O gestor português Carlos Tavares foi o mago que, depois provar o seu valor como número 2 de Carlos Ghosn, evoluindo de engenheiro de testes a vice-presidente do Grupo Renault, após se formar em França, saiu da francesa Renault para liderar o grupo gaulês PSA em 2014. Em 2021 arrancou com a Stellantis, resultante da fusão dos franceses da PSA com os italo-americanos da FCA. Mas eis que, passados quatro anos, a magia se esgotou e os resultados menos bons aconselharam à sua saída, o que esteve longe de ser uma má notícia para o português.
Sabe-se agora que, para ser afastado a meio do seu contrato com a Stellantis, Carlos Tavares acabou por ir para casa aconchegado por uma quantia milionária. Isto enquanto a Stellantis registava os piores resultados de sempre. De acordo com a Reuters, Tavares recebeu 2 milhões de euros como indemnização, a que somou 10 milhões de euros devido ao seu desempenho anterior, durante o qual a empresa superou uma série de objectivos pré-determinados que justificaram o bónus entregue ao CEO português.
Uma vez adicionado o salário e outros subsídios, no total Tavares, que se demitiu da Stellantis a 1 de Dezembro de 2024, levou para casa 23 milhões de euros, um valor muito interessante e um dos maiores pagos pela indústria automóvel, com os sindicatos a chamarem a atenção para o facto de os restantes empregados do grupo receberem em média apenas 66.000€. Contudo, estes sindicalistas esquecem-se de recordar que os empregados não perdem o emprego se a empresa não atingirem os objetivos, ao contrário do que acontece com o CEO que, ainda assim, levou para casa durante 2024 menos 37% do que em 2023.
Mas o que surpreende mais no chorudo pagamento a Tavares é o facto de ele ter ocorrido no momento em que a Stellantis atravessa um mau momento, que foi precisamente o que motivou a saída do CEO. É que, em 2024, os lucros da empresa caíram 70%, para apenas 5,5 mil milhões de euros, o que se ficou a dever maioritariamente a 15% nas reduções das vendas no mercado norte-americano. E, nos EUA, a maioria das marcas locais da Stellantis perdiam dinheiro, o que deixou a rede de concessionários à beira de um ataque de nervos, tanto mais que se queixavam há meses que estavam afogados em stocks de veículos novos que não conseguiam escoar.