Library of America (HSML), Maria e João Cortez de Lobão integram também o Conselho Consultivo Internacional da instituição. Fundada em 1904 por Archer Milton Huntington, a HSML funciona como museu e biblioteca públicos de acesso gratuito, dedicada exclusivamente à preservação, estudo, compreensão, exposição e apreciação da arte e culturas de países e comunidades de língua portuguesa e espanhola.
O Observador tentou contactar Maria e João Cortez de Lobão, sem sucesso.