Dizer que não houve um único tema em que Joana Mortágua e Nuno Melo estivessem de acordo não é um exagero. Nas políticas para a Habitação, Saúde, Imigração e Defesa, a bloquista e o democrata-cristão foram dois planetas diferentes a chocarem de frente. E foi também um debate sobre resultados: os oito anos da governação socialista (que o Bloco ajudou a suportar) contra os 11 meses de trabalho da AD, com muitas acusações à mistura.
“O balanço são casas que os salários não podem pagar. Todas as medidas que a AD tomou aumentaram o preço das casas. O país já não aguenta a lengalenga da construção”, porque as pessoas “não podem ficar à espera de um milagre”, arrancou Joana Mortágua, fazendo, mais uma vez, a defesa da proposta do partido para fixar tectos às rendas.
Nuno Melo defendeu-se, dizendo que só foram construídas 12 mil novas casas nos últimos dez anos e que o problema se deveu, essencialmente, à “falta de oferta”. O líder do CDS argumentou depois que o tecto às rendas foi tentado em 1948, pelo regime de Salazar, e não resultou. “Não funcionou em Portugal e não funciona fora. Os investidores que recorrem ao crédito deixam de poder pagar as casas. A seguir, deixam de poder reabilitar as casas. E há depois uma degradação do parque habitacional. E isso, a prazo, afasta a classe média dos centros da cidade para as periferias”.
“É de uma enorme arrogância ou cobardia face aos interesses da especulação imobiliária dizer que a Europa inteira está errada”, devolveu a bloquista. “Temos milhões de pessoas a sofrer por não ter casa ou pela diminuição do orçamento familiar. Mais quatro anos disto não é uma promessa, é uma ameaça de despejo.”
A troca de argumentos manteve-se nos mesmo termos na área da Saúde. Joana Mortágua acusou o Governo de AD de ser responsável pelo “desastre” em curso e desafiou Nuno Melo a revelar se se tinha levantado para exigir a demissão de Ana Paula Martins no Conselho de Ministros.
Mesmo assumindo que não foi ainda possível responder a todos os desafios, Melo respondeu com os resultados conseguidos ao longo dos últimos onze meses. E devolveu o ataque: “Os problemas da Saúde não se resolvem atirando ideologia para cima. A Joana e Mariana Mortágua são responsáveis pelo agravamento dos problemas da Saúde. Aproveitaram uma ministra [Marta Temido] que se exaltava ouvindo a Internacional.”
O debate evolui depois para a questão da imigração. Sem surpresa, Joana Mortágua voltou a tentar colar a AD ao Chega, dizendo que o atual Governo tem “mentido” sobre o aumento dos imigrantes e que, com a nova “via verde” para a imigração, os imigrantes vêm “por encomenda” — para os outros resta o tráfico e a miséria.
Na resposta, o líder do CDS recordou a evolução do número de imigrantes em Portugal e alegou que só o Bloco de Esquerda acredita na “loucura de que pode vir toda a gente”. Para o democrata-cristão, é precisamente para garantir o “humanismo” no acolhimento das pessoas que é preciso regular a imigração.
Na recta final, houve ainda tempo para falar sobre Defesa e sobre a Ucrânia. Desta vez, foi Nuno Melo a começar ao ataque, recuperando as declarações de Mariana Mortágua anteriores ao início da guerra da Ucrânia, quando a bloquista se referiu à tensão naquela região como sendo um “conflito diplomático”. “Não sei já contaram o número de mortos [desde então]”, provocou.
Melo sugeriu depois que a posição do Bloco de Esquerda é uma “perfeita irresponsabilidade” atendendo às ambições imperialistas de Putin, recuperando as mais recentes declarações de Mariana Mortágua, que ironizou recentemente com a possível entrada de tanques pela entrada de tanques pela fronteira espanhola. “A nossa fronteira, ao contrário da vossa, é a democracia.”
Joana Mortágua defendeu a posição, repetindo a crítica ao papel da NATO. “A NATO é controlada pelo melhor aliado de Putin. Só Nuno Melo não percebeu que EUA e Rússia se aliaram para pilhar a Ucrânia”. para a bloquista, é preciso um acordo de Defesa entre os Estados europeus, mas não em cima de “mentiras” como dizer que a Europa não tem capacidade defensiva face à Rússia.
Diálogo mais revelador
Joana Mortágua (JM): O Governo entendeu que deveria imitar a extrema-direita no discurso sobre a imigração. E para isso fez duas coisas: mentiu ao país, porque Leitão Amaro veio dizer que Portugal era um dos países que recebiam mais imigrantes em relação à população, todos os jornais dizem que isso é uma absoluta mentira; e fez de conta que ia limitar a entrada de imigrantes com o fim da manifestação de interesses. Logo ao lado, veio abrir uma via verde para entrarem mais 100 mil trabalhadores para a construção civil. Sabe porque é que vão continuar a entrar? Quem lhe explica é Paulo Portas, quando pergunta: “Quem nos vai servir à mesa nos restaurantes? Quem vai para as gruas da construção civil? Quem faz as entregas das compras online?”. Portugal precisa de imigração regularizada.
Hugo Gilberto (moderador): Isso é uma novidade, citar Paulo Portas.
JM: Quando até Paulo Portas percebe a necessidade que a nossa economia tem de imigração é porque é preciso citar-se o bom senso. Não pode criar-se uma via em que os imigrantes vêm por encomenda dos empresários, deixando para todos os outros a clandestinidade e o trabalho ilegal. Portugal tem imigrantes da mesma forma que todos os países ricos receberam mais imigrantes nos últimos anos. A nossa economia responde pelo modelo de turismo e agricultura intensiva. Se não for pelos imigrantes as contribuições para a Segurança Social deixam de permitir pagar as pensões. Hipócrita é perceber que precisamos deles e não os tratar com respeito.
Nuno Melo (NM): Quando ouço Joana Mortágua a citar Paulo Portas percebo que nem tudo está perdido. Pode ser que um dia destes veja a luz.
JM: Eu pensei o mesmo, veja lá.
NM: Ainda bem. A mim não me vai ouvir citar o Louçã, pode ter a certeza.
JM: Fazia-lhe bem.
NM: Em 2018 havia 490 mil imigrantes, em 2024 1460 milhões. A questão não está na utilidade, está no humanismo que esta política não consente. O resultado desta loucura que só o Bloco pensa que é normal, como se pudesse vir toda a gente, faz com que tenhamos muitas pessoas que vieram atrás de uma ilusão e estão a viver na rua, em estações de comboio, a viverem 30 ou 40 numa casa, a serem absolutamente exploradas. A única coisa que esta demanda ideológica consegue é exploração e fome.