Há novos personagens na história da evolução humana na Europa, até agora desconhecida. São os “Pink”, ou “rostos ocultos”, em homenagem aos Pink Floyd e ao seu álbum “The Dark Side of the Moon” (O Lado Oculto da Lua). Os seus restos foram encontrados na Península Ibérica, mais concretamente numa antiga caverna na serra de Atapuerca, em Burgos, Espanha: tratam-se de fragmentos ósseos da bochecha esquerda e da mandíbula direita do mais antigo rosto humano alguma vez descoberto na Europa Ocidental.
O estudo, publicado esta quarta-feira na Nature, revela que os restos encontrados pertencem a um adulto de uma espécie humana extinta que viveu e morreu na Península Ibérica entre 1,1 milhão e 1,4 milhão de anos atrás. O que obriga a reescrever, mais uma vez, os livros de História. A descoberta antecipa a presença humana na Europa em 300 mil anos e revela um capítulo desconhecido da evolução humana na Europa.
Até agora, o registo dos primeiros e únicos humanos na Eurásia — Homo erectus, a primeira espécie humana primitiva, que comprovadamente deixou África, com rosto siamês, mas que caminhava erguido — estava datado de há 1,8/1,7 milhões de anos e situado na atual Geórgia, após a descoberta de cinco crânios. Na Europa Ocidental, os restos humanos mais antigos (uma mandíbula e dentes) conhecidos tinham entre 1,1 milhão e 1,2 milhão de anos e podem afinal pertencer à mesma espécie agora encontrada.
Seguiu-se, durante o período do Pleistoceno Inferior, uma espécie extinta, o Homo antecessor, ou “homem pioneiro”, há cerca de 800 mil anos (já com um rosto muito semelhante ao do homem moderno, o do Homo sapiens), cujos restos foram encontrados também em Antapuerca.
No artigo da Nature, a equipa espanhola responsável pela descoberta afirma que os fósseis agora encontrados são mais primitivos do que o Homo antecessor e parecidos com o Homo erectus. Sem certezas perante a identidade, os especialistas chamaram-lhe Homo affinis erectus, dada a semelhança com os primeiros humanos. Ou os tais “Pink”, os “rostos ocultos”, por causa dos narizes mais achatados em relação ao Homo antecessor, rosto mais moderno e nariz proeminente, e muito semelhante aos do Homo sapiens.
Ou seja, esta espécie de Burgos estaria num ponto de evolução intermédia entre os homens primitivos e os modernos, de acordo com as reconstruções feitas em 3D. Os Pink tinham características físicas primitivas, sem narizes projetados para frente, como os nossos, mas com a parte inferior dos rostos já mais estreita e moderna. Um humano a meio caminho entre o antigo e o novo.
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Com esta descoberta de restos fossilizados de uma nova espécie humana na Europa fica provado que existiram pelo menos duas formas de humanos primitivos a ocupar esta região da Península Ibérica no início da era do Pleistoceno. Nessa altura, a caverna, perto de Atapuerca, em Burgos, onde foram encontrados agora estes restos, ficava numa zona de Floresta Húmida, atravessada por rios, onde haveria muita vida selvagem.
Os cientistas acreditam que esta nova espécie não tem por isso relação com o Homo antecessor e terá resultado de uma migração independente e muito mais primitiva, vinda da “espécie-mãe”, provavelmente situada no Médio Oriente, segundo María Martinón, diretora do Centro Nacional de Pesquisa sobre a Evolução Humana e co-autora do estudo.
Esses primeiros humanos europeus seriam uma espécie de “fugitivos do pelotão”, sugere Martinón. Pequenos grupos que chegaram à Península Ibérica entre períodos glaciais, quando Atapuerca era uma zona de savana quente, com rinocerontes, cervos, javalis, hipopótamos e cavalos selvagens. “Este fóssil oferece um quadro de como eram esses humanos, algo extremamente difícil de obter. Achávamos que não havia população na Europa nesse período, mas agora sabemos que já estavam em Atapuerca”, destaca Martinón.
Uma outra explicação para a existência desta espécie é o período de arrefecimento extremo da Terra há cerca de 1,1 milhão de anos, que pode ter expulsado os primeiros humanos da Europa Ocidental e levado à existência desta população diferente na Península Ibérica.