Ferramentas antigas do avô convivem nas montras com as novidades da marca, como a coleção The Knot, originais nós distribuídos por anéis ou pulseiras que assinalaram o Dia da Mãe. A história que começa em Gondomar, berço nacional da ourivesaria, vai já na terceira geração e o capítulo mais recente é uma nova loja no Chiado. Quase dez anos depois da abertura do primeiro espaço, no Porto, a Mesh desce a Lisboa fiel à fórmula que conquistou o mercado escandinavo: joias minimalistas que vivem de um material nobre como a prata, 100% reciclada, com valores que permitem ir alimentando a coleção com alguma regularidade. “Faz parte muito do nosso objetivo enquanto marca ter peças particulares mas acessíveis. O meu trabalho sempre foi democratizar esta arte. Todo o nosso trabalho nas peças é sempre a contar com isso, situar-me em determinado preço.”, frisa Tiago Barbosa, que com o irmão João lidera a marca de joalharia contemporânea, que encerra em si uma nova visão de consumo. “Eu passava pelas ruas do Porto, olhava para as ourivesarias e pensava mas será que algum rapaz com 17 anos como eu tinha na altura vai entrar numa ourivesaria para comprar uma peça? Uma pessoa passa e se calhar fica assustado só de ver a montra. Quando não é é assim. Às vezes, uma joia de prata é mais barata do que uma joia de aço.”
Tiago está entregue ao design e toda a parte de desenvolvimento visual do projeto, incluindo Instagram. João, dedicado ao negócio puro e duro, operacionalizando uma aventura que se emancipou das primeiras sementes familiares, que tinham algumas dúvidas sobre as criações que arriscavam mais. “Eu trabalhava com o meu pai a costumo dizer que a Mesh surgiu para tentar ganhar uns trocos para o fim de semana. Tinha ali umas joias e pensei experimentar o mercado. Nós fabricamos muitas joias para mass market, para as ourivesarias, eu desenhava outras linhas e ele dizia-me que o mercado não queria aquilo. No entanto, eu ia-as vendendo às minhas amigas, às mães dos meus amigos. Afinal, alguém comprava!”, descreve Tiago, de passagem pela Calçada do Sacramento, que assiste a este encontro entre tradição artesanal e uma abordagem um pouco mais disruptiva.
Da fábrica do clã em Gondomar já saíam, e continuam a sair, milhares de peças, a chamada marca branca das joias, que o consumidor final verá pelo retalho fora, em Portugal ou em lojas independentes de culto. No total a Mesh está hoje presente em mais de mais de 300 pontos de venda nacional e internacional, em mercados como Espanha, Itália, Suécia, Dinamarca e Reino Unido. “Os grossistas vinham até ao meu pai, que começou a trabalhar mais tendência, e tinha um showroom. Compravam e distribuíam nas ourivesarias. Também trabalhamos com marcas que querem desenvolver as suas próprias coleções. E nessa área, que exploramos já há cerca de 6 anos, 7, aparecem grupos, como por exemplo, a francesa Sézane, ou o norte-americano TJX. Começámos a trabalhar com o europeu, depois com o americano e o canadiano.” Nota ainda para um outro tipo de cliente, tão inesperado como lucrativo. “Os canais de vendas de joias são um muito bom cliente nosso. É algo que nós não temos aqui muito, mas lá fora funciona.”
Os irmãos Tiago e João Barbosa, hoje ao leme da Mesh © Joana Linda
Quando o estudo de mercado para o lançamento de uma linha própria deu os seus frutos, Mesh foi o nome escolhido, já que fala pela malha da ourivesaria conhecida pelos elos unidos, é curto, direto, repetível da mesma forma em diferentes línguas, e aponta para essa ligação entre o legado familiar e a energia dos novos passos, elabora Tiago, que sublinha a vantagem no setor de terem fabrico próprio, o que que permite estar constantemente a sonhar e concretizar. “Fui um bocado educado nisso, mesmo quando não tinha a Mesh. Uma pessoa tem que estar sempre a criar. Enquanto marca, de três em três meses lançamos a coleção, também podemos fazer uma linha de cápsula, mas em termos de fábrica temos que estar sempre a produzir.”, descreve o responsável, cujo estilo imprimido vai conhecido variações. “Gosto muito de trabalhar nesta linha étnica, rural, minimalista, mas também gosto de outro tipo de joias. Não têm que ser todas cheias de bling-bling, mas com um apontamentozinho elegante. Ou seja, temos bastante oferta para diferentes gostos.”
© Joana Linda
Com dois homens como rosto visível do projeto, na fábrica as mãos a cargo desta tarefa são essencialmente femininas. De resto, Tiago admite que desenhar acessórios para o público masculino é uma renda bem mais difícil do que acudir aos gostos e desejos femininos — ainda que algumas das peças, sobretudo da coleção mais recente incluam várias propostas bastante transversais. “Já tivemos uma linha cápsula de homem e temos a ideia de voltar a fazer, mas é engraçado que para mim é mais difícil criar para o homem, mesmo quando quero uma pulseira para mim. Quando vejo uma mulher, a primeira coisa que gosto de olhar é para os brincos, o colar, as pulseiras. É mais fácil.”, admite.
© Joana Linda
A dupla abriu a primeira loja nos Aliados, em 2016, mais tarde um segundo ponto, no largo de São Domingos, também no Porto. A comunidade Mesh foi crescendo, o online gera hoje um tráfego que dir-se-ia que dispensa mais apostas físicas, mas o facto é que chegar a Lisboa em nome próprio já andava na cabeça há algum tempo — apesar de já venderem no El Corte Ingles. “Queríamos implementar a marca a nível nacional”. Estiveram dois anos em busca da loja ideal e encontraram o empurrão que faltava quando passaram por um mercado Stylista. No Chiado, encontraram “um sítio fantástico” para transpor a identidade da marca, cujo know how é a prata mas que prevê diversificar em breve. “Muitos dos clientes e distribuidores pedem uma linha de ouro. O próximo passo será fazermos uma, não uma coleção gigante, mas assim uma cápsula”.
© Joana Linda
Estar atento ao mercado e antecipar oportunidades não tem corrido mal ao longo das últimas décadas. “O meu avô começou a trabalhar com nove, 10 anos, numa empresa que fazia ferramentas para ourives, porque na altura não havia máquinas de prototipagem, de laser, e era muito bom nisso. Começou a ver que os ourives ganhavam mais dinheiro do que ele, então começou ele a produzir com as máquinas e a criar a indústria. Aliás, chegou a ter uma indústria que trabalhava 24 horas. Já não era ele que fabricava as máquinas, começou a importar máquinas da Alemanha, foi um visionário.” Qualquer um dos sete filhos seguiu o trilho da ourivesaria, emancipados da empresa-mãe mas todos eles fiéis ao setor, mais ligados à filigrana ou às importações. “O meu pai, o segmento que o meu pai se aplicou foi um segmento um bocadinho mais de moda, tendência, e foi aí que eu comecei a trabalhar mais a sério.”
Calçada do Sacramento, 29, Lisboa. Todos os dias, entre as 11h e as 19h.