O sistema de abastecimento de água e de saneamento à região de Sines vai ser reconfigurado para responder ao aumento “significativo do consumo de água” esperado por parte dos novos projetos industriais anunciados para aquela região da costa alentejana.
Ao mesmo tempo que a procura vai disparar por causa da necessidade destas novas indústrias — a eletrólise usada na produção de hidrogénio verde é central na maioria destes investimentos e exige grandes quantidades de água — os recursos hídricos que têm abastecido a região estão a escassear. A bacia do Sado, que alimenta a albufeira de Morgavel, tem sido uma das mais massacradas pela seca E nem o contributo da água transportada a partir do Alqueva para esta barragem, através de um adutor que começou a operar em 2022, permite responder à pressão de uma procura que pode triplicar nos próximos anos.
Alqueva reforça abastecimento de água à zona industrial de Sines
Um despacho publicado esta sexta-feira reconhece que a “crise climática e o aumento da procura de água para a agricultura têm acentuado o stress hídrico nos territórios abrangidos pelas bacias do Sado e do Guadiana”. Mas é a “instalação de novos projetos industriais, com o consequente aumento significativo do consumo de água” que “impõe a reconfiguração do sistema de abastecimento e saneamento”, a cargo da Águas de Santo André.
A empresa pública responsável pelo abastecimento, saneamento e gestão de resíduos da região já admitia em 2023 que o concelho de Sines e, em particular, a zona industrial que vai acolher estes investimentos “está sob uma grande pressão devido ao aumento exponencial de indústrias interessadas em instalarem-se na região, muitas delas associadas à economia verde e azul, como hidrogénio.” O último relatório e contas disponível refere que a zona industrial a cargo da Global Parques quase duplicou para 4.000 hectares, “sendo que estão previstos novos e significativos investimentos na ZILS (Zona Industrial e Logística de Sines), muitos com maturidade elevada, prevendo para alguns deles, que o arranque das novas fábricas possa ocorrer já em 2024”.
“Caso estas indústrias de maior maturidade se instalem na totalidade, as necessidades de 20 hm3 (hectómetros cúbicos) por ano passarão para 60 hm3 por ano, não sendo possível ao sistema atual responder.”
Mas não é só o abastecimento de água, é também o seu tratamento.
Estas instalações industriais implicam “significativos impactos ao nível dos sistemas de abastecimento e drenagem da região”. Daí que “este aumento exponencial de solicitações por parte de potenciais novos clientes industriais que se pretendem instalar nas ZILS com elevadas necessidades de abastecimento de água industrial e saneamento” envolva uma análise detalhada a criteriosa dos pedidos, das capacidades hidráulica e tecnológica das infraestruturas atuais e a identificação de necessidades de reforço ou construção ou análise de alternativas.
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A empresa pública remetia para o diploma do anterior Governo que aprovou um regime excecional de atribuição de ligação à rede elétrica para Sines para responder ao aumento da procura por energia associado a estes projetos, tendo já aprovado investimentos de 500 milhões de euros da REN para ligar mais de 10 instalações grandes consumidoras.
No caso da água, a resposta é dada mais de um ano depois num despacho assinado pelos ministros das Infraestruturas, da Energia e o secretário de Estado da Economia.
O Governo pretende rever o contrato de concessão da Águas de Santo André para que esta empresa seja o operador único para realizar uma gestão integrada do fornecimento de água industrial e potável à zona industrial de Sines. Cabe à empresa apresentar uma proposta que inclua os investimentos necessários à procura de serviços prevista e que minimize o recurso a origens tradicionais de água, em particular nos rios Sado e Guadiana e nos lençóis subterrâneos.
Reutilização de água, água do mar usada pela central da EDP e dessalinizadoras privadas
O diploma pede soluções que incentivem os recursos de origens não convencionais no que toca ao uso de água para fins industriais, apontando para a reutilização de água tratada a partir da ETAR (estação de tratamento de águas residuais) de Ribeira de Moinhos e a utilização de água do mar captada em São Torpes, através das infraestruturas de captação e restituição de água da antiga central térmica de Sines da EDP.
Para materializar esta intenção, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) terá de contactar a EDP Produção para avaliar as condições e estado funcional dos molhes de proteção e das estruturas de captação e restituição de água usada na central a carvão de São Torpes. Esta unidade, que era a maior do país e que parou de produzir em 2021, usava a água do mar para arrefecer os grupos produtores, criando um fenómeno de aquecimento da água da praia de São Torpes.
O objetivo é que estas estruturas, que fazem parte do domínio público hídrico, venham a fazer parte do novo sistema de abastecimento de água, de saneamento e resíduos de Santo André.
O despacho considera ainda essencial a manutenção de um único operador que possa fazer a gestão integrada das várias origens de água disponíveis (salina, doce, reutilizada) em função das necessidades de procura industrial, quer se destinem aos processos de arrefecimento ou de incorporação. O Governo admite aliás em comunicado que o novo modelo poderá ser “complementado, em processos de grande exigência por parte de promotores industriais, com a instalação de pequenas unidades de dessalinização privadas“.