2023 foi um ano de glória para o Nápoles. Foi nesse ano que a equipa da Campânia se sagrou campeã de Itália e colocou fim a um jejum de 33 anos. Numa cidade devota a Diego Armando Maradona e que vive o futebol de uma forma muito particular e apaixonada, aquelas mais de três décadas de espera desencadearam vários dias de festejos e até chegou a haver registos de um sismo provocado pela festa. Agora, em 2025 e depois de um ano de transição em que os azzurri não foram além do 10.º lugar na Serie A, a chegada de Antonio Conte voltava a “encher o peito” dos adeptos, que acreditavam ser esta a altura de reconquistar o título. O ano foi de altos e baixos para todas as equipas que lutaram pelo Campeonato e, no final, a luta resumiu-se a dois emblemas: Inter Milão e, claro está, Nápoles.

Antes da última jornada, o favoritismo estava praticamente todo do lado do Nápoles que, apesar de ter apenas um ponto de vantagem (79 contra 78), jogava em casa, frente ao Cagliari, equipa que já tinha assegurado a manutenção. A mais de 800 quilómetros de distância, o Inter tinha pela frente uma deslocação a casa do Como, que se encontava num tranquilo 10.º lugar. As contas não eram difíceis e podiam até resultar num cenário inédito: os azzurri tinham de fazer igual aos nerazzurri, que por sua vez estavam obrigados a ganhar para chegarem ao título. Em caso de igualdade pontual, por conta do desaire do Nápoles e do empate do Inter, a Serie A ia ser decidida numa finalíssima em campo neutro. E não havia melhor forma de apresentar estes dois jogos como uma espécie de mitologia, com a Serie A a aludir à deusa e à serpente, os símbolos dos dois clubes, num retrat0 partilhado nas redes sociais.

Ponto assente era a ausência de Antonio Conte do banco de suplentes do Nápoles — assim como o homólogo Simone Inzaghi —, depois de, na última partida, o técnico italiano se ter envolvido numa forte discussão com Cristian Chivu, técnico do Parma, e ambos terem acabado expulsos, já depois do final do jogo. “Fizemos uma época muito exigente e este é, para mim, jogo que encerra uma época num novo local, num novo ambiente e onde sentimos a responsabilidade de dar a Nápoles e aos adeptos algo de belo e histórico. Lamento não estar presente. Há uma grande confiança na minha equipa,nos adeptos, no ambiente que vai existir e, mesmo que eu esteja na bancada, o meu coração vai lá estar [no relvado]”, assumiu o treinador na antevisão à partida. Bem ao seu estilo, Conte aproveitou ainda para frisar que o Nápoles é o underdog desta luta a dois, passando a responsabilidade para Milão. Os jogos mentais foram uma constante nas últimas semanas, com o treinador dos azzurri a insinuar que a campanha no Campeonato é um melhor indicador de qualidade do que numa fase a eliminar, aludindo à prestação do rival na Champions. Certo é que essas declarações ficam ligadas à fase descendente do Inter na presente temporada.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Quanto ao futebol propriamente dito, o Diego Armando Maradona lotou para acolher a eventual festa do título, ao passo que muitos milhares de adeptos acompanharam a partida nas ruas de Nápoles, através de ecrãs gigantes. Os napolitanos até entraram fortes na partida, mas o primeiro golo da noite apareceu em Como, com Stefan de Vrij a atirar o Inter para o primeiro lugar (20′). Ainda assim, essa condição durou apenas 22 minutos, já que, numa fase em que os suplentes nerazzurri assistiam ao encontro do rival pelo telemóvel, Scott McTominay completou um cruzamento de Matteo Politano com um remate no ar (42′). Pouco depois chegou o intervalo, não sem antes Pepe Reina ser expulso no último jogo da sua carreira, por falta sobre o ex-FC Porto Mehdi Taremi.

Na etapa complementar, o Nápoles voltou a entrar com o pé no acelerador e chegou ao segundo golo, com Amir Rrahmani a colocar em Romelu Lukaku que, depois de romper autenticamente a defesa do Cagliari, atirou colocado para um golo que levou o estádio ao loucura e acalmou Conte, no camarote (51′). Ao mesmo tempo, Joaquín Correa também faturou em Como, mas já não havia nada a fazer para um Inter que entrou em campo com as segundas linhas, por conta da final da Liga dos Campeões. Até ao apito final, os resultados não sofreram mais alterações, terminando com um 2-0 favorável às equipas da luta pelo título, mas bem mais vantajoso para os napolitanos.

Desta forma, o Nápoles conquistou a Liga pela quarta vez, levantando o troféu pela segunda vez em três temporadas. Com esta conquista, os napolitanos tornaram-se no oitavo clube mais titulado da Serie A, atrás de Juventus (36), Inter (20), AC Milan (19), Génova (nove), Torino (sete), Bolonha (sete) e Pro Vercelli (sete). Antonio Conte conquistou o primeiro título logo no primeiro ano em Nápoles e voltou a mostrar que é um treinador vencedor na Serie A. De recordar que o treinador de 55 anos já tinha conquistado o Campeonato italiano em quatro ocasiões, três delas na Juventus e uma no.. Inter. Pelo meio, venceu a Premier League e a Taça de Inglaterra ao serviço do Chelsea.