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"Ninguém quer ser segunda escolha na vida de alguém", mas a prata de Constança Entrudo é o nosso ouro

Este artigo tem mais de 1 ano

Na sala estúdio do CAM, Constança Entrudo apresentou "Second Best", sobre a pressão para o triunfo máximo num mundo em que ficar em segundo parece pior que perder. Mas com ela, saímos todos a ganhar.

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Precisamos desta medalha de prata como se fosse ouro, que dificilmente seria um desfile convencional. A pouco e pouco, a prática da designer encaminha-se de tal forma para as artes que este é mais um caso de performance/instalação com um guarda-roupa Constança Entrudo. “É bom sentir isso. Sempre ouvi dizer que quanto mais a marca ia crescendo mais tinha que me focar no produto, nas vendas. Acho interessante que o crescimento da marca me permita estar a fazer outras coisas, e que com o tempo as pessoas também reconheçam uma visão artística no meu trabalho.“, explica ao Observador.

Não por acaso, é no novíssimo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian que apresentou esta sexta-feira “Second Best”, uma reflexão sobre (supostos) vencedores, (supostos) vencidos; a pressão para o triunfo máximo num mundo em que quase sempre somos segundos; a sombra que paira sobre os primeiros dos últimos, aparentemente mais derrotados do que aqueles que nem chegam a cortar a meta. O cenário eleito é “mesmo um sonho”, tornado real depois do diálogo com a programadora cultural e Diretora Adjunta do museu. “Surgiu através de uma conversa parela que estava a acontecer com o CAM. Convidei a Ana Botella para vir ao nosso estúdio, conhecer o meu trabalho, até porque cada vez estamos a fazer mais projetos artísticos. Fazia sentido para mim mostrar-lhe o meu trabalho. Depois acabámos por trazer a ModaLisboa para a conversa. Acharam que era a designer que fazia sentido apresentar aqui por estar neste limbo.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Longe de passerelles, com a linha narrativa depurada, na sala estúdio, ao cair da tarde deste primeiro dia de desfiles da ModaLisboa, a música do norte-americano Collins, fixado em Los Angeles, embalou as movimentações, imagens e roda viva de convidados que ia circulando por esta caixa escura. Há cerca de meio ano de volta deste espectáculo, o novo formato envolveu vários intervenientes, não apenas fazer a composição musical de raiz, como sintonizar toda a equipa técnica e da direção da Gulbenkian, e a direção de movimento a cargo do performer João dos Santos Martins, a que se juntam, claro, os manequins. Além da abertura à imprensa, o evento abriu as portas ao público em geral, em três slots (de 70 pessoas cada) que esgotaram em apenas uma hora — porque hoje todos saíram a ganhar. “É uma coleção que depois passa para uma performance, e que passa para uma instalação no espaço. Uma celebração deste segundo melhor lugar. É muito a cultura que vivemos: mais vale perder do que ser segundo. Quisemos gravitar entre diferentes estados de espírito numa só sala, um misto de frustração, conformismo, contentamento, desilusão.”, descreve a designer.

Os pódios desenhados por este coletivo, a câmara que corta para apurar o esgar de desilusão, o sorriso desmaiado do perdedor, a coleção de medalhas de vice campeão, porque mais uma vez falhámos o ouro, e o inatingível lugar cimeiro, lá em cima, tão em cima, que a alma nem com escadote alcança a posição. “Nunca fiz competição desportiva mas observei com muita atenção a expressão no pódio do segundo melhor. Há sempre um ecrã focado na cara daquela pessoa, que é algo que acontece muito nos Óscares também. Quisemos replicar isso live. Impusemos uma narrativa mas também quisemos deixar em aberto uma certa reação do performer”, enquadrou Entrudo, que ao longos dos últimos meses de pesquisa também redefiniu leituras. “Foi giro para mim ver como a minha própria perceção de ficar em segundo foi mudando. O meu objetivo desde sempre foi realmente ver de outra maneira. O facto de as minhas coleções serem tão conceptuais também serve de aprendizagem, e mesmo terapêutica. Tento sempre tirar a melhor lição dos conceitos que trago. Não pensava celebrar isto de ficar em segundo, apesar de ninguém quer ser o segundo na vida de alguém, ninguém quer admitir que é a segunda escolha. Mas somos suplentes em tantas coisas e outras pessoas são suplentes nas nossas vidas. Fomos desconstruindo a premissa.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Depois das imagens do fundo do mar saídas da viagem ao arquivo, para este “Segundo Melhor” Constança Entrudo inspirou-se nas rosettes, ou distinções de lapela, que se multiplicaram por ocasião do casamento de Carlos e Diana de Gales, a malograda princesa que a história desalojou do quadro de honra mas sobretudo do coração do príncipe que chegaria a Rei — e que hoje poderiam ser aplicados “à melhor mãe do mundo”, “ao empregado do mês”.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Nos coordenados, além do laço em napoleónica versão coquette, destacaram-se os estampados de confetis e fogo de artifício, numa “celebração forçada”, com os já conhecidos polka dots de Constança a expandirem para manchas gráficas. As fitas rendem as linhas em inúmeras peças, numa alusão  à ginástica acrobática, e a renda passa a neoprene desportiva dos ténis, mais técnica. Decisiva é a colaboração com a RDD textiles, que patrocina a coleção na parte das malhas e garante que 95 por cento do set design é zero desperdício. “É importante a ponte com o têxtil e as fábricas, para não ser apenas enviar um desenho. Há uma conversa, propostas. Tiveram abertura para usarmos rolos e rolos de tecido que depois podem voltar para produção” — afinal, falamos de um set design que envolveu mais de 300 metros de tecido.

Juntem-se ainda as referências ao silver lining (guias para ver um inesperado final feliz num trocadilho com o forro) e toda uma gramática e referências iconográficas saídas dos power 80’s e das atletas prodigiosas a quem era proibido falhar, não fosse o plano desportivo um dos universos mais férteis para sentenças de glória e de morte. “Punham as medalhas todas ao peito e eram capas da Time. Era sempre good as gold”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Constança Entrudo juntou-se ao elenco de manequins ao cair da performance

Foi com o diretor de arte da marca, Bernardo Cunha, que Entrudo elaborou um legítimo sucessor (e campeão de bilheteira) do brinco-laço lançado fora de época natalícia, para vincar essa fúria consumista e os alertas climáticos — as pistas de urgência estavam dadas nessa coleção S.O.S que apresentou na passada edição da ModaLisboa, na Sala Lisa, e que vai agora chegando aos mercados português, chinês e norte-americano, a tempo da primavera-verão. No fundo, Entrudo vai continuando este diálogo. “Vivemos um tempo em que as pessoas são obcecadas com o wellness, com os seus psicólogos, com métodos de terapia diferentes, com t pessoal, etc. Aquela coleção já era quase uma abordagem meio irónica a todas estas formas de bem estar que na verdade, muitas vezes, não correm como esperado. A pessoa refugia-se, põe toda a esperança de mudar, e depois vem a desilusão.”

Constança Entrudo: “Pode soar mal, mas a moda ganha em distanciar-se das pessoas, ajuda a descontruir preconceitos”

Para este momento, a designer explorou ainda um elenco de nomes de prata que fizeram parte do moodboard, incontornáveis para uns, incapazes de chegar à estatueta dourada para outros. “Penso em referências visuais como o David Lynch, que sempre foi uma referência para mim, e que nunca ganhou nada. Muitos foram sempre ‘second best’. Hitchcock, Kubrick, e Amy Adams, no cinema; o Borges e o Murakami, na literatura; o Paddy Barnes, no boxe, o Jimmie Foxx, no beisebol, ou o Tony Romo, que nunca ganhou um Super Bowl.”

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