Dez dias depois de ser eleito e seis depois da data original, Pedro Proença tomou posse como presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). A cerimónia estava inicialmente agendada para o dia 18 de fevereiro, mas acabou por ser adiada para esta segunda-feira devido à morte de Jorge Nuno Pinto da Costa.
Na FPF Arena Portugal, a estrutura recentemente inaugurada na Cidade do Futebol, em Oeiras, Pedro Proença foi empossado em conjunto com a nova direção do organismo depois de ter vencido a lista encabeçada por Nuno Lobo com 75% dos votos, assumindo um mandato que dura até 2028. Numa cerimónia que começou com a natural intervenção de José Luís Arnaut, presidente da Mesa da Assembleia-Geral cessante, nem o presidente da UEFA nem o presidente da FIFA estiveram presentes — ainda que este último tenha deixado uma mensagem em vídeo, destacando-se o irrepreensível português de Gianni Infantino.
No primeiro discurso como presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença começou por dizer que “hoje não acaba coisa nenhuma”. “Hoje começa tudo aquilo que tivemos a coragem de escrever e propor”, atirou, antes de deixar uma mensagem aos colaboradores da Liga Portugal, não conseguindo disfarçar a voz algo embargada.
“A partir de hoje deixa de existir um nós e um eles. Apenas um nós. Esta passará a ser também a vossa casa. Viveremos, a partir de hoje, um novo tempo no futebol português. A força das instituições está naqueles que todos os dias a fazem andar mais depressa do que todos imaginariam. Deixo este compromisso: a Federação Portuguesa de Futebol cresce com todos, ganha com todos, perde com todos e vive com todos”, atirou.
Mais à frente, afastou a ideia de que tem “certezas absolutas” voltou a sublinhar a perspetiva de união que o acompanhou durante toda a candidatura. “Deixar no campo o que acontece no campo é uma das maiores lições que aprendi durante uma vida passada entre o balneário e o relvado. A arbitragem. Tenho de reconhecer o orgulho que sinto por o futebol do meu país ter tido a maturidade de escolher um antigo árbitro para liderar os destinos da maior Federação desportiva de Portugal. Não é um sinal qualquer e o mérito dessa maturidade esteve mais na cabeça de quem escolheu do que na pessoa que foi escolhida”, vincou, antes de deixar as naturais palavras ao antecessor, Fernando Gomes.
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“Os seus mandatos mostram como os projetos de largo alcance devem resistir a momentos adversos”, disse, destacando a “importante tarefa” de candidatar Portugal à organização do Mundial 2030. “Viramos hoje a página. Temos um programa para executar, uma equipa para o implementar e os olhos postos em nós. A primeira palavra é para todos os agentes do futebol: que a união seja regada todos os dias e que a disputa seja somente em campo. Que a nova geração de dirigentes não falhe às pessoas e ao país”, defendeu Pedro Proença, em frases que pareceram diretamente dirigidas a Frederico Varandas, Rui Costa e André Villas-Boas.
“Não sou eu quem tem a responsabilidade única de virar a página. Vários dirigentes têm a responsabilidade de escrever um capítulo novo. De mim, podem esperar exigência neste compromisso. Digo-vos olhos nos olhos: foi esse o compromisso que assumiram comigo e que me fez estar aqui hoje”, continuou, destacando depois a importância da iminente centralização dos direitos audiovisuais, algo que foi uma das prioridades dos mandatos que cumpriu na Liga.
Pedro Proença, novo presidente da FPF, defende o fim do IVA de 23% nos espetáculos desportivos e pede igualdade com as outras atividades:
"Basta! Que termine este abuso e esta injustiça!" pic.twitter.com/hmX5HIi0Aa
— Cabine Desportiva (@CabineSport) February 24, 2025
Já perto do fim do discurso, Pedro Proença falou diretamente com os responsáveis políticos que estavam na sala — e também com os que não estavam — e lembrou “liderar a Federação Portuguesa de Futebol não é apenas ser um líder desportivo”. “Não me escolheram apenas para unir o futebol. Escolheram-me para defender o vosso nome”, acrescentou, antes de anunciar que as seleções vão promover o “destino Portugal” sem quaisquer custos associados.
“Seremos talvez a primeira Federação do mundo a defender que promover o seu país não depende de quanto nos pagam, mas do quão honrados somos por representá-lo. Nem tudo tem de ser um negócio. Ser de Portugal é um orgulho e estar em Portugal é um privilégio”, indicou, exigindo depois a redução do IVA dos eventos desportivos para os 13% dos espetáculos culturais, a revisão do IRS sobre atletas de alto rendimento abaixo dos 23 anos e a existência de um PRR nacional para construção e recuperação de infraestruturas desportivas.
Dentro das figuras do universo do futebol que estiveram presentes na FPF Arena Portugal, destacam-se naturalmente Frederico Varandas, Rui Costa, André Villas-Boas, António Salvador e Jorge Mendes, para além de Pepe, Éder ou João Matos. Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, também marcou presença e teve direito a uma intervenção, com Luís Marques Mendes, D. Américo Aguiar, D. Rui Valério e Pedro Dias, secretário de Estado do Desporto, a surgirem também entre os convidados.
Pedro Proença vai implementar uma organização diferente da direção do organismo: ao contrário de contar com vários vice-presidentes, como acontecia com Fernando Gomes, terá apenas o presidente da Liga de Clubes como vice-presidente por inerência e depois vários vogais espalhados por diferentes áreas.
Dentro desse lote de vogais, incluem-se José Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, Toni, Domingos Paciência e ainda Daniel Carriço. Sofia Teles, diretora de competições da Associação de Futebol do Porto e antiga diretora desportiva do Sp. Braga, ficará com a pasta do futebol feminino, sendo que também José Pereira e Matilde Fidalgo, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol e antiga jogadora, são vogais.
Luís Campos Ferreira, antigo secretário de Estado nos Negócios Estrangeiros e Cooperação, é o novo presidente da Assembleia-Geral, sendo que o também antigo secretário de Estado da Juventude e do Desporto João Paulo Rebelo surge como vogal do mesmo órgão. Luciano Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, é o novo presidente do Conselho de Arbitragem, neste que é um tópico prioritário para Pedro Proença.
Já durante a manhã, Fernando Gomes tinha deixado uma mensagem de despedida no site oficial da FPF, realizando uma espécie de balanço aos 13 anos em que liderou o organismo. “Consciente de que este dia – o último como presidente da FPF – chegaria, nas últimas semanas reservei tempo para estar com as centenas de pessoas que contribuíram para o trabalho realizado na Federação Portuguesa de Futebol: funcionários da FPF, parceiros, sócios, clubes, mas também, claro, treinadores, jogadores e jogadoras das diferentes seleções. Nas conversas – onde se incluem colegas de Direção e órgãos sociais -, agradeci o apoio incondicional e salientei o orgulho que foi construir em conjunto o legado da FPF. Hoje, dirijo-me aos portugueses. Afinal, foi sempre neles que pensámos”, começou por escrever.
“Representar Portugal é o orgulho maior de cada um de nós. Ter oportunidade de o fazer ao mais alto nível é um privilégio e uma responsabilidade. Ao longo de 13 anos, definimos quadros competitivos que permitiram o mais adequado desenvolvimento de jogadores e treinadores nacionais, criámos e fortalecemos seleções. Por isso foi possível vencer como nunca antes Portugal tinha conseguido. Multiplicaram-se os federados, cresceu a prática feminina, nasceram e desenvolveram-se a Cidade do Futebol e as Academias das Associações”, acrescentou Fernando Gomes.
Por fim, o agora candidato à presidência do Comité Olímpico de Portugal deixou uma mensagem ao sucessor. “Num tempo feliz para a FPF, deixo ao próximo presidente da Direção — a quem já tive oportunidade de desejar felicidades e um mandato repleto de sucesso — uma garantia: a minha experiência estará sempre ao dispor da Federação Portuguesa de Futebol e do nosso País”, terminou.
Já Roberto Martínez, que falou à chegada à Cidade do Futebol, referiu que esta segunda-feira é “um dia de boas vindas, de uma começar uma nova era”. “Vamos começar a a falar sobre a visão do futuro. A Federação está ao nível das melhores do mundo, é um legado que temos, é importante o futebol português continuar a crescer com as novas pessoas, com energia nova. O novo presidente tem uma missão e estamos entusiasmados para começar a trabalhar, mas continuar o que foi feito pelo futebol português”, disse o selecionador nacional, vincando que o objetivo inicial passa pela qualificação para o Campeonato do Mundo de 2026.
“Acho que agora trabalhar no futebol português tem esse desafio, queremos continuar a dar tudo para ganhar o único título que, como portugueses, não temos. Mas a Federação é forte e agora vamos trabalhar juntos para continuar o que está a fazer o futebol português dentro e fora de Portugal. Temos de preparar bem a equipa para o jogo contra a Dinamarca, é importante darmos passos certos. Hoje é dia de dar as boas vindas ao presidente e à nova direção”, sublinhou.