A cidade de Cannes e localidades vizinhas da parte ocidental da região dos Alpes-Marítimos enfrentaram um apagão já resolvido que afetou 160 mil casas mas o Festival de Cannes nem pestanejou: o Palais des Festivals tem autossuficiência energética e continuou a funcionar em pleno, mantendo as habituais sessões de reprise da competição. Mas todo o comércio e restauração à volta pararam. Lá se foram as lagostas nos aquários das marisqueiras… Entretanto, o jornal Nice-Matin destacava com alarme: “Será que vai ser como em Portugal?” A luz regressou entretanto, já tinha Cannes os super-geradores preparados. Foi anunciado que haveria cerimónia logo à noite, mesmo que a cidade ficasse às escuras.
Quem tem um dom natural para “apagar-se” e contrariar a vida social que o rodeia é a personagem de Josh O’Connor em The Mastermind: é o novo da norte-americana Kelly Reichardt, foi o último dos 22 a concurso a ser apresentado. A performance do ator britânico, em dupla participação neste concurso, difere acentuadamante do que ele faz em The History of Sound.
O título é irónico: chamam-lhe “mastermind” mas ele é mais tonto que outra coisa. É a história de um simpático e desregulado fulano que estudou história de arte e é cleptomaníaco, não resistindo a surrupiar obras de arte de museus. Não rouba qualquer coisa. E para azar dele, não domina propriamente a arte de roubar. A mulher conhece-lhe a fraqueza e, quando se enerva, é capaz de lhe atirar candeeiros à cabeça. Claro que ele é um pai irresponsável dos seus dois filhos menores.
▲ “Woman and Child”, de Saeed Roustayi
O filme é uma espécie de Ocean 11 dos pobres, em low fi, sem os espectaculares gamanços. No fundo, talvez a personagem de O’Connor, que se chama James, só queira chamar a atenção, preencher alguma falta de afeto, algum trauma infantil, quem sabe vingar-se do pai, e com isso da sociedade, porque o pai é juiz, pessoa altamente respeitada na sua comunidade. Estamos nos anos 70 em Massachusetts, a América está em guerra e os hippies na rua em protestos contra o que está a acontecer no Vietname. Entretanto, os roubos chegam aos jornais. E o nosso larápio parte em fuga.
Kelly Reichardt, retratista inteligente, sensível, de aspetos da história da América que não costumam ser contadas nos filmes, volta a isolar um indivíduo que contraria em surdina as regras e os hábitos da comunidade em que vive. É uma das obsessões e talvez a maior linha de trabalho da cineasta: podemos realmente ser livres e existir separados dos outros seres humanos, do que nos rodeia? “No man is an island…”
Depois do sublime Un simple accident, de Jafar Panahi (por todos apontado ao palmarés e a um favoritismo partilhado com o brasileiro Kleber Mendonça Filho e o norueguês Joachim Trier), Saeed Roustayi levou-nos de novo para esse grande país de cinema que é o Irão. Em Woman and Child, novo trabalho de Roustayi, somos apresentados a algo invulgar no cinema iraniano: uma mulher independente. O cineasta tem vindo a observar o lugar que as mulheres ocupam na sociedade do país. Houve uma reconfiguração do seu papel e, com isso, uma atitude que poderá, quem sabe, favorecer a liberdade futura de um país em que ela está altamente condicionada pelo poder religioso.
▲ “Jeunes mères”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
A base de Woman and Child é melodramática, agarra-se à coragem de uma enfermeira, mãe de dois filhos, que enviuvou e emancipou-se. Mas o filho não atina na escola – e depois acontece uma tragédia que também envolve o ex-sogro. Já o namorado, um cretino, troca-a pela irmã dela. A base é de soap opera, contudo absolutamente realista e credível pelo trabalho fabuloso dos intérpretes: em suma temos uma guerra de sexos, uma mulher a enfrentar o poder masculino, a tentar superar um luto, a encontrar uma reconciliação. Foram prudentes as reservas feitas aos anteriores filmes de Saeed Roustayi, A Lei de Teerão e Os Irmãos de Leila. Woman and Child é-lhes superior, faz muita diferença.
Esta espécie de drama interior, familiar, que se alastra na duração do filme e começa a retratar todo um sistema político está também presente, mas sem a mesma consistência, em Eagles of the Republic, do cineasta nascido sueco, mas de origem egípcia, Tarik Saleh. É a história de um ator muito célebre no Cairo, vedeta em todo o mundo árabe, pressionado a aceitar um “papel de encomenda” num filme de propaganda do Governo – contrariado, ele envolve-se depois com a mulher de um general, jogo perigoso em país que, como é sabido, são os militares que mandam. Tal como aconteceu com o filme anterior de Tarik (A Conspiração do Cairo), Eagles of the Republic, que se passa em solo egípcio, foi rodado fora do país, desta vem em Istambul, e terminado na Suécia.
Já Jeunes mères é o filme que mais “simula”, em muitos anos, uma aproximação dos irmãos Dardenne às práticas do documentário com as quais eles se lançaram – e se escrevemos “simula”, entre aspas, é porque tudo aqui, que não haja engano, continua a ser ficção encenada, rigorosa, contudo emprestada à vida com uma intensa proximidade. Jean-Pierre e Luc focam-se neste caso em cinco raparigas apoiadas por centros de apoio às jovens mães que elas são. Focam-se nas dificuldades que elas enfrentam com a sua nova condição. Nos problemas familiares, no abandono de companheiros, etc. Elas são ainda crianças a lidarem com assunto muito sério. Têm o desespero no horizonte. A intensidade dos momentos é abalada por uma estrutura circular em que as personagens vão surgindo no ecrã em ordem sequencial. Mas esta opção é uma diferença face ao trabalho anterior.
▲ “Resurrection”, de Bi Gan
Jeunes mères é um retrato da precariedade que nos religa diretamente ao filme A Criança, realizado há 25 anos, e segunda Palma de Ouro dos belgas. A primeira foi Rosetta, de 1999, com Émilie Dequenne (1981-2025), que esta edição de Cannes homenageou. Se vencessem esta noite, os Dardenne tocariam no ouro de Cannes pela terceira vez – seria feito inédito na história do festival.
Falta abordar Bi Gan, o cineasta chinês de Kaili Blues e Long Day’s Journey Into Night (2018). À nova longa, que teve parto difícil, chamou-lhe Resurrection sem o significado crístico que lhe damos, até porque o budismo tem as suas variantes do termo e é muito anterior. Resurrection é um sonho de cinema, seguramente. Com personagens presas nesse sonho, à procura de uma saída. Bi gan recria e cita L’arroseur arrosé de Louis Lumière (o filme das brincadeiras com a mangueira), os espelhos de A Dama de Xangai de Welles, há um fulano com o chapéu e o sobretudo do Alain Delon n’O Samurai de Melville, fiquemos por aqui. No sonho entram sombras chinesas, uma ambição desmedida a nível de cenários que por vezes resvala para o reles e um plano-sequência virtuoso, proeza ao nível do que Bi Gan já mostrara tecnicamente. É uma experiência poética e confusa, dois adjetivos que, quando se juntam – esclareça-se — não dão bom resultado.
Cannes anuncia os prémios este sábado. Portugal está fora desta corrida mas tem duas hipóteses (em onze) de vencer nas curtas-metragens por A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes e Arguments in Favor of Love, de Gabriel Abrantes.
Deste lado, e no que ao prémio máximo diz respeito, gostava-se que vencessem a Palma de Ouro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (acaba de ser reconhecido pela crítica internacional com o Prémio Fipresci), Sirât, de Oliver Laxe, ou Un simple accident, de Jafar Panahi. Joachim Trier, por Sentimental Value, é apontado como um dos favoritos.