Depois de Francisco, o primeiro Papa jesuíta, Leão XIV estreia-se como o primeiro Papa agostiniano. O cardeal Robert Prevost pertence à Ordem de Santo Agostinho, criada em 1244. Dividida em frades e padres, os agostinianos seguem os ensinamentos do Santo com o mesmo nome e destacam-se pelo sentimento de comunidade e pela dedicação ao estudo e ao trabalho.
A Ordem de Santo Agostinho foi criada em 1244 com a Bula “Incumbit nobis”, do Papa Inocêncio IV, que reuniu diferentes grupos de eremitas e monges espalhados por Itália e lhes pediu que seguissem uma única regra, a de Santo Agostinho. Esta previa que adotassem um estilo de vida virado para a pobreza, a obediência, o desapego do mundo, a repartição do trabalho e a caridade.
Em 1256, o Papa Alexandre IV deu um novo impulso à ordem, que entrou para o grupo das ordens mendicantes, que vivem de doações e se dedicam à pregação, evangelização e serviço aos pobres. Estes ideais perduram até hoje: a Juventude Agostiniana Portuguesa (JAP) destaca a “vida humilde” como um dos objetivos da Ordem.
Mas o pobreza material não se traduz em pobreza espiritual. Apesar de a Ordem contar com alguns grupos de reclusão, o espírito de comunidade e a amizade são outros dos valores chave dos agostinianos. A importância dada “à busca de Deus em grupo” liga-se a outro grande valor da Ordem: a formação e o estudo.
A valorização do estudo vai ao encontro da vida de Agostinho de Hipona, que deu nome à ordem. Santo Agostinho foi um filósofo que viveu na passagem do século IV para o século V e que se assumiu como um dos principais teóricos da Igreja Católica. Para além de física, matemática, retórica e poesia, também estudou música. Este último detalhe ficou consagrado numa frase famosa que lhe é atribuída: “cantar é rezar duas vezes“.
Interiorizando a vida de Agostinho, os agostinianos focam a sua missão no “estudo e na vida interior”, na vida apostólica que dê resposta às necessidades reais da Igreja e na dedicação ao trabalho ao serviço da comunidade, segundo o Anuário Católico.
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Os agostinianos em Portugal
Para além do seu primeiro Papa no século XXI, os agostinianos têm outra coisa em comum com os jesuítas: ambos foram expulsos de Portugal. Depois da ordem de extinção das ordens religiosas, assinada em 1834, os agostinianos abandonaram o país. Só regressariam a 20 de janeiro de 1974, com a posse da Paróquia de São Vicente, na cidade da Guarda.
Assumiram depois o serviço pastoral de três paróquias em Arruda dos Vinhos e outras três em Sobral de Monte Agraço, no Patriarcado de Lisboa. Hoje, a presença agostiniana é visível em duas paróquias da capital: Santa Iria de Azóia, desde 1986, e São Domingos de Rana, desde 2004, onde a atividade da JAP também está mais concentrada.
É nesta segunda paróquia que o padre João Miguel Russo Silva, um dos “seis irmãos” em Portugal da Ordem, é vigário paroquial. O padre agostiniano explicou à Lusa que há indícios de que a Ordem tenha chegado a Portugal ainda no século XIII. A primeira igreja terá sido na que é hoje a Capela de Nossa Senhora do Monte, em Lisboa, explicou João Miguel Russo Silva, recordando que na capital os frades eram chamados de “gracianos”, pela sua devoção a Nossa Senhora da Graça. E esta quinta-feira, notou, “é o dia de Nossa Senhora da Graça”.
Olhando novamente para o presente, João Miguel Russo Silva considera o novo Papa, Leão XIV, um digno sucessor de Francisco. “Das vezes que privei com ele creio que é um homem próximo, com uma sensibilidade social muito forte”, com muita experiência de governação pastoral, “um homem do estudo, da formação”, disse à Lusa.
O padre agostiniano recordou que Leão XIV foi muitos anos o prior-geral da Ordem — o líder máximo dos agostinianos — que fez parte do seu percurso em Roma, que esteve no Peru e regressou depois a Roma, tendo sido o Papa Francisco que o nomeou cardeal.
Notícia atualizada no dia 12 de maio com a informação correta sobre a expulsão da ordem de Santo Agostinho de Portugal