Estreia na próxima terça-feira, dia 20 de maio, o primeiro podcast de ficção do Observador, uma co-produção com a Coyote Vadio que tem realização de Manuel Pureza e conta com as vozes de atores como Paulo Calatré, Sara Matos, Helena Caldeira, Madalena Almeida, Cristóvão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, Rafael Medrado, José Raposo, Carla Maciel e Tiago Teotónio Pereira — o Zé.
“O Zé faz 25” é como se chama esta série que, à semelhança dos Podcast Plus do Observador, tem um episódio novo a cada terça-feira, mas vai estar já totalmente disponível, em exclusivo, para os assinantes standard e premium do jornal. Já pode ouvir o trailer aqui:
Trailer “O Zé faz 25”. Novo podcast de ficção estreia a 20 de maio
Na verdade, explica Manuel Pureza, que também assina o guião, em co-autoria com David Neto, esta série de ficção para ouvir em oito episódios só existe graças aos Podcast Plus, série de histórias reais investigadas pelos jornalistas do Observador que, desde 2023, conta com dez títulos publicados, que já foram ouvidos mais de 10 milhões de vezes. E existe também graças ao ator José Mata, que não faz parte do elenco de “O Zé faz 25”, mas foi o narrador de “A Grande Provocadora”, o Podcast Plus sobre a história de vida da jornalista Vera Lagoa.
Tudo porque, um dia, durante as semanas de gravações de “A Grande Provocadora” nos estúdios do Observador, José Mata se cruzou com o realizador, autor de um dos maiores sucessos recentes da televisão portuguesa, a série “Pôr do Sol”, e, por acaso, partilhou com ele o que andava a fazer. “Os Podcast Plus do Observador foram uma série de programas que para mim, enquanto ouvinte, me entusiasmaram. O formato era inovador, a qualidade… Houve uma altura em que o José Mata partilhou comigo que estava a fazer a coisa. E eu tive o impulso de lhe perguntar quem é que era o responsável ou quem é que era a equipa”, recorda Pureza.
No final, um telefonema que, garante, deveria ter servido apenas para elogiar o projeto, transformou-se numa proposta de colaboração: e se Observador e Coyote Vadio, a produtora do realizador, se juntassem para fazer um podcast de ficção?
A ideia até já existia: há anos que Pureza tinha uma história na cabeça, sobre uma festa de anos que corria (muito) mal e acabava com o aniversariante, um tipo muito pouco recomendável, que praticamente todos os outros personagens tinham motivos para querer ver desaparecer, a ser raptado. Até já tinha dois episódios escritos, mas para televisão. Porque não readaptar a forma, reescrever a história para ser ouvida, em vez de vista, e inovar numa área que, nos Estados Unidos e no Brasil, por exemplo, já está em franca expansão?
O resultado é “O Zé faz 25”, um “whodunnit” clássico, que começa com um mistério — o que aconteceu, afinal, ao Zé? — e convida os ouvintes a construir as suas próprias teses e teorias, à medida que os personagens (e suspeitos em potência) vão desfilando pela sala de interrogatórios da Polícia Judiciária, ao longo de oito episódios de pouco mais de 20 minutos de duração.
Na televisão é a regra é “show, don’t tell”, em podcast é preciso “ouvir e contar”
Tanto para os atores, que só puderam contar com a voz na hora de representar, como para os guionistas, o processo foi um desafio. “Nós temos uma regra, enquanto criadores para a televisão, que é ‘show, don’t tell’. As pessoas têm de ver um herói em ação, não têm de ouvir e ver um herói a dizer o que vai fazer. Neste caso, não é show, mas é ‘listen and tell’. Portanto, essa construção foi um desafio espetacular”, explica Manuel Pureza, que, pela primeira vez, realizou uma produção de costas para os atores. “Se estivesse a olhar para eles não fazia sentido nenhum. Estão com o microfone à frente a dizer ‘Ai, meu Deus, estou tão triste!’”
A maior dificuldade, admite, foi encontrar o equilíbrio entre o texto que é dito pelos atores; a sonoplastia dos episódios (que ficou a cargo de Artur Costa, do Observador, que também assina a música do genérico); e os recursos sonoros usados para tornar a história mais apelativa. “Comunicações de polícia, telefonemas, mensagens de áudio ou até desabafos à moda antiga para um gravador. Tudo isso foi uma espécie de elenco que nós fizemos de situações auditivas, ou sonoras, que seriam enriquecedoras para a história”, explica o guionista e realizador. “Tu estás a escrever uma história e estás a ser ligeiramente descritivo, ou aparentemente descritivo, mas depois não estás a ser nada descritivo. Estás a deixar espaço que as pessoas, em casa, ou onde quer que estejam a ouvir este podcast, metam os fones e imaginem por si próprios como é aquela redação, como é o telemóvel que está a ser escutado, como é a cena de pancadaria, da qual só se ouvem murros e respirações.”
“Acho que a partir daqui se pode começar a pensar noutras séries neste formato”
Apesar de este ser um desafio novo — ou por isso mesmo —, não foi difícil conseguir que os atores aceitassem participar neste podcast de ficção. “Acho que foi a primeira vez para toda a gente que foi convidada. É, de facto, um projeto inovador e é uma ideia maravilhosa”, diz José Raposo, que em “O Zé faz 25” dá voz a Vicente Valbom, o engenheiro com aspirações políticas que é pai do personagem principal. “É um desafio fantástico que eu acho que vai resultar em cheio, não só pelo texto — obviamente —, pela história, pelos atores e pela direção, mas também pela novidade. Aliás, acho que a partir daqui se pode começar a pensar noutras séries neste formato.”
Já Tiago Teotónio Pereira, que interpreta o personagem que dá nome à série, nem sequer esperou para ser convidado para participar. Há anos que o amigo Manuel Pureza lhe falava no “Zé”, e há anos que o ator lhe dizia que o “Zé” tinha de ser ele. “Já conhecia este projeto, esta história do Manuel, há muito tempo. Mas era ‘O Zé faz 25’ e eu estava a ver os anos a passar e a pensar, ‘Pá, daqui a nada já não posso fazer de 25!’ Às tantas já era ‘O Zé faz 30’ — 30 ainda dá, sem barba. Então agora, em podcast, disse logo: ‘Sou o Zé!’”, conta o ator, de 35 anos. “Era uma história que eu queria fazer há muito tempo. Apesar de eu estar a história toda desaparecido!”
Questionado sobre quem é, afinal, o Zé que dá nome à série, Tiago Teotónio Pereira faz questão de começar por garantir que não se identifica nem um pouco com ele. “O Zé é um cromo… É um tipo meio execrável. Tem a mania, é o típico adolescente com o rei na barriga, das tunas e das praxes.”
Com cuidado para não dar spoilers, eis as restantes personagens desta história: Madalena Almeida é Guigas, a irmã do Zé; Sara Matos é Inês, a namorada “oficial” dele; e Helena Caldeira é a caloira (ou uma das?) com quem ele também anda envolvido. Rafael Medrado é o melhor amigo do protagonista, que é também o “Dux Veteranorum” da universidade, onde ainda estuda Delgado, o namorado de Guigas, que é interpretado por Vicente Wallenstein. Já Cristóvão Campos é um amigo de infância de Zé, com quem ele se mete em negócios pouco recomendáveis. O elenco fica completo com Paulo Calatré, o inspetor da Polícia Judiciária responsável por investigar o desaparecimento; Carla Maciel, a depressiva mulher dele; e Beatriz Godinho, a jornalista da “revista Sete” que anda atrás da história do rapto e dos alegados negócios ilícitos do filho do engenheiro Valbom.
“Esta é uma série para ouvir, e eu acho que isso é novidade suficiente para pelo menos arriscar, ouvir o primeiro episódio e deixar-se levar”, resume Manuel Pureza. “Diria que é muito mais fixe ouvir esta série enquanto não se está a conduzir, porque, a certa altura, dá vontade de fechar os olhos e estar imerso num universo que foi criado pela equipa toda, em especial pelo Artur, que fez a pós-produção de áudio e que, no fundo, coseu todas estas ideias. O que nós gravámos foi 15% daquilo que se vai ouvir no total. O ambiente sonoro, as noites, a rua, os telefonemas, a festa, a esquadra… Convido as pessoas a, pelo menos, deixarem-se seduzir por esta ideia de apenas, exclusivamente, ouvir uma série.”