A completar 35 anos de carreira, Luís Buchinho pode ter apresentado a sua última coleção. “Como estou numa fase em que me apetece dar, ensinar, acho que o meu maior legado não vai passar muito por continuar a fazer coleções mas por ensinar como é que se fazem coleções”, diz ao Observador, minutos após o desfile neste sábado, 8 de março, na ModaLisboa. Para o designer, o futuro passa pelo “ensino, sem dúvida”, afirmando ainda que não pretende lançar novas coleções: “Não me parece, não tenho muita vontade“. Sobre a marca Luís Buchinho e se este é também um adeus à criação de roupas no geral, o designer não exclui cenários. “Para já, não. É um hiato”.
Luís Buchinho não ia sequer integrar o cartaz da ModaLisboa, mas assume que foi convencido no início do ano. “Foi proposto pela própria universidade envolvermos os alunos e colaborarmos todos para a materialização disto”, conta, sobre a participação de 27 alunos de licenciatura de Design e Produção de Moda da Universidade Lusófona, no Porto. “Foi muito difícil porque fiz isto com os meus estudantes de primeiro ano que estão há três meses em aulas. Foi um desafio.” Os estudantes participaram em todos os processos de criar, montar e levar uma coleção à passarelle. “Acho que isto foi sem duvida uma prova, eles muito virgens no assunto, de adquirir conhecimento absurdo sobre tudo aquilo que está inerente em fazer uma coleção de autor.”
Ao som de Bjork, as modelos desfilaram cada look de forma calma e pausada, dando o tempo necessário para que quem assistia pudesse apreciar cada detalhe. Pausas para que fosse possível observar, por exemplo, os cortes que privilegiam o movimento, os tecidos fluídos e delicados com sobreposições que formam saias, calças e casacos e as silhuetas marcadas pela feminilidade, características clássicas das criações de Buchinho. As cores são sóbrias: beges, cinzentos claros, tons de vinho, verde e azul escuros. No final do desfile, o designer apareceu de forma breve, sorriu e acenou, e deixou a passarelle, sem deixar transparecer o que poderá provavelmente ser uma despedida.
Chama-se “Love” e representa o sentimento de Luís Buchinho quando o designer entra em modo de retrospetiva. “É um sentimento um bocadinho dúbio, é como o vento, sem dúvida, porque olho para coisas que fiz e não sei como é que fiz aquilo, não sei como é que se materializou. A frase que nós temos em Portugal, ‘o sonho comanda a vida’, é uma realidade absoluta. Porque eu acho que trabalhei durante muito tempo com meios muito limitados a nível de logística, a nível financeiro, a nível de conjuntura comercial, marketing e etc. Mas acho que ao longo da minha carreira tive visões tão lúcidas daquilo que queria fazer para as coleções, que é o caso desta, que é o exemplo máximo disto, que as coisas aconteceram. E olhar para isso e tomar consciência disso, que houve temas muito ricos e histórias muito bem contadas e muito bem materializadas a nível de metodologia, é algo que me deixa realmente, a seu tempo, comovido. Uma comoção triste e alegre ao mesmo tempo.”
Em outubro de 2023 tornou-se pública a notícia de que a loja que o criador mantinha no número 812 da Rua de Sá da Bandeira, no Porto ia fechar. Na altura, sobre o futuro da marca que tem desde 1992, Luís Buchinho adiantou que o objetivo era “apostar no digital e nas lojas multimarca”, bem como no “atendimento personalizado”. Neste momento tem uma visão bastante mais pessimista da moda em Portugal. “Para marcas como a minha o futuro não é risonho. Estamos completamente dominados pelas multinacionais que trabalham alta gama e baixa gama. E nós no meio estamos a ficar com menos coisas”, diz o criador. “É um assunto que já não me apetece debater. É o que é. Os meus alunos sabem da minha visão e podem vir a trabalhar para grupos. Isto é o que é e eu não vou participar mais neste discurso. Não quero”, conclui.
Um dos principais nomes da moda nacional, Luís Buchinho formou-se em design de moda pelo Citex, atual Modatex, no Porto, em 1989. Lançou a marca própria em 1992. Em 2007, abriu a sua primeira loja, no número 122 da Rua José Falcão, no Porto. Ao longo carreira recebeu vários prémios, incluindo dois Globos de Ouro, em 2012 e 2016. É figura frequente no cartaz da ModaLisboa, tendo apresentado coleções pelo menos nas últimas sete edições. Em outubro, ao Observador, já assumia que eram “tempos muito difíceis, com uma energia pesada a nível geral.”