Era o próximo passo de um plano que sempre existiu. Esta sexta-feira, Pedro Proença confirmou aquilo que há muito se percebera e foi eleito novo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, sucedendo a Fernando Gomes e continuando um percurso de liderança dentro do futebol português que começou há uma década na Liga de Clubes.
Estreou-se como árbitro na Primeira Liga em 2000, tornou-se internacional em 2003, esteve na final da Liga dos Campeões e do Campeonato da Europa e foi consensualmente considerado o melhor árbitro do mundo. Licenciado em Gestão de Empresas, virou-se depois para a Liga de Clubes – onde reverteu uma situação financeira preocupante, renovou a Taça da Liga, construiu uma nova sede e procurou sempre a união dentro de todos os intervenientes diretos no futebol português.
Agora, aos 54 anos e dez depois de terminar a carreira de árbitro, Pedro Proença abraça o maior desafio de todos. Quem o conhece de perto garante que a fama de mau feitio é exagerada – é só alguém “completamente focado na missão” –, mas a verdade é que tinha a alcunha de “Gritos” quando jogava à bola durante o curso de arbitragem. Na Cidade do Futebol, terá novamente a missão de agregar e criar consenso, algo que foi o maior legado que deixou na Liga.
▲ Na inauguração da Arena Liga Portugal, o novo edifício do organismo, no Porto
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Do primeiro jogo que “correu mal” ao adeus com “desgaste físico e mental”
É uma daquelas histórias que todos aqueles que conhecem Pedro Proença já ouviram várias vezes: o primeiro jogo que arbitrou na Primeira Liga teve oito cartões amarelos e acabou com escolta policial. Em setembro de 2000, num Desp. Aves-Campomaiorense que acabou empatado, o jovem árbitro de 29 anos teve de esperar no balneário durante duas horas para poder abandonar o estádio sem correr o risco de se encontrar com adeptos.
“O jogo correu-me mal. Ficaram alguns cartões por mostrar e alguns penáltis por marcar”, explicou Pedro Proença anos mais tarde. Voltaria a arbitrar outros dois jogos da Primeira Liga nessa mesma temporada e nem o episódio mais complicado na estreia o desmoralizou. Seguiram-se 14 anos e 175 jogos ao mais alto nível – sem nunca esquecer a memória da Vila das Aves.
Muito antes, porém, a aproximação de Pedro Proença ao desporto até começou pelo andebol. Filho de médicos, jogou andebol no Sporting e no Benfica, clube pelo qual deixou de esconder a simpatia a partir de dada altura e com a carreira já estabelecida. “Sou benfiquista como sou muitas outras coisas. Há coisas em que nunca mudamos. O que mudou nos últimos anos foi ter passado a ser visto de uma maneira diferente”, explicou numa entrevista na antecâmara do Mundial 2014, o único Campeonato do Mundo em que marcou presença.
Natural de Lisboa, interessou-se pela arbitragem por volta dos 20 anos e entrou no curso em 1990, sem deixar de se licenciar em Gestão de Empresas no Instituto Superior de Gestão e começar a trabalhar como auditor, já a meio dos anos 90, na KPMG. “Era brincalhão, fazia as minhas traquinices como outro miúdo qualquer. Fazia as parvoíces normais”, referiu numa entrevista recente. Subiu escalão a escalão, até à tal estreia na Primeira Liga em setembro de 2000, e não demorou até se tornar dos árbitros mais relevantes do futebol português.
Pedro Proença. O miúdo traquina do andebol que até é bom de pés
Chegou a internacional em 2003 e atingiu o topo da carreira em 2012, quando foi genericamente considerado o melhor árbitro do mundo e assumiu tanto a final da Liga dos Campeões, entre Chelsea e Bayern, como a final do Campeonato de Europa desse ano, entre Espanha e Itália. Para Pedro Henriques, que tirou o curso ao lado de Pedro Proença e foi sempre muito próximo do agora candidato à presidência da Federação Portuguesa de Futebol, a ascensão ao topo do futebol mundial fez-se com a combinação de vários fatores.
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“O Pedro Proença tinha muitas coisas de que a UEFA gostava muito. Para já, foi aquela fase em que a UEFA decidiu que queria árbitros acima dos 1,80 metros, com aquele perfil atlético, não queriam barrigudos de bigode. Falava bem inglês, tinha presença, sempre com o gel no cabelo, e criou ali uma imagem boa em termos exteriores. E depois arbitrava bem, obviamente, e trabalhava muito bem. Já preparava muito bem os jogos, individual e coletivamente. Juntou a qualidade que tinha como árbitro à vontade que também tinha de ir mais além, à ambição, que é uma característica muito grande que ele tem. Mas é uma ambição que corresponde ao dia a dia de trabalho. Fazia um trabalho concreto para ser o melhor”, disse o também antigo árbitro ao Observador.
▲ Pedro Proença foi árbitro na Primeira Liga durante 14 temporadas, de 2000 a 2014
LUSA
Ainda assim, e apesar de ter vivido os melhores dias da carreira de árbitro nesse período, também protagonizou um dos momentos mais traumáticos da inevitável exposição pública. Em agosto de 2011, depois de sair do ginásio no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, foi agredido à cabeçada por um adepto do Benfica. Sofreu ferimentos na boca e partiu dois dentes. Dias depois, no Facebook, lembrou: “Podemos cair e ir ao tapete, mas nunca nos vencerão”.
Esteve no Mundial de 2014, arbitrou o último jogo num Cruz Azul-Auckland City para o terceiro e quarto lugares do Mundial de Clubes desse mesmo ano e anunciou o final da carreira já em janeiro de 2015. Despediu-se na Federação Portuguesa de Futebol, depois de 466 jogos entre competições nacionais e internacionais, e não deixou de vincar o “desgaste físico e mental”. “Tenho consciência de que deixo uma imagem de competência, profissionalismo e credibilidade perante todos os agentes desportivos com quem me cruzei. Mesmo reconhecendo que possa ter errado dentro de campo, e sofrendo com esses mesmos erros, estou consciente de que muito fiz para melhorar as minhas capacidades”, disse no último discurso, deixando a certeza de que estava “disponível para contribuir no que fosse necessário em prol da arbitragem e do futebol português”.
O “Gritos” que não tem “mau feitio” – é só um tecnocrata
Antes da longa carreira como árbitro e até antes de ter todas as credenciais, Pedro Proença já era conhecido pela “personalidade muito forte”. “Quando estávamos a tirar o curso havia aquela parte mais lúdica e também fazíamos umas peladinhas e quem conseguia ganhar à equipa do Pedro ia comemorar para cima dele, para o pé dele, para o irritar. Mesmo no jogo ele não gostava de perder. Tinha a alcunha de ‘Gritos’, porque gritava muito com o pessoal”, recorda Pedro Henriques sobre o árbitro que em campo tratava os jogadores por “meu querido”.
Quando deixou os relvados, o agora candidato à presidência da Federação Portuguesa de Futebol tornou-se proprietário de uma empresa metalúrgica, a Fanamol, especializada em molas para os setores automóvel e industrial. Acrescentou o projeto à direção da Natureza Verde, em Leiria, uma empresa que faz recolha e transporte de resíduos sólidos que liderava desde 2000, e também à administração de insolvências que já exercia, dando apoio técnico a magistrados em comarcas de todo o país.
Pelo meio, iniciou a missão de trabalhar “em prol da arbitragem e do futebol português”. Começou por ser membro do Comité de Árbitros da UEFA e, no verão de 2015 e de forma algo inesperada, candidatou-se à presidência da Liga de Clubes contra o então incumbente, Luís Duque. No arranque, a derrota parecia garantida: Luís Duque tinha o apoio de Benfica, Sp. Braga, Belenenses, Boavista, Tondela, Oriental, Mafra e Farense, Pedro Proença tinha como trunfos o não apoio de Sporting e FC Porto e uma reunião frutífera que manteve com os clubes da Segunda Liga em Oliveira de Azeméis.
Pedro Proença focado no terceiro e último mandato à frente da Liga de clubes
Ganhou por nove votos de diferença, com o apoio de 12 dos 18 clubes da Primeira Liga e oito da Segunda Liga, e foi eleito para o cargo que agora deixa, uma década depois. Ao longo dos últimos dez anos, tornou a centralização dos direitos audiovisuais uma prioridade, estreitou a relação entre a Liga e a Federação Portuguesa de Futebol, geriu o impacto da pandemia nas competições com o Governo e os clubes e renovou a Taça da Liga, para além de ter recentemente inaugurado o Arena Liga Portugal, que inclui a Liga Portugal Business School.
▲ Com Luís Filipe Vieira, Pinto da Costa, Frederico Varandas e também Fernando Gomes, na altura da pandemia
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
A última década garantiu-lhe a fama de ter “mau feitio”, mas Pedro Henriques explica que é algo mais denso do que isso. “Ele é um tecnocrata. É alguém que privilegia a burocracia e a parte técnica em detrimento, muitas vezes, da parte social e humana. Não estou a dizer que seja mau para as pessoas. Acho é que é tipicamente militar, é o típico comandante que quer cumprir a missão independentemente do que tiver de acontecer para cumprir a missão. Quanto tens alguém que é muito focado nisso, no cumprimento da missão e no cumprimento da missão com timings, é normal criar alguma animosidade com pessoas que estão dentro do sistema. Ele é muito focado na missão, quer cumprir, tem a disponibilidade completa e total e quer que o grupo também a tenha”, refere o antigo árbitro, que também sublinha o facto de Pedro Proença ter chegado a presidente da Associação de Ligas Europeias.
“As pessoas perceberam que ele é uma pessoa diferente. Até podia ter criado uma animosidade como árbitro, porque não marcou um penálti ou um fora de jogo, mas era em relação a adeptos. Não criou animosidade em relação às pessoas que, neste momento, estão à frente dos clubes. Quando começaram a relacionar-se com ele também começaram a perceber que estava ali uma pessoa diferente. Quando chega a presidente da Liga e começa a ir às reuniões das ligas internacionais, de repente toda a gente pertenceu que ele era completamente diferente. E nomearam-no presidente da Associação de Ligas Europeias. À frente dos espanhóis, dos franceses, dos alemães. Perceberam que ele era uma máquina de trabalho”, acrescenta.
Quem concorda é Helena Pires, diretora-executiva da Liga Portugal que está ligada ao organismo há mais de duas décadas e que trabalhou bem de perto do antigo árbitro nos últimos anos. “Trabalhar numa casa como é a Liga Portugal é um desafio constante. Uns podem chamar mau feitio, eu chamo-lhe responsabilidade e noção da visão de rigor que ele trouxe para a organização. Há uma visão, um profissionalismo e uma excelência que hoje a Liga tem que são fruto dos valores que são característicos do trabalho dele. Ele tem uma visão daquilo que tem de ser uma organização como a Liga Portugal e os resultados estão à vista. Ele chegou à Liga e conseguiu implementar um plano de cooperação que seguiu à risca e que permitiu superar uma situação económica gravíssima”, sublinhou em declarações ao Observador.
Helena Pires lembra que Pedro Proença trouxe “união ao futebol profissional”, tornou a Liga numa estrutura “totalmente profissional, internacionalizada, com nome e reputação, com estabilidade financeira”, e não esconde que trabalhar com o até aqui presidente do organismo é “aliciante e desafiante”. Para a diretora-executiva da Liga, o consenso que se gerou à volta do antigo árbitro é “fruto do trabalho que projetou a Liga numa outra dimensão”.
“Diria que é fruto de todo o trabalho que ele trouxe e que projetou a Liga numa outra dimensão. A defesa das boas práticas, de governação, de transparência, de organização, de credibilidade. Trouxe proatividade… Tenho muitos fatores que poderia utilizar, acho que estes são os mais relevantes. É uma pessoa exigente e comprometida com todas estas nuances de credibilidade. Ele utiliza muitas vezes a frase ‘a única coisa que nos separa são os 90 minutos dentro de campo’, porque em tudo o resto somos parceiros”, refere.
Divorciado e pai de uma filha, Pedro Proença começou a preparar a candidatura à Federação Portuguesa de Futebol, apontando sempre a 2025 e ao fim do último mandato de Fernando Gomes. Agora, aos 54 anos, vai dar início ao culminar daquilo para que trabalha há uma década e que começou a ser desenhado ainda no início dos anos 90, quando entrou no curso de arbitragem.
▲ Com parte dos elementos que são candidatos aos órgãos sociais e que o acompanham na corrida à Federação Portuguesa de Futebol
LUSA
A Federação Portuguesa de Futebol, o próximo passo que sempre fez parte do plano
Foi na página nove de um discurso de 19 que surgiu a assunção de algo a que não é possível fugir. “Sem nenhum pingo de sobranceria, sabemos que a probabilidade de vencer esta eleição, tendo em conta o número de subscritores que a suportaram, é muito alta”, referiu Pedro Proença, que apresentou oficialmente a candidatura à presidência da Federação Portuguesa de Futebol nos primeiros dias de fevereiro.
Foi já com essa toada, a ideia de que dificilmente irá perder para Nuno Lobo nas eleições marcadas para esta sexta-feira, que Pedro Proença surgiu no auditório principal da Cidade do Futebol, em Oeiras – ou seja, Pedro Proença apresentou a candidatura à Federação Portuguesa de Futebol na sede da Federação Portuguesa de Futebol. Sob o lema “Unir o Futebol” e uma sala lotada, onde as cadeiras disponíveis não chegaram para todos aqueles que marcaram presença, o até aqui presidente da Liga de Clubes salientou alguns dos objetivos mais prementes para um mandato de quatro anos.
Desde logo, a ideia de realizar uma das competições nacionais em território estrangeiro. “Portugal não excluirá do seu campo de possibilidades a disputa no estrangeiro de alguma das suas provas, nomeadamente uma Supertaça totalmente relançada no nosso calendário desportivo. Não podemos continuar a fingir que Portugal e o nosso futebol se promovem exclusivamente pelas nossas Seleções. Não é verdade. Os nossos clubes são embaixadores e players que precisam de ser todos os dias mais globais. E a Federação tem de liderar esse novo caminho”, explicou Pedro Proença.
O candidato da lista 1 à presidência da Federação Portuguesa de Futebol tem desde já a certeza do apoio de 63 dos 84 delegados da Assembleia Geral Eleitoral, equivalentes a 75% do caderno eleitoral, uma percentagem que lhe permite ter a tal noção de que a probabilidade de ganhar as eleições “é muito alta”. Pedro Proença propõe uma organização diferente da Direção do organismo: ao contrário de contar com vários vice-presidentes, como acontecia com Fernando Gomes, terá apenas o presidente da Liga de Clubes como vice-presidente por inerência e depois vários vogais espalhados por diferentes áreas.
No longo discurso, o antigo árbitro anunciou a criação de uma Direção Técnica Nacional de Arbitragem, com um plano nacional para a arbitragem a 12 anos, e deixou a intenção de tornar a classe totalmente profissional até ao fim do mandato. “Esta é uma realidade que passará pela implementação de um modelo empresarial para a gestão do setor. Não nego que a arbitragem – diz-vos de quem de lá veio – está muito melhor do que já foi. Mas a arbitragem é um setor que está sequioso dessa serenidade, desse reconhecimento e dessa visão. De carreiras claras, integradas e compreensíveis […] Uma Federação forte não se faz com uma arbitragem fraca ou uma disciplina incompreensível”, sublinhou, vincando ainda a necessidade de “uma avaliação séria do impacto do Tribunal Arbitral do Desporto”.