Cuidar do nosso bem-estar vai muito para além do aspeto físico. É um ato de amor que se traduz também na nossa saúde mental. Muitas vezes associada a uma ideia pejorativa, a vaidade e o sentirmo-nos bem na nossa pele, ainda é uma ideia que, na maior parte dos casos, nos parece mais facilmente associada a mulheres. Mas e os homens, onde ficam em todo este processo? Não terão, também eles, começado a querer tomar melhor conta de si?

Foi precisamente para desconstruir estas ideias e desmistificar alguns conceitos que no passado dia 11 de abril teve lugar, no Estádio Universitário de Lisboa, a apresentação de um estudo pioneiro sobre “O Autocuidado Masculino em Portugal”. Realizado pela Dove Men+Care, em conjunto com a Netsonda, o objetivo do estudo foi entender de que forma os homens portugueses cuidam de si, por dentro e por fora.

No âmbito da campanha “Os Lobos São Homens Reais” – lançada no seguimento do patrocínio oficial da marca Dove Men+Care à Federação Portuguesa de Rugby -, a manhã começou de forma diferente. Com a presença dos Lobos, e antes da apresentação do estudo, o caminho começou a ser feito com a entrada no estádio, uma paragem pelo balneário e uma posterior entrada em campo com tempo para um levantar de véu sobre esta modalidade.

“O rugby é um desporto de combate. E o balneário é o local onde nos preparamos para esse momento e onde, no intervalo, retomamos para nos reajustarmos. A parte mais alegre é que também é o sítio para tomarmos banho, cuidarmos de nós e da nossa aparência. O mundo foi evoluindo e em boa hora veio este estudo. O autocuidado é uma coisa importante”, quem o disse foi António da Cunha, Founding Partner & GM at MOVE SPORTS, que se fez acompanhar durante toda a visita pelos jogadores Vasco Baptista, António Prim e José Rebello de Andrade.

“O balneário tem aqui uma essência especial, mas a preparação começa muito antes disso. Começamos sempre com um estágio. E depois a coisa com mais foco vem na altura da entrega das camisolas no hotel, antes do autocarro para vir para cá”, partilhou José, sendo depois complementado pelo colega de equipa, Vasco, que acrescentou: “O jogo não começa no balneário, começa sempre no estágio antes. Normalmente, um dia antes do jogo já se vê essa preocupação com a aparência. Há pessoas que até cortam o cabelo. Eu sou uma dessas pessoas. Eu gosto de cortar o cabelo e aparar a barba antes de um jogo. Há uma frase que eu trouxe da Nova Zelândia que é: Look good, feel good, play good. Eu levo muito isso para o jogo. Sentir-me bem para jogar bem”.

Dove Men+Care e os “Lobos” na apresentação do estudo “O Autocuidado Masculino em Portugal”

Ao longo de toda a manhã ficou claro que o autocuidado é cada vez mais uma preocupação e os jogadores presentes foram o exemplo disso mesmo. Depois de uns aquecimentos com a bola em campo, foi então altura de seguir para o local de apresentação do estudo. Os jogadores colocaram-se a postos e o arranque foi dado por Catarina Dias, porta-voz da marca: “A marca Dove Men +Care é uma marca que nasce com o propósito do autocuidado. A marca Dove é uma marca que fala sobre o propósito da beleza real e tem como propósito dar às mulheres a autoestima para cuidarem de si, independentemente do corpo que têm. Mas também os homens se devem sentir confiantes na sua pele. Por isso, enquanto marca, temos o propósito de dar a todos os homens mais coragem para cuidar de si. Cuidar não só da sua aparência, como do seu bem-estar emocional. Porque acreditamos que um homem que cuida de si é um homem que se sente mais confiante consigo mesmo para ultrapassar todas as adversidades do dia a dia e para cuidar de quem mais gosta. É assim que nasce este estudo”.

O estudo, pioneiro em Portugal, foi realizado em parceria com a Netsonda e a sua apresentação ficou a cargo da Técnica Qualitativa de Estudos de Mercado da Netsonda, Madalena Lupi. “Foram feitas 600 entrevistas online a homens entre os 25 e os 65 anos, de todo Portugal. Fizemos ainda várias entrevistas pessoais a homens de idades diferentes, de fases de vida diferentes, dentro e fora das grandes cidades. E fomos também, para ter uma visão de 360º, falar com profissionais”, começou por dizer. Mas quais foram as conclusões? “Concluímos que os homens já se cuidam, sem aquele tabu do antigamente, já vão para além do gel de banho e do shampoo, tomam muita atenção à sua imagem. Isso é positivo, mas mais positivo ainda é eles assumirem o impacto que isso tem na sua autoestima”, adiantou. Já no que diz respeito à parte emocional, ficou claro que ainda existe um longo caminho pela frente. Aqui, os estereótipos são mais fortes e a resistência também. “Os homens têm muito incutida a ideia de que se tenho um problema, esse problema é meu. Portanto, não vou partilhar com os outros porque os outros não o vão saber resolver. Há menos esta tendência de partilhar com os outros. Depois há ainda o estereótipo de que o homem é forte. É difícil para um homem conseguir assumir que tem que procurar ajuda”, sublinhou Madalena.

Alguns dos dados apresentados.

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  • Cerca de 80% dos inquiridos afirmam que cuidar da sua aparência aumenta a autoestima e contribui para melhorar o seu bem-estar emocional. Hoje em dia, só 15% dos homens considera negativo cuidar bastante do seu físico;
  • 48% dos homens investe mais em produtos de higiene do que antes, principalmente entre os 25 e 34 anos (68%). O shampoo, desodorizante, gel de banho e perfume são essenciais na rotina de cuidado masculina, mas não só: 52% já usa creme de rosto, e 40% usa loção de corpo ou produtos específicos para a barba.
  • 31% dos homens procura os amigos para expor os seus problemas, mas é no parceiro/a que a maioria (51%) encontra o principal suporte. Por outro lado, nem 10% recorre a um profissional de saúde e um em cada quatro diz que não fala com ninguém quando se sente emocionalmente em baixo;
  • O sexo masculino pratica exercício físico (42%), adota uma atitude pragmática para encontrar soluções para os seus desafios (30%) e cuida da sua aparência (28%). Para 94% dos inquiridos, o desporto desempenha um papel central e muito positivo no seu bem-estar emocional. Daqueles que praticam atividade física, quase dois em cada três fazem-no com bastante frequência – 2/3 vezes por semana.

Ainda que o aspeto exterior seja cada vez menos um tabu, a verdade é que embora grande parte dos homens comece a cuidar mais de si e a preocupar-se com a sua aparência, o bem-estar mental ainda é uma das áreas mais difíceis de desbravar. Apenas em pontos de rutura é que a ajuda é requisitada e as ideias pré-concebidas socialmente ainda se apresentam com um enorme peso. A par com isto, vem o fracasso e a dificuldade que os homens ainda sentem em lidar com ele.

Os jogadores mantiveram a sua presença ao longo de toda a apresentação e foram os testemunhos em tempo real, não hesitando em partilhar as suas ideias e opiniões sobre os diversos temas. “O facto de estarmos a ter esta conversa é uma amostra da evolução que já alcançámos e que tem sido feita ao longo dos últimos anos. Mas ainda existem imensas reservas”, partilhou António Prim, não hesitando em reforçar: “Eu que sou uma pessoa que gosta de falar, quando chega ao momento de falar de algo mais emocional, parece que há um entrave. Tenho dificuldade em falar sobre esses tópicos porque é uma coisa que nunca me foi incutida”. Já para Vasco Baptista, o cenário é um pouco mais positivo neste campo e a questão do fracasso, por exemplo, é um conceito com o qual tem vindo a aprender a lidar. “Eu acho que lidar com a falha faz parte do processo. É inevitável. Nós próprios, nos treinos, falamos muito nisto. Vai acontecer, vamos falhar. É-nos incutido isto. Não nos é dado o medo de falhar, mas sim um encorajamento para se falharmos, conseguirmos fazer melhor numa próxima. Ter medo de falhar, por si só, já é uma probabilidade para se falhar muito grande”, sublinhou. Ainda assim, os três jogadores sentiram-se representados em vários dos números apresentados, seja por experiência própria, seja por presenciarem situações parecidas no seio do seu grupo de amigos ou pessoas mais próximas. Na questão do desporto e da influência do mesmo no seu bem-estar, a posição foi unânime entre os três: este é, de facto, o fator com maior impacto nas suas vidas.

Uma coisa ficou clara: a vaidade não tem de ter uma conotação negativa e apenas associada às mulheres. Cuidar de si não é coisa de género, seja qual for o corpo em que se encontra. Os homens estão, cada vez mais, a cuidar de si, da sua aparência e a procurar fomentar o seu bem-estar. Ainda assim, o caminho da desconstrução de clichês e tabus ainda não chegou à sua paragem final. É preciso dar aos homens a coragem para que o cuidado que começam a ter com o exterior, se estenda ao interior e que a imagem de força que sentem que precisam de ter, possa fraquejar sempre que necessário. Afinal, todos merecemos sentirmo-nos bem na nossa pele, sem receio de falar sobre isso. De dentro, para fora.