As novidades geraram agitação igual ou superior àquela que o próprio anúncio do palmarés costuma surtir. Se em Cannes, a passadeira vermelha ombreia sempre com os filmes apresentados, à 78.ª edição as novas regras de vestuário atualizam o interesse no desfile de looks. Por “razões de decência”, a organização apelou à contenção na exibição de nudez e desincentivou os modelos demasiado volumosos, capazes de desestabilizar as andanças e comprometer movimentos. Num recado dirigido sobretudo às figuras femininas, iriam as atrizes e demais convidadas seguir à risca as indicações ou pisar o risco na riviera francesa? Bom, até ver, num evento que arrancou a 13 de maio e se prolonga até dia 24, vamos contando com um pouco de tudo, no essencial sem grande picos de dramatismo ou necessidade de retirada estratégica, antes uma toada muito parecida às das anteriores edições (mas é verdade que, pelo menos até agora, ainda não avistámos nada do género).

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Bella Hadid

Nas suas stories antes das primeiras aparições, um crop top de Bella Hadid antevia um cenário de provocação e a manequim e influencer, que entrou na galeria do festival pela eleição em 2024 de um naked dress Sain Laurent que deixava pouco ou nada à imaginação, recusou-se a ficar num registo insonso (mas bem mais elegante que anteriores). Confiando na mesma etiqueta, agora em preto, não prescindiu de algumas aberturas mais reveladoras, fiel ao seu estilo e imune a prescrições. No capítulo das ameaças maxi, a atriz chinesa Wan QianHui foi das mais madrugadoras a quebrar a nova cartilha, caprichando na quantidade de tule, com um vestido couture de Wang Feng.

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Wan QianHui

Conhecida pelo atrevimento, nem o decote mais pronunciado assustaria Heidi Klum, que claramente descartou o memorando. Já Irina Shayk conseguiu circular entre extremos, surgindo tanto num glamoroso Armani Privé couture como num hiper composto preto total, saído do arquivo Saint Laurent de finais de oitenta. Ela que na edição de 2023 arriscou à séria com uma criação de duas peças Mowalola.

Em conferência de imprensa, Halle Berry admitiu que as restrições impostas em cima da hora a obrigaram a refazer os planos, deixando para outras núpcias o “fantástico vestido Gaurav Gupta” que inicialmente previra. Não sabemos que maravilha seria essa mas até prova em contrário, a atriz e elemento do júri lidera no campeonato que combina originalidade e espetáculo com elegância, sem dar dores de cabeça aos revisores do dress code. Para um dos momentos na red carpet, optou por uma versão suspiro entre o preto e o cor de rosa saída da coleção de primavera de Celia Kritharioti. Noutra ocasião, a gola subida e as riscas estiveram em destaque num look Jacquemus, cuja parte traseira gera tanto ou mais entusiasmo. Fora da passadeira e dos holofotes, o guarda-roupa de viagem incluiu escolhas seguras como Chanel e Alexandre Vauthier.

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Halle Berry

O risco costuma ser sempre menor para os cavalheiros. Talvez por isso, Andie McDowell preferiu o masculino smoking, uma missão também ela altamente possível para Tom Cruise, que apresentou a segunda e derradeira parte do franchisado de ação. Leonardo DiCaprio seguiu a receita, ainda que um pouco mais esquivo na passadeira.

Se nomes como Kendall Jenner (2018) ou Leila Depina (2023) têm elevado a fasquia em matéria de transparências nos anos mais recentes, a provocação não é um exclusivo da era moderna.  A velha guarda de Cannes dificilmente esquecerá a passagem de Lonna Staller, aka Cicciolina, em 1988, com um look de fazer corar as Kardashians ao lado do futuro marido Jeff Koons; ou a espanhola Victoria Abril, quando em 1997 surgiu com um blazer cuja parte de trás deixava quase tudo a descoberto (e ainda um outro look com um top completamente transparente); ou mesmo a estrela de “Like a Virgin”, que em 1991 desfilou os icónicos cones Jean Paul Gaultier por ocasião do lançamento de “Na Cama com Madonna”.