O líder do Chega voltou a ser confrontado, esta quarta-feira, com o caso do deputado eleito pelo seu partido, Miguel Arruda, e o alegado roubo de malas em aeroportos. Acusou o presidente Assembleia da República de ter optado por “desvalorizar” o aviso que o Chega fez na quinta-feira passada sobre a existência de malas num gabinete do partido. Aguiar-Branco considerou na terça-feira que o aviso “não tinha nenhum impacto e era absolutamente irrelevante para o que diz respeito à investigação”. “Alertar para quê?”, questionou mesmo em declarações aos jornalistas.

As palavras são entendidas por Ventura como uma desvalorização, numa altura em que o líder do Chega tenta ficar na dianteira da denúncia do caso que atingiu o seu partido. O deputado considera que “isto não tem a ver com questões legais, mas éticas” e que o Chega “mesmo sabendo que havia uma investigação em curso, se podia ajudar as autoridades, deve fazê-lo independentemente de serem os do seu partido os visados”.

Em causa está uma conversa informal que um vice-presidente da bancada do seu partido, Rui Paulo Sousa, teve com José Pedro Aguiar-Branco a sugerir alguma diligência para retirar as malas que estavam num gabinete do Chega — onde trabalhava Miguel Arruda. O Chega disse ainda que na última segunda-feira pediu a remoção das malas, num email enviado ao presidente da Assembleia da República que o gabinete de Aguiar Branco diz que nunca chegou.

Nessa mesma segunda-feira, ao final do dia, o Ministério Público esteve no Parlamento para recolher as malas e o que Aguiar-Branco explicou foi que lhe chegou um “despacho que solicitou que se procedesse à apreensão de bens que estavam num determinado gabinete”, confirmando que “foi solicitada a colaboração da Assembleia da República, a notificação de Miguel Arruda e do grupo parlamentar do Chega”, por parte dessas mesmas autoridades. A diligência não precisava de autorização do partido, porque se trata de uma ordem de autoridade judiciária para se executar uma eventual apreensão de provas indiciárias para o inquérito criminal em curso e que visa Miguel Arruda, tal como o Observador explicava ontem neste artigo.

Malagate. O alerta de Ventura, o “para quê?” de Aguiar Branco, o despacho e as malas removidas: Afinal, o que se passou na AR?

Ventura insiste que foi o Chega que esteve na frente da denúncia, para argumentar com as diferenças para os outros partidos. E recuou até ao caso da detenção de Paulo Pedroso no Parlamento, em 2003, para dizer que nessa altura “uns tentaram protegê-lo, o Chega tenta denunciar: falámos com o presidente da Assembleia da República que nem sequer é do Chega”.

Já sobre um caso que afeta o Governo — o da demissão do secretário de Estado Hernâni Dias devido a duas investigações (uma sobre conflito de interesses e outra sobre contrapartidas que terá recebido quando era presidente da Câmara de Bragança) –, o líder do Chega pede a audição de um responsável da Secretaria-geral do Governo. “O primeiro-ministro, os membros do Governo, a secretaria-geral tinham ou não conhecimento desta incompatibilidade?”, questionou em relação às duas empresas de imobiliário detidas pelo governante que, ao mesmo tempo, tinha estado nas alterações à lei dos solos (da qual as suas empresas poderiam sair beneficiadas).

“Vamos exigir à coordenação do Governo, à secretaria-geral, para vir ao Parlamento prestar esclarecimentos“, disse também esta tarde o líder do Chega. E considerou que uma das “várias competências” da secretaria-geral criada por Luís Montenegro é “a análise da situação individual dos processos dos governantes. Há coisas difíceis de fiscalizar, mas a existência de duas imobiliárias parece uma coisa evidente”, referiu o deputado ao mesmo tempo que levantava a suspeita de que essa informação “tentou ser escondida“.