Em maio a red carpet mais famosa do mundo da moda desenrola-se no Metropolitan Museum of Arts, em Nova Iorque, para que as principais celebridades internacionais exibam criações espetaculosas de designers de renome ou altamente promissores. E para pisar a passadeira vermelha da Met Gala deste ano, o cantor colombiano Maluma levou sapatos portugueses, mocassins de verniz da marca Carlos Santos. A aposta no calçado made in Portugal foi do criador de moda Willy Chavarria e repetiu-se em junho na semana da moda masculina de Paris. “O Willy Chavarria queria especificamente os mesmos sapatos que levou à gala com o Maluma, mas em verniz de cor branca”, explica ao Observador Paulo Gonçalves, o porta-voz da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS). “Depois acabou por não ser assim, porque quando viu o potencial das nossas fábricas, quis em várias cores. Fizemos em preto, bordeaux, branco e nude para o desfile em Paris”.
▲ Willy Chavarria e Maluma com sapatos Carlos Santos na Met Gala de 2025
A presença em eventos de moda internacionais é uma das estratégias para alavancar o setor, apesar dos recentes fechos de fábricas em Oliveira dos Azeméis e Guimarães. “Nós lamentamos naturalmente as empresas que tiveram que encerrar por dificuldades, mas também achamos que não merece um alarme social generalizado porque, de facto, o setor é constituído por 1.400 empresas que empregam mais de 40 mil trabalhadores e essas, felizmente, estão relativamente estáveis”, assinala o porta-voz da APICCAPS. “Os nossos mercados internacionais, aqueles que são mais importantes para nós, nomeadamente os Estados Unidos, a Alemanha e a França, continuam com um comportamento económico muito modesto e com grandes dificuldades. Se os nossos clientes estiverem a passar por um período negativo, naturalmente que afeta as nossas empresas. Aquilo que eu posso dizer é que, no primeiro semestre, o setor do calçado cresceu e criou postos de trabalho. Isso não evita, naturalmente, que existam algumas empresas que estejam a passar por um período difícil”, considera Paulo Gonçalves, que destaca que a associação está a trabalhar para manter a tendência de crescimento: “Estamos a concluir o maior ciclo de investimento da nossa história. Nós acreditamos no futuro do setor.”
Em 2024, Portugal produziu 80 milhões de pares de sapatos, dos quais 90% foram exportados, o que movimentou 1.724 milhões de euros. O objetivo é, na próxima década, tornar-se uma referência internacional no desenvolvimento de soluções sustentáveis, e está previsto um investimento de 600 milhões de euros no setor até 2030, focado em sustentabilidade, automação e digitalização. É para intensificar a estratégia internacional que mais de 80 empresas portuguesas participam em vários eventos em Milão ao longo deste mês de setembro, como a 100ª edição da MICAM, a maior feira internacional de calçados, que arranca este domingo, 7 de setembro.“Num contexto internacional marcado pela grande incerteza, continuamos fortemente empenhados em regressar paulatinamente aos mercados internacionais”, destaca Luís Onofre, presidente da APICCAPS.
▲ O desfile de Willy Chavarria em junho em Paris
Prémio LVMH, designer da Lady Gaga e desfiles em Londres, Paris e Nova Iorque
Chavarria é um dos nomes internacionais que já confia à indústria portuguesa uma componente das suas apresentações em semanas da moda, parte de uma estratégia para fortalecer a produção nacional. “O Willy está na linha da frente para ir para uma das grandes casas de luxo a nível internacional, ou seja, aquilo que queremos é que quando chegarem lá olhem para Portugal e pensem que é uma alternativa”, diz Paulo. “Em Portugal, na área do calçado em particular, existe o saber-fazer, existe a tradição, existe a tecnologia. E, por esse motivo, algumas das mais famosas marcas internacionais do setor fazem os seus sapatos em Portugal. Da mesma forma, nós temos vindo a fazer uma aposta cada vez maior naquilo que tudo tem a ver com as marcas próprias. Portanto faz todo o sentido estarmos associados a designers, sejam eles portugueses, sejam internacionais. Trabalhamos de forma muito regular com designers portugueses, seja no Portugal Fashion ou na ModaLisboa, e no passado recente começámos a fazer o mesmo também com designers internacionais”.
Foi o caso da parceria com Patrick McDowell em 2023, para a semana da moda de Londres. O designer, que está na lista da Forbes 30 under 30 na categoria arte e cultura e venceu este ano o prémio Elizabeth II de design britânico, levou sapatos da Reve de Flo, uma empresa de Oliveira de Azeméis, para a passarelle. “Procuro sempre o melhor artesanato e fiquei muito feliz por explorar o melhor do mercado português através do desenvolvimento de modelos de calçado que refletiam o tema da dança desta estação”, disse o criador de moda na altura. McDowell já vestiu celebridades como Lady Gaga e Keira Knightley e recebeu um elogio público de Anna Wintour pelos seus designs que juntam luxo e sustentabilidade.
A seguir a designer britânica Bianca Saunders (que vestiu Nick Jonas na última Met Gala) juntou-se à empresa portuguesa Valuni para lançar uma coleção de calçado, que foi apresentada na semana da moda masculina de Paris em junho de 2024. “O compromisso da Valuni com a qualidade e o saber-fazer acumulado alinha-se perfeitamente com os valores da marca. A ampla experiência da Valuni tem sido fundamental para dar vida à nossa visão. São um parceiro de referência para a produção de calçado”, disse Saunders na altura. Uma união que Paulo Gonçalves, da APICCAPS, considera uma “felicidade do destino”. “Quando começámos a trabalhar com a Bianca Saunders estávamos longe de saber que ia ser eleita a designer do ano na Inglaterra, que ia ter muito sucesso na Met Gala ou ia passar para a semana da moda de Paris.”
Entretanto, até à passarelle o trabalho é longo. “Nós temos agências de comunicação em vários países, com showroom em Nova Iorque, em Los Angeles, em Paris, em Madrid, em Londres. E, desse ponto de vista, através das nossas agências, estamos a fazer um trabalho de conectarmos as nossas marcas com alguns desses designers internacionais”, explica o porta-voz da APICCAPS. Para ganhar o mercado dos EUA, a abordagem foi “fora da caixa”, confessa Paulo Gonçalves, que explica a escolha de um designer de joias. “O Presley Oldham tinha recebido o prémio de jovem designer do ano, e beneficiou durante três anos um programa de mentoria da própria Vogue Americana. Todos os meses tinha reuniões com um grupo de consultores, um dos consultores chamava-se Anna Wintour”.
Como um designer de joias, Oldham normalmente não teria lugar na semana da moda de Nova Iorque, mas teve a chance de apresentar uma coleção em setembro de 2024 por ser finalista do CFDA/Vogue Fashion Fund. Desfilou as suas criações associadas a peças de roupas personalizadas e sapatos portugueses. O match foi com a designer Fátima Oliveira, da Mariano Shoes. “Associar as joias aos sapatos não era uma coisa propriamente muito fácil de fazer, mas como nós temos o conhecimento e a tradição conseguimos fazê-lo.”
Em fevereiro de 2025 foi a vez da Mariano Shoes regressar a Nova Iorque no desfile de Patricio Campillo, designer de origem mexicana que foi semifinalista do prémio LVMH de 2024 e que diz querer criar uma ‘Loewe mexicana’. Já a Calçado Penha, de Guimarães, também esteve na New York Fashion Week no desfile de Daniella Kallmeyer, que em 2024 fez uma parceria com a Barbie para uma coleção personalizada a celebrar o orgulho LGBTQIA+ (a designer assume-se queer). Em setembro juntam-se à Campillo e à Kallmeyer as marcas Libertine, assinada por Johnson Hartig, de Los Angeles; e Teophilio, do designer de Nova Iorque Edvin Thompson. “Vamos chegar ao final do ano com entre 10 a 12 desfiles com calçado português no exterior“, confirma Paulo Gonçalves.
▲ O desfile do designer Patricio Campillo com a Mariano Shoes
Sapatos são produzidos exclusivamente para os desfiles
De acordo com Paulo Gonçalves, a aproximação de marcas e designers internacionais acontece com o objetivo de dar a conhecer a qualidade da indústria portuguesa. “Quando querem vir trabalhar connosco, um dos primeiros convites que eu faço é para vir para Portugal e conhecer as nossas fábricas. Quase todas as vezes as decisões são tomadas cá. Nós fazemos uma seleção de três ou quatro fábricas, os designers vão visitar e, em função disso, encontram aquilo que é, do ponto de vista deles, a solução mais adequada”, explica o porta-voz da APICCAPS, que tem cerca de 500 empresas associadas. “Procuramos fazer um match adequado entre os designers e as empresas em função daquilo que nos propõem e a receptividade das empresas.”
As propostas são analisadas caso a caso, mas até agora as parcerias internacionais funcionaram com calçados feitos exclusivamente para os desfiles. “Os designers, nomeadamente de roupa, muitas das vezes podem ter algumas ideias do caminho que querem percorrer para fazer um sapato. Mas depois, tecnicamente, encontram muitas dificuldades. E temos empresas com 100 anos de história, de quarta geração. Então os designers vão percebendo a capacidade técnica de juntar as suas inspirações e ideias ao conhecimento de muitos anos de experiência.” Contudo, o objetivo principal ainda é criar sapatos que possam vir a ser comercializados em nome das marcas internacionais. “Já tivemos desfiles de designers norte-americanos que os sapatos eram de uma empresa portuguesa que eles queriam aqueles sapatos apenas para aquele efeito e nós fizemos. Mas não é isso que nós gostaríamos que acontecesse. É um link total”.
Além de levar o calçado português para os grandes eventos internacionais e dar a conhecer a indústria nacional, a estratégia também passa por selecionar designers em ascensão. “Alguns destes designers acreditamos que são tão interessantes e promissores, que podem, mais cedo ou mais tarde, ir para as grandes casas internacionais”, diz Paulo Gonçalves, citando como exemplo o novo diretor criativo da Dior, Jonathan Anderson, que já produzia peças em Portugal para a sua marca homónima antes de assumir o cargo na maison francesa. “Trabalha há muitos anos com Portugal porque era um designer novo e nós tivemos empresas portuguesas, neste caso até de artigos de pele, que acreditaram nele. Suportaram financeiramente o projeto dele e isto é uma ligação. Isto é uma coisa que fica para a vida.”
Paralelamente aos desfiles, a associação tem parcerias com faculdades de moda internacionais, como a recente com a London College of Fashion. “Fizemos um concurso de design que se chama Portuguese Shoes, envolvemos a escola toda. O vencedor foi convidado a vir a Portugal, desenvolveu a sua primeira coleção, que vai ser apresentada na Semana da Moda de Londres em setembro. Até final do ano, vamos fazer o mesmo em Nova Iorque com a FIT (o Fashion Institute of Technology).” Presenças em semanas da moda internacionais que a APICCAPS espera trazer visibilidade para o setor. “Mais do que o nome da marca, a ABC, a designação é sempre de calçados portugueses. E para nós faz sentido que assim seja”.
Pedro Ferreira
Produção para o mercado de luxo internacional
Portugal exporta todos os anos cerca de 70 milhões de pares de sapatos, o equivalente a 1.900 milhões de euros, de acordo com os dados da APICCAPS. Alemanha, França, Países Baixos e Espanha são os principais mercados de um total de 170 países nos cinco continentes. O País tem o segundo maior preço médio de exportação de calçado no mundo, atrás apenas da Itália, mostrando-se como uma alternativa ao mercado de luxo. “Todas as marcas internacionais de primeira linha já fazem sapatos em Portugal. Como fazem em Espanha e como fazem em Itália. Temos o saber fazer, mas também temos a tecnologia e estamos a investir mais do que os outros países. Ainda assim, estamos muito longe de Itália, infelizmente. Portanto, temos que continuar a fazer este trabalho”, diz o porta-voz da associação.
O primeiro semestre de 2025 pode já mostrar os resultados. Nos primeiros seis meses do ano foram exportados 36 milhões de pares de sapatos, no valor de 843 milhões de euros, o que representa um crescimento de 5,4% em quantidade e 3,7% em valor em relação ao mesmo período do ano anterior. E esta evolução pode ser potencializada com a relação mais próxima aos designers do outro lado do Atlântico. “O mercado norte-americano é uma prioridade para o calçado português”, diz Luís Onofre, que aponta as diferentes tarifas aos produtos importados pelos EUA (os produtos do Brasil são taxados em 50%, os da China em 30%, da Índia em 50% e do México em 25%). “Esta pode ser a oportunidade para reforçarmos a presença nos EUA, onde cresce a procura por produtos premium, sustentáveis e com história.”
Entretanto, Paulo Gonçalves também quer que Portugal ganhe espaço num mercado dominado por países asiáticos, como a China. “São fabricados todos os anos, a nível internacional, 24 mil milhões de sapatos. 88% destes sapatos são feitos na Ásia, o que equivale a dizer que 9 em cada 10 pessoas compram produtos asiáticos. Nós consideramos que é razoável, não é sustentável. Há uma alternativa. Essa alternativa é Portugal.” Para tal, o porta-voz da APICCAPS diz que a associação está a fazer “o maior investimento de sempre“, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Dois projetos já estão em desenvolvimento: o BioShoes4All, com um aporte de 70 milhões de euros focados para apoiar a parceria entre 50 empresas e 20 instituições de investigação que desenvolvem novas soluções de sustentabilidade para o setor, incluindo a reciclagem de materiais e o reaproveitamento de produtos como casca de arroz ou caroço de azeitona; já o FAIST, que conta com um investimento de 50 milhões de euros, foca na automação e digitalização pensando em eficiência e rentabilidade. “Começámos há 3 anos. Até o final deste ano, na área da robótica, automação e sustentabilidade, estamos a investir 120 milhões de euros, com o apoio do PRR, mas mais da metade deste dinheiro é das empresas, porque acreditam que é este o caminho, acreditam na nossa indústria. Ora, se nós temos a tecnologia, temos o saber fazer, e temos a preocupação de procurarmos novos clientes e novos mercados, depois vamos à procura deles seja em feiras, outros eventos profissionais ou através desta ligação a novos designers.”