Era um jogo que valia pouco ou nada, era um jogo que ainda valia algo. Com o Real Madrid “condenado” a ficar na segunda posição do Campeonato numa época de fim de ciclo em que não conseguiu ganhar qualquer troféu, o Santiago Bernabéu estava cheio e engalanado não para festejar uma conquista mas para agradecer dezenas de conquistas com três lendas do clube na equipa: Luka Modric, Carlo Ancelotti e Lucas Vázquez. Antes, havia uma “missão”. Uma missão individual, uma missão alavancada pelo coletivo, uma missão que demorou pouco mais de meia hora a ser cumprida… sem que se saiba se chega para ganhar a “batalha”.

O provável adeus do mito que acabou Campeonato com 39 golos e pode ser Bota de Ouro. “Não sei, ninguém pode prever futuro”, diz Gyökeres

Depois de um jogo em Sevilha com o adversário a terminar reduzido a nove unidades em que os merengues tentaram de tudo para dar mais golos a Kylian Mbappé, o avançado francês estava só a um remate certeiro de atingir os 30 golos na época de estreia na La Liga e, em paralelo, ultrapassar Viktor Gyökeres na corrida à Bota de Ouro tendo em conta a diferença de coeficiente entre a prova espanhola e a Primeira Liga. Tentou logo no sexto minuto com defesa de Unai Marrero, voltou a tentar pouco depois com a tentativa a sair por cima (13′), marcou de vez na recarga a uma grande penalidade ainda na primeira parte (38′). Esse objetivo inicial estava alcançado mas, até ao final, haveria mais uma coroação, numa transição rápida que teve a assistência de Vinícius Jr. para o remate na passada de pé esquerdo para o 2-0 (83′). Agora, na receção do Liverpool ao Crystal Palace que fecha a Premier, Mo Salah terá de marcar pelo menos um hat-trick.

Em tudo o resto, a história do encontro ficou escrita pelas manifestações nas bancadas e pelos momentos das substituições. Primeiro alvo de grande homenagem: Lucas Vázquez. Substituído por Gonzalo García a 13 minutos do final do encontro com a Real Sociedad, o jogador foi alvo de uma especial atenção de tudo e todos numa altura em que está de saída do Santiago Bernabéu. Nunca foi um elemento unânime, nunca concentrou grandes holofotes em seu torno, terminou um percurso de mais de uma década pelo Real Madrid com um invejável currículo onde entram cinco Ligas das Campeões, quatro Campeonatos, quatro Mundiais de Clubes, quatro Supertaças Europeias, uma Taça de Espanha e duas Supertaças de Espanha. Se aquilo que fez não chegou, se as inúmeras ocasiões em que se sacrificou pela equipa ainda foram insuficientes, o currículo que leva mostra que foi uma das peças mais importantes da era 2.0 com Florentino Pérez no comando.

Mais tarde, a apenas três minutos do final de um jogo que basicamente acabou aí, Luka Modric deu lugar a Chema Andrés. Terminava ali o percurso de um dos melhores médios do século no Santiago Bernabéu (ainda vai fazer o Mundial de Clubes, com Xabi Alonso no comando) que continuou a tratar por tu o jogo e a bola aos 39 anos. O filho da guerra, como recordava o As num extenso trabalho sobre as complicadas origens do croata, chegou ao Real ainda com aquela guerra secundária do preço pago ao Tottenham mas cedo passou a ser uma das grandes figuras de um dos melhores períodos de sempre do clube, com seis Ligas das Campeões, cinco Campeonatos, seis Mundiais de Clubes, quatro Supertaças Europeias, duas Taças de Espanha e cinco Supertaças de Espanha que são curtos para a marca que o Bola de Ouro de 2018 deixou, numa saída que contou não só com a família no relvado como com a presença do amigo Toni Kroos em campo.

Por fim, Carlo Ancelotti. Discreto como sempre, a agradecer aos jogadores por tudo na sua zona técnica a passar ao lado das várias homenagens nas bancadas ao percurso no comando técnico, o italiano que ganhou três Ligas dos Campeões, dois Campeonatos, três Supertaças Europeias, três Mundiais de Clubes, duas Taças de Espanha e duas Supertaças de Espanha nas duas passagens pelo clube consagrou-se não só como um dos melhores de sempre mas também como o mais titulado na história. Sem ele e sem a sua forma de liderar, nada teria sido possível. Segue-se a seleção do Brasil depois de uma época de 2024/25 marcada pelas muitas ausências que impediram algo mais a nível de conquistas mas não apagou o estatuto conquistado.