Um juiz ordenou hoje a prisão por corrupção do presidente da câmara de Istambul, Ekrem Imamoglu, cuja detenção na quarta-feira desencadeou uma onda de protestos na Turquia, disse um dos seus advogados.

Acusado de corrupção e terrorismo, o principal rival do Presidente Recep Tayyip Erdogan ficou em prisão preventiva depois de ter sido levado no sábado à noite para o tribunal de Caglayan, em Istambul.

Imamoglu foi ouvido duas vezes durante a noite pelo tribunal, onde chegou sob forte escolta policial, segundo a agência francesa AFP. Segundo a acusação, o autarca foi detido por “criação e direção de uma organização criminosa, aceitação de subornos, desvio de fundos, registo ilegal de dados pessoais e fraude em concursos públicos no âmbito de uma investigação financeira”.

O Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), principal força da oposição a que pertence o presidente da câmara de Istambul, denunciou “um golpe de Estado político”, sendo que os advogados de Imamoglu já anunciaram que vão recorrer da decisão do tribunal. Já o governo turco nega que as investigações tenham motivações políticas e afirma que os tribunais são independentes, escreve a Reuters.

Devido às acusações de que é alvo, o autarca de Istambul foi também foi suspenso das suas funções neste domingo. Perante tudo isto, Imamoglu — numa mensagem difundida pelos seus advogados — denuncia o que diz serem “acusações e calúnias inimagináveis” contra ele. “Vamos acabar com este golpe, com esta mancha negra na nossa democracia, todos juntos”, afirmou.

Os tribunais ordenaram neste domingo de manhã a prisão preventiva de outros coacusados do presidente da câmara, incluindo um dos seus conselheiros mais próximos, segundo a imprensa turca. Imamoglu, de 53 anos, foi entretanto transferido para a prisão de Silivri, a oeste de Istambul, junto com vários outros coacusados.

A pedido da oposição, dezenas de milhares de pessoas reuniram-se em frente à Câmara Municipal de Istambul até tarde, pela quarta noite consecutiva, para apoiar Imamoglu. Os manifestantes passaram a noite no interior da Câmara Municipal, alguns dos quais tentaram dormir em cadeiras colocadas no átrio do vasto edifício, enquanto esperavam para saber o destino de Imamoglu, segundo a AFP.

O CHP anunciou que iria apresentar o popular presidente da câmara como candidato presidencial nas próximas eleições, previstas para 2028, embora a oposição esteja a pedir que sejam antecipadas. “Ekrem Imamoglu está a caminho da prisão, mas também da Presidência”, declarou o líder do CHP, Özgur Özel.

Neste domingo, foi lançado um voto simbólico em toda a Turquia, no qual não só membros e apoiantes do CHP como também simpatizantes podiam colocar um boletim com o nome de Imamoglu numa urna para expressar o apoio ao autarca, segundo a agência espanhola EFE. “Viemos apoiar nosso autarca. Continuaremos com ele”, disse à AFP Kadriye Sevim, uma participante destas primárias.

De acordo a mesma agência, centenas de pessoas foram detidas em pelo menos nove cidades durante os protestos. Para conter os distúrbios, o Governo de Istambul prolongou a proibição de ajuntamentos até quarta-feira à noite e anunciou também restrições à entrada na cidade de todas as pessoas que pudessem participar nas manifestações, sem indicar como tal medida será aplicada.

Erdogan, no poder há mais de duas décadas — inicialmente como primeiro-ministro e depois como presidente — prometeu, por sua vez, não ceder ao “terror da rua”.

Imamoglu tornou-se num dos rivais mais incómodos do chefe de Estado, quando arrebatou a autarquia de Istambul do partido do presidente em 2019. O AKP, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, ao qual pertence o Erdogan, manteve-se no poder na capital económica do país por 25 anos.