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Da cerâmica partida à coleção mais importantes do mundo. Na Fundação Albuquerque a porcelana chinesa encontra a arte contemporânea

Este artigo tem mais de 1 ano

Renato de Albuquerque comprou, sem perceber, uma peça de porcelana partida num leilão há mais de 60 anos. Hoje tem uma das coleções mais importantes do mundo, que abre este sábado em Sintra.

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Um caranguejo laranja com manchas verdes, garras e olhos que se mexem, e que, afinal, também é uma terrina de porcelana. É uma das peças que decorava as prateleiras da casa dos avós de Mariana Teixeira de Carvalho, e que agora estão expostas na Fundação Albuquerque, que abre ao público este sábado, 22 de fevereiro, em Sintra. Trata-se, na verdade, de uma peça de porcelana chinesa produzida por volta de 1770, durante a dinastia Qing, e que faz parte da coleção que o avô de Mariana, o engenheiro civil brasileiro Renato de Albuquerque, reuniu ao longo de mais de 60 anos.

Estava tudo no meio da casa, a minha avó colocava em prateleiras, reclamava que tinha muita coisa e falava: ‘Agora chega, pare de comprar’. Tínhamos curiosidade nalgumas peças, tem algumas coisas muito pitorescas como o caranguejo que os olhinhos mexem, umas figuras que têm barba e que é de cabelo de verdade, o cavalo de Xian, que era uma obsessão entender o que é que era”, conta ao Observador a diretora e cofundadora da Fundação Albuquerque, antiga advogada de direitos humanos que entrou no mundo das artes em 2009, quando começou a trabalhar como diretora de galerias como a Hauser & Wirth. “Em determinado momento começámos a nos perguntar o que é que vai acontecer com tudo isso.” Surgiu então a Fundação Albuquerque.

Algumas das peças da coleção que mais marcaram a infância de Mariana

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Coleção estava num “depósito” em casa

Renato de Albuquerque é o nome por trás da coleção com mais de 2600 peças. O engenheiro civil de 97 anos, que em Portugal esteve envolvido em projetos como a Quinta Patino, é um dos fundadores de Alphaville, um dos complexos de casas de luxo mais conhecidos do Brasil e que se tornou um dos principais bairros nobres planeados da grande São Paulo. Criou o empreendimento com o sócio, Yojiro Takaoka, há mais de 50 anos. Mariana vivia no condomínio ao lado da casa do avô e lembra-se de visitar a coleção numa altura em que ninguém da família tinha noção da sua relevância histórica e cultural. “Estava tudo na casa dele. Ele construiu uma quadra de squash, que eu não sei se era moda na época, mas ninguém nunca jogou. E, eventualmente, ele transformou essa quadra numa mini galeria. Mas era meio que um depósito, era só para ele, não era para mostrar. E a forma como se descia, era como se fosse um mini Guggenheim. As obras eram todas dispostas ao longo desse corredor espiral que vinha pelas laterais. Eram umas três voltas que você tinha que dar até chegar em baixo”.

Mariana Teixeira de Carvalho é diretora da Fundação Albuquerque e neta do Renato de Albuquerque

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Renato teve contacto com a porcelana nas visitas às casas dos descendentes de imigrantes alemães no sul do Brasil, numa altura em que trabalhou em obras públicas na região, há mais de 60 anos. “Ele começou a achar aquilo interessante. Foi atrás e comprou a primeira peça, que veio partida, mas ele não tinha visto. Foi uma peça de Meissen, porcelana alemã, num leilão local, eu acho que no interior de São Paulo.” Ao longo do tempo o interesse em porcelana foi crescendo. “Ele diz que a primeira vez que alguém lhe falou que a coleção era relevante foi quando recebeu uma ligação do presidente da Sotheby’s, que ia fazer uma visita ao Brasil para visitar a coleção dele. ‘Mas por quê? O que ele quer ver na minha coleção? O que ela tem de especial?’ Disse, meio desconfiado. E aí acho que as pessoas começaram a falar para ele que isso não existia em outro lugar.”

O encontro entre o tradicional e o moderno

A família comprou o palacete no início dos anos 1990, uma quinta em Linhó, Sintra, classificada como Património Mundial pela UNESCO. “Tenho muitas memórias. O meu aniversário é em julho, então eu vinha nas férias e passei muitos aniversários nessa casa. O jardim, as árvores maiores, que foram mantidas. O que tinha aqui, os cantinhos. Minha avó faleceu no começo do ano passado, mas foi ela que montou essa casa. Então, ela traz muitas memórias”, conta-nos Mariana, que diz que o momento em que a família retirou os itens pessoais para o início das obras foi emotivo. “A residência tem muitos móveis da casa original. E as obras de arte que estavam na casa original, agora estão na residência, que não deixa de ser a nossa residência. Um dos quartos era o quarto que eu dividi com a minha irmã, que mudou, mas estava muito parecido. Então, você fica naquela ideia de ver o que mudou e o que ficou igual. Acho isso muito bonito, porque eu não enxergo isso como uma perda, todo mundo ganhou.”

A casa original contrasta com a arquitetura moderna do prédio da galeria

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Na casa principal, agora remodelada, está a biblioteca da fundação, montada no local onde ficava o escritório de Renato e com os livros que o colecionador adquiriu ao longo dos anos que o ajudaram a entender cada vez mais sobre cerâmica. No mesmo prédio funcionam também o restaurante e a loja, com livros e catálogos sobre cerâmica e peças feitas por 16 ceramistas portugueses ou com base em Portugal, algumas feitas especialmente para a fundação. É o caso de Teresa Pavão ou Carlos Manuel Gonçalves. No segundo andar ainda há um apartamento com três quartos destinados a receber artistas ou pesquisadores no âmbito de programas de residência. A expetativa é abrir inscrições ainda em 2025 para programas de residência com duração de um a três meses.

Imediatamente ao lado da casa, uma nova construção guarda toda a coleção. O cubo de vidro com um estilo muito mais moderno, assinado pela Bernardes Arquitetura, faz o contraste com a residência clássica e também deixa muito clara a proposta da fundação. Uma ideia que, no início, enfrentou alguma resistência por parte do dono da casa e da coleção. “Na primeira reunião com os arquitetos, eu fui sozinha. ‘Não quero participar, faz você’, disse-me. E aí, no minuto em que a obra começou a ser concebida, ele é um construtor, é engenheiro, e tocou sozinho”, conta-nos Mariana, que diz que o avô ficou feliz por a casa original ter sido mantida no projeto. “Acho que ele começou a apreciar depois. Ele é muito mais engenheiro do que arquiteto, mas ele entende o conceito artístico. Acho que entendeu que existia essa contrapartida e que isso seria importante.”

“A coleção mais importante do mundo”

A escada em espiral parece reproduzir de forma grandiosa o que era a galeria privada de Renato, sobre a qual a neta do colecionador nos falou anteriormente. E descer a escada é como um mergulho na coleção, que tem obras do século 20 antes de Cristo até o século XIX, sendo a maioria composta por peças de cerâmica chinesa de exportação produzidos entre o século XVI e XVIII. A exposição permanente também será renovada a cada um ano e meio, já que expostas estão apenas um décimo de tudo o que há no acervo, visível através de paredes de vidro. A curadora Becky MacGuire, especialista em arte chinesa de exportação com experiência de mais de 30 anos, diz que esta é a “coleção mais importante do mundo de porcelana chinesa de exportação”. “As peças aqui presentes misturam o mundo islâmico, chinês, japonês, indiano. São verdadeiros tesouros de tantas eras e séculos”, diz.

As peças parecem contar um pouco da história mundial ao longo de seis séculos. Porcelanas com formatos islâmicos e desenhos católicos, numa cerâmica branca com textura que parece vidro, feitas com técnicas minuciosas que durante séculos foram dominadas apenas pelos chineses. “Nesta altura só os chineses faziam porcelana. Até os europeus descobrirem a técnica quando os jesuítas foram à China no sec XVIII”, explica a curadora.

Na exposição atual, “Conexões”, o público pode ver, por exemplo, uma peça de barro vidrado da Dinastia Tang, produzida entre os anos 625 e 675. A “Figura de um Sogdiano” é uma das peças mais antigas da exposição atual e representa um comerciante de vinho oriundo da região onde hoje é o Uzbequistão. “Para os chineses este homem era muito estrangeiro e portanto exageravam nas feições”. Vê-se a mesma ideia na “Senhora Judia Europeia”, do ano 1740, na Dinastia Qing, ou na máscara que representa um europeu e que está exposta no pavilhão dedicado à arte contemporânea.

À esquerda a "Figura de um Sodgiano", de 625-75, à direita a "Senhora Judia Europeia", de 1740

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Fusão com a arte contemporânea

Ao descer o jardim com grandes árvores que fazem uma agradável sombra no relvado extenso, há outro pavilhão mais pequeno preparado para as mostras temporárias. A que marca a abertura da Fundação Albuquerque é assinada pelo artista norte-americano Theaster Gates. Desde o começo dos anos 2000 o ceramista viaja até ao Japão, onde aprendeu a técnica com mestres japoneses. Contudo, ao longo da carreira também abordou muitas questões económicas e sociais.

Jacopo Crivelli Visconti, diretor do museu e curador da programação contemporânea, explica que vê no trabalho de Theaster Gates, artista negro que reflete sobre a posição da população negra na sociedade norte-americana, a perfeita fusão para abordar temas atuais através da coleção de cerâmica. “É um artista que sempre teve interesse em arquitetura, urbanismo e processos de gentrificação de bairros ocupados pela população afrodescendente nos Estados Unidos. É muito emblemático ele trabalhar com porcelana porque é o símbolo de uma busca pelo branco. Era chamada de white gold quando só os chineses a podiam fazer.”

A exposição de Theaster Gates tem obras do artista e peças selecionadas da coleção

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O próprio piso da exposição é, na verdade, uma instalação. Cerâmica feita por Gates no Japão, para uma exposição em Tóquio. “Foram feitos no Japão, por um artista ocidental e chegaram de navio exatamente na mesma rota que as outras peças da coleção”, destaca Jacopo. Expostos também estão quatro pratos feitos a pedido do governo norte-americano para que Barack Obama pudesse presentear o primeiro-ministro chinês numa viagem ao país. Por algum motivo o conjunto acabou não ficando com o chefe de estado, e permanece na coleção do artista. Os pratos retratam uma comunidade chinesa e afrodescendente que se criou no interior do Estados Unidos da América no início dos anos 1980. Theaster Gates também escolheu algumas peças da coleção da Fundação Albuquerque para serem expostas, como é o caso de um prato de porcelana chinesa exportada para o Japão que tem uma das bordas curvas. “O prato pode ser defeituoso ou feito assim de propósito. Mas os pratos defeituosos normalmente eram exportados”, explica Jacopo. A exposição de Theaster Gates segue até agosto.

“Acho que a coleção condensa muitas questões que são extremamente atuais. E a exposição do Theaster deixa isso muito evidente. Mas há muitos artistas com quem se pode fazer isso“, diz o diretor do museu, explicando que a ideia é ter três exposições por ano neste espaço. Com experiência em arte contemporânea — foi membro da Fundação Bienal de São Paulo e curador de exposições contemporâneas em diferentes países — o responsável assume o trabalho na Fundação Albuquerque como um “desafio construtivo”. “Uma das questões que eu sempre me coloco é como conseguir fazer uma exposição que seja, ao mesmo tempo, desafiadora para quem é do meio e compreensível e instigante para quem não é. Na exposição permanente temos peças mais figurativas, mais convencionais de um certo ponto de vista, que talvez muitas pessoas em Portugal lembrem de algo familiar. E talvez possa ser uma porta de entrada para uma produção contemporânea com a qual, de repente, elas não têm familiaridade”.

Jacopo Crivelli Visconti é diretor do museu e curador da programação contemporânea

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Colecionador condecorado por Marcelo

Marcelo rebelo de Sousa presidiu a uma cerimónia de abertura na passada quinta-feira, dia 19 de fevereiro, quando anunciou que iria conceder a Renato de Albuquerque a Ordem do Infante Dom Henrique. O fundador e colecionador foi condecorado na tarde desta sexta-feira, dia 21. A neta, que o convenceu a criar Fundação para levar a coleção a mais pessoas, fala com orgulho das conquistas do avô. “Conforme a carreira dele foi progredindo, a coleção também foi progredindo. Ele diz que sempre investiu no próprio negócio. Se sobrava um dinheirinho, comprava uma porcelana. Mas o negócio precisa ser reinvestido, então isso sempre foi o foco principal. Ele leva o trabalho muito a sério, não para de trabalhar até hoje. Vai para o escritório todos os dias, aos 97 anos. E ainda dirige até lá.”

A Fundação Albuquerque está aberta de terça a domingo, das 10h às 18h. Os bilhetes custam 10 euros, são gratuitos para crianças com menos de 12 anos e saem a 8 euros para estudantes e jovens até os 18 ou maiores de 65. O acesso é gratuito aos residentes de Sintra todos os domingos até às 13h. A intenção ainda é abrir o espaço para programações culturais, como workshops, palestras ou simpósios. Para já, há uma parceria com escolas públicas de Sintra, que poderão visitar a fundação e realizar ações educativas. Para Mariana, o objetivo é que a coleção de Renato desperte novos debates, num espaço em que o clássico e o contemporâneo convivem em harmonia. E foi com essa ideia que venceu a primeira resistência do avô. “Acho que ele entendeu a preocupação, o interesse e a relevância que isso teria para trazer um público mais diverso, para criar um diálogo entre o que aconteceu no passado e o futuro, para criar uma ponte e para deixar a coleção viva. E que, através do contemporâneo, as pessoas possam apreciar o que essa coleção traz de riqueza.”

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