Albano Jerónimo, Bruno Nogueira, Gabriela Barros e Rita Cabaço são levados à vez para uma sala escura para interrogatório e, com um holofote a incidir-lhes na cara, são confrontados com a seguinte pergunta: “fizeram rábulas de comédia? Sim ou não”? No universo narrativo de Ruído, a nova série a estrear na RTP pelas 22h30 de 7 de maio, rir e fazer rir foi proibido em Portugal — e os responsáveis por sorrisos ou gargalhadas arriscam multas avultadas e penas de prisão de 10 anos.
A premissa pode parecer pesada, mas a nova produção concebida por Bruno Nogueira é um híbrido onde reina o humor — como tema e como veículo narrativo, já que cada um dos seus oito episódios intercala cenas de um tempo distópico com sequências de sketches de tema livre. Estes abordam desde o ritual de pedinchar por uma mesa num restaurante não tendo reserva até concursos televisivos onde é preciso ligar para um número de valor acrescentado para participar, passando por escolhas de indumentária dúbias ou nepobabies com síndrome de impostor.
Desde cedo percebe-se que são estas vinhetas cómicas a razão para Nogueira e companhia — desempenhando alter-egos sob os seus próprios nomes — se encontrarem detidos, já que uma série de gravações tipo-documentário mostram que estes sketches foram produzidos com um intuito ativista. “A série, no fundo, é sobre um grupo de atores e argumentistas que, numa altura em que é decretada uma lei que proíbe o riso, decide tomar mais ou menos de assalto um espaço e, clandestina e semanalmente, projetar sketches de comédia que fizeram para as pessoas poderem rir em liberdade”, afirmou o criador de Ruído na apresentação oficial da série esta quarta-feira, na qual foi exibido o primeiro episódio.
Ao lado dele esteve José Fragoso, diretor da RTP com quem Bruno Nogueira já tinha antes trabalhado, aquando da sua primeira passagem pela estação pública, quando este era diretor de programas. Juntos foram responsáveis por programas como Os Contemporâneos, O Último a Sair e Lado B, “formatos que trazem uma responsabilidade porque o formato anterior ficou de tal maneira na memória dos espectadores que depois há uma exigência grande”, assumiu Fragoso, para quem Ruído “vai fazer barulho na televisão”.
Além dos nomes acima mencionados, a série conta ainda com os préstimos de Gonçalo Waddington, Miguel Guilherme, Romeu Costa e José Raposo, que faz a voz do interrogador irritadiço que vai acompanhando a história. Já os guionistas a que Bruno Nogueira se refere tratam-se de Frederico Pombares — parceiro de escrita em O Último a Sair e, mais recentemente, Tabu —, Luís Araújo e Carlos Coutinho Vilhena, sendo a primeira vez que colaborou com ambos.
Para a realização de Ruído, foi tomada a decisão de fazer dois convites: para os sketches, a responsabilidade ficou a cargo de Ricardo Freitas, parceiro de longa data com o qual Bruno Nogueira já tinha trabalhado em Os Contemporâneos, Som de Cristal ou Tabu e que “tem uma agilidade que é muito importante para a comédia, não perde muito tempo com luz, com muitos detalhes, porque ele consegue rapidamente antecipar isso”. Já as secções do interrogatório e do documentário “pediam outra linguagem”, tendo ficado a cargo de Tiago Guedes (A Herdade, Glória), com quem colaborara para a série Odisseia e cuja lente é “mais cinematográfica, tem um tempo diferente”. A uniformização dos dois estilos distintos foi feita pelo diretor de fotografia André Szankowski.
Da esquerda para a direita: Carlos Coutinho Vilhena, Luís Araújo, Frederico Pombares, José Fragoso, Gabriela Barros, Rita Cabaço, Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington, Miguel Guilherme, Romeu Costa.
“É muito difícil um comediante em Portugal queixar-se de não poder dizer coisas”
Uma das sementes criativas para Ruído, afirmou Bruno Nogueira, surgiu de uma expressão que se habituou a ouvir da boca do seu pai: “as pessoas cansam-se de estar bem“. Partindo desta frase, é fácil extrapolar que a premissa desta série surgiu de uma sensação de alerta face a um tempo onde os autoritarismos têm vindo a crescer e o controlo da linguagem é um campo de batalha. Não só há uma longa linhagem de distopias que exploram a ideia da liberdade coartada, como podemos olhar para obras como “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, onde se singulariza o potencial disruptivo da comédia no seio de um convento onde se quer recato e submissão perante Deus.
No entanto, apesar de conceder que há paralelos entre este tempo e o de Ruído — que acaba por ser uma distopia “não tão impossível de acontecer”, face aos recentes desenvolvimentos —, Bruno Nogueira afirma que a série não tem qualquer objetivo subjacente de fazer comentário político nem tem essa pretensão. “Desde que se começou a escrever até agora, que vai estrear, é uma realidade que infelizmente não está mais distante, parece mais próxima”, assume, referindo porém que “às vezes há projetos que infelizmente ou felizmente se cruzam com a realidade, mas isso depois já não depende tanto do projeto, depende mais da realidade”.
Ao invés, o que interessava ao criador de Ruído e à restante equipa de argumentistas era fazer um exercício de imaginar um cenário onde um comediante não pode fazer rir. “Era um obstáculo a um programa de comédia se neste universo não fosse possível rir. Foi mais por aí que eu achei desafiante a ideia, não tanto com a ideia de que isto pode acontecer, pois cada pessoa fará a leitura que quiser”, afirma, para depois acrescentar: “sendo o riso uma coisa que é muito difícil de controlar e que nos acontece para além da nossa vontade, suprimir essa vontade e esse reflexo num projeto que se queria de comédia era só um exercício de contenção e de uma espécie de bipolaridade que me interessava”.
“Tem a ver com a possibilidade de uma impossibilidade”, aponta, recordando que esse tipo de constrangimento é algo que lhe interessa explorar narrativamente, tal como o fez na série Sara, de 2018. “Aí era uma atriz que não conseguia chorar e era a única coisa que fazia melhor. Interessa-me essa impossibilidade, de repente, que é colocada à frente de uma liberdade”, declara.
Explorando a ideia de um conjunto de humoristas impedidos de trabalhar, seria igualmente válido o salto lógico de ler aqui uma crítica implícita à chamada “cultura de cancelamento”, mas Bruno Nogueira rejeita-o liminarmente. “É muito difícil um comediante em Portugal queixar-se de não poder dizer coisas. Cada vez que ouço isso, dá-me uma espécie de comichão nos dentes, porque não conheço nenhum comediante nos tempos que correm que tenha sido calado ou que tenha sido abafado. Acho que se pode dizer tudo e depois cumpre ao público decidir se gosta, se não gosta”, aponta. Nesse sentido, Nogueira considera que não houve neste projeto “a vontade de acenar com nenhuma bandeira da liberdade”, tratando-se antes de “celebrar, sim, uma liberdade criativa de poder fazer coisas diferentes”.
Uma delas, por exemplo, foi a forma como a equipa de Ruído integrou na premissa da série o riso como elemento subversivo. O espaço onde decorreu o evento desta quarta-feira foi o The House of Hope and Dreams, em Lisboa, o mesmo utilizado nesta produção como armazém secreto onde são exibidas as “rábulas” a um grupo de pessoas que vemos a rir entre sketches no decurso do episódio.
“Não são figurantes, são pessoas que vieram assistir de livre e espontânea vontade, foram convidadas”, revela. Perante esta novidade, e dada a progressiva digitalização das nossas vidas e uma certa forma de viver cada vez mais mediada por ecrãs, o Observador questionou Bruno Nogueira se a premissa de Ruído — especialmente tendo em conta essa utilização contínua de planos das pessoas a rirem-se entre sketches — também passava pela reflexão do riso como algo partilhado, tendo o criador da série assentido positivamente.
“O riso como experiência comunitária é muito mais interessante. Não é por acaso que quando uma pessoa está sozinha é muito difícil rir à gargalhada e quando está em público é uma espécie de energia coletiva que galvaniza aquela experiência. Nós estávamos a filmar enquanto as pessoas estavam a assistir e foi interessante sentir essa experiência meio de reality show, de estarem num sítio que poucos sabiam que estava a acontecer e de estarem a assistir a uma coisa que ainda mais ninguém tinha assistido e nós a vermos pela primeira vez a sua reação”.
Sentado ao seu lado, Carlos Coutinho Vilhena acrescentou que foi “uma espécie de teste, também”. “Ganhámos reações reais de pessoas reais que estavam a assistir aos sketches e nós próprios percebemos logo quais é que tinham mais impacto nelas. Acho que tem mais força ver pessoas a sorrir de forma genuína do que ter figurantes a fingir que estão a rir”, adiantou. Foi, portanto, também assim que acabaram por filtrar alguns dos sketches apresentados na montagem final, ou sujeitaram-nos a alterações. “Faz-se isso em stand-up, por exemplo, vai-se ajustando em função do público. Ou seja, o texto é uma espécie de coisa coletiva que acontece em função das pessoas, em comédia é muito comum”, sublinha Bruno Nogueira.
O elenco de “Ruído” a assistir ao primeiro episódio da série.
Ruído, uma série de “argumentistas que não fazem birra”
A escrita e escolha dos sketches, de resto, também foi fruto de um período de trabalho de oito meses — algo longo para a realidade portuguesa, mas que, segundo Frederico Pombares, tem sido essencial para Bruno Nogueira deixar a sua marca na cultura nacional. “Ele faz muita questão de ter tempo para ter as coisas, porque vai ter um resultado muito melhor, principalmente numa altura em que em televisão é tudo muito rápido, toda a gente tem um mês para fazer tudo ou 15 dias. Ele consegue comprar tempo e isso faz com que as coisas tenham muito melhor resultado”, garante.
Não obstante esse “luxo” — palavra que os próprios argumentistas utilizaram — houve sessões intensas de trabalho de 8 ou 9 horas de seguida à volta de sketches, que só não se tornaram insuportáveis porque “o Bruno tem uma maneira muito democrática de trabalhar, em que ganha a melhor ideia, independentemente de onde vem”, diz Luís Araújo, sendo depois secundado por Carlos Coutinho Vilhena. “Ele é bom a gerir e a escolher egos. Ou seja, somos todos argumentistas que não fazem birra”, afirma.
Para Bruno Nogueira, esta série foi também a oportunidade de trabalhar não só com novos parceiros de criação, como para estabelecer contacto com uma leva mais nova de comediantes, como é o caso de Coutinho Vilhena, de forma a “contrastar com ideias talvez pré-concebidas” da sua geração. O que o criador de Ruído encontrou foi alguém que, não obstante as diferenças de estilo e de experiência, tinha uma postura parecida com a sua.
“O que eu gosto no trabalho do Carlos e na maneira de pensar dele é também esta coisa de tentar experimentar coisas novas, mesmo correndo o risco daquilo não dar em nada consensual. Eu acho que a consensualidade deve ser ótima, mas acho aborrecida, no sentido em que uma pessoa para ser consensual tem de fazer cedências que às vezes podem comprometer a criatividade. E eu acho que o processo criativo é uma coisa muito egoísta”, afirma.
Dessa forma, Ruído é, para si, aos 43 anos, uma “espécie de diário de bordo”, “Nesta fase da minha vida isto representa aquilo que para mim, em termos de comédia, é aquilo que eu gostaria de ver enquanto espetador”, conclui.