A derrota na final da Taça de Portugal, numa reviravolta improvável iniciada com uma grande penalidade de Renato Sanches sobre Gyökeres no nono minuto de descontos, adensou o atual momento de crise do Benfica mas colocou também o clube a disparar em múltiplas direções na sequência da arbitragem de Luís Godinho e do VAR Tiago Martins, em especial num lance em que Matheus Reis pisou a cabeça de Andrea Belotti sem qualquer tipo de sanção ainda com o Sporting em desvantagem no tempo regulamentar. Em 24 horas, houve um pouco de tudo, com um áudio do presidente dos encarnados, Rui Costa, a ser mais “explosivo” do que o comunicado de sete pontos emitido pelo conjunto da Luz esta segunda-feira. Tudo acompanhado, de forma paradoxal (ou talvez não), pela subida em flecha das ações da SAD das águias, que desde início aumentaram 90% e que só esta terça-feira subiram quase 15% para um valor que não se via desde 2007.

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“Foram duas semanas muito difíceis para nós. Perdemos o Campeonato, onde lutámos por ele até à última jornada, perdemos uma final da Taça de Portugal onde não bastou ser superior. Fomos superiores o jogo todo. Acabámos por sofrer um golo no último lance do tempo suplementar que durou dez minutos. Vocês conhecem-me há muitos anos, não tenho por hábito de passar as minhas responsabilidades para os outros e cá estou sempre que o Benfica não ganha ou perde uma competição. Cá estarei sempre a admitir a responsabilidade por esse falhanço. Não tenho sido um presidente quezilento, raramente falo de arbitragens e muitas vezes sou penalizado internamente por não me manifestar sobre arbitragens. É uma forma de estar no futebol mas onde parece que há muita gente que não quer que assim seja. Assumindo a responsabilidade da Taça, há situações que ultrapassam todos os limites”, referiu Rui Costa ainda no Jamor.

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“Peço-vos para analisarem encarecidamente o lance aos 90+4′ na linha de fundo, onde o Belotti, no chão, é agredido por dois jogadores do Sporting. Primeiro com uma cotovelada deliberadamente na cabeça no Belotti, não bastando isso há um pisão deliberado e propositado na cabeça e a falta ainda foi contra o Benfica. Há coisas que ultrapassam todos os limites. A mim faz-me muita confusão como é que um VAR que consegue dar simulação ao Dahl e anula o segundo golo do Benfica não consegue ver uma dupla agressão. Peço-vos que acompanhem esse lance. Depois o Otamendi leva uma cotovelada na cara de um jogador do Sporting que já tinha amarelo e o jogo continuou. São lances a mais numa fase crucial do jogo para não se meter em questão aquilo que se passou aqui hoje. O Benfica perdeu, eu assumo a responsabilidade mas há que olhar para o futebol português. Um lance desta natureza a favor do Benfica o que não dava para falar durante a semana toda…”, acrescentou o líder dos encarnados, visivelmente irritado na zona mista.

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Esse estado de espírito já tinha estado bem latente antes dessa intervenção. Depois de ter ficado incrédulo com a forma como a Taça de Portugal escapou ao Benfica depois de “99 minutos e 30 segundos de domínio”, como Bruno Lage referiu em conferência de imprensa, Rui Costa desceu à zona dos balneários após a entrega das medalhas aos vencedores e aos vencidos e manifestou essa irritação antes de falar pela primeira vez. Aí, o líder das águias voltou a acentuar as queixas da arbitragem mas falou também da passividade da equipa no lance que virou o rumo da final em que Francisco Trincão recebeu e avançou a partir do meio-campo sem que nenhum dos médios ou defesas impedissem que a bola fosse até Viktor Gyökeres.

Foi ainda nessa madrugada que uma conversa de Rui Costa no interior do Centro de Treinos do Seixal foi “apanhado” pelos microfones da CMTV. Sem se perceber ao certo com quem estava a falar, o presidente do Benfica visou não só arbitragens anteriores como o próprio Sporting, acusando-o de “dominar tudo”.

“Amarelos por tudo… Já no jogo com o Arouca [do Campeonato, 2-2] o outro [António Nobre] marca primeiro e dá penálti, ele [Luís Godinho, VAR] diz-lhe que não devia ter dado penálti e ele marcou o penálti na mesma, pá… Estás a ver, estás a ver como é que ele é? Duas vezes, e tivemos essa derrota com quem? Vai na volta o Pinto da Costa é que ainda tinha razão, se calhar o Pinto da Costa tinha razão”, refere no primeiro dos áudios partilhados, sem que se perceba ao certo o contexto da parte do ex-líder portista.

“Temos de ver o que se passou pá… Um vídeoárbitro [Tiago Martins] em fim de carreira… Leva nas costas desde o jogo com o Arouca… O Sporting domina esta m****, isto está tudo minado por eles. Está tudo minado por eles. Fui à Federação [Portuguesa de Futebol] com o Rui Pedro Braz, até os delegados car****, até os delegados […] Dá dez minutos de descontos, dez minutos de descontos! Está apresentado com o que quer, pá! Era para o Sporting ganhar… Dez minutos de descontos, estás a perceber? […] Tudo depende daquilo que os árbitros decidiram, parece que estão a gozar connosco e com os árbitros também… Lá no Sporting, a Juve Leo…”, ouve-se no outro áudio divulgado pela CMTV, com várias partes impercetíveis.

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Antes, o Benfica tinha emitido um duro comunicado visando vários alvos. “Participar disciplinarmente da equipa de arbitragem e de VAR do jogo da final da Taça, a saber: Luís Godinho, Tiago Martins e respetivas equipas. Participar disciplinarmente dos jogadores Matheus Reis e Maxi Araújo pelas múltiplas agressões ao jogador Andrea Belotti. Exigir a divulgação imediata dos áudios entre árbitro e VAR da final da Taça de Portugal, bem como as notas que lhes venham a ser atribuídas. Fazer uma exposição à FIFA, à UEFA e ao IFAB, em face da ilícita aplicação do protocolo VAR em Portugal, que colocou em causa a verdade desportiva. Exigir ao recém-eleito Conselho de Arbitragem uma posição pública, onde apresente medidas e soluções concretas que corrijam a sua atuação, sob pena de não ter condições para continuar em funções”, apontam os encarnados nos cinco pontos iniciais do texto colocado no site oficial do clube, sendo que a final da Taça de Portugal é o único encontro do calendário nacional em que não são atribuídas notas.

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“Suspender a participação nos grupos de trabalho da Liga Centralização e solicitar ao Governo uma audiência com caráter de urgência, informando-o de que, neste momento, não estão reunidas as condições para avançar com este processo. Informar a FPF que, enquanto a verdade desportiva não prevalecer nas competições nacionais, o Benfica estará indisponível para acolher jogos da Seleção Nacional no seu estádio”, acrescenta nos dois últimos pontos do comunicado, colocando em causa a possibilidade de uma interdição de um a três meses de acordo com o artigo 72.º do Regulamento Disciplinar da FPF. “O Benfica exige que a próxima temporada seja decidida em campo, de forma transparente, o que não sucedeu na época desportiva que agora finda. Nós assumimos sempre as nossas responsabilidades. Exigimos que quem tutela e rege o futebol português também assuma as suas”, concluiu o mesmo texto dos encarnados.

Já esta terça-feira, Nuno Catarino, CFO e administrador da Benfica SAD, abordou de forma detalhada a questão da centralização dos direitos televisivos e também da indisponibilidade da Luz para a Seleção.

“Temos de pensar se ao darmos um passo em frente não estamos a dar um passo para o precipício. Basta dar um passo atrás, refletir sobre como tornar o produto melhor e dar dois passos em frente. O objetivo principal é valorizar o futebol português mas ao valorizarmos o Benfica estamos a valorizar o futebol português. Queremos fazer promover o espetáculo, o produto. Sempre estabelecemos princípios básicos, condições comerciais. Correu riscos que mais nenhum clube correu na altura. Estamos disponíveis para participar num projeto de valorização do futebol português mas que comece no valor que o Benfica tem hoje e vai ter no futuro. A partir daí, se for para melhorar e distribuir melhor por todos, muito bem. Mas temos de começar pelo valor que os clubes têm hoje em dia. BTV deixará a atual realidade com a centralização? Mas porquê? O nosso projeto de comunicação tem sido reformulado e teremos desenvolvimento no futuro. Temos muitas ideias mas a reformulação é inevitável mas não descarto nada. Se fizermos uma lista dos 20 jogos mais vistos em Portugal, 17 são do Benfica. E são 17 porque só há 17. Isto tem de ser valorizado e visto pelo valor que vale”, apontou o dirigente dos encarnados na 3.ª Conferência Bola Branca, da Rádio Renascença.

“Queremos novos rumos para o futebol português, é esse o nosso princípio e forma de estar, mas tem de haver alterações. Não devemos perder muito tempo com o comunicado, que fala por si. Foi pensado e foi ponderado. Temos de avançar para novos rumos se queremos produto melhor. Apoio a Pedro Proença? Não devemos centrar em pessoas mas em políticas, formas de trabalhar. Tem um recém eleito Conselho de Arbitragem que tem a responsabilidade de olhar para os problemas de frente e perceber o que é preciso alterar. Não é razoável que haja quem passe 20 vezes mais tempo a discutir incidências relacionadas com arbitragem ou como o VAR atuou. No final do dia, 20 vezes mais tempo a discutir incidências do que o jogo. As pessoas querem ver futebol, um jogo justo. Vai sempre haver um vencedor mas tem de ser um espetáculo que valha pelo espetáculo. Quem falhou? Falhou a equipa de arbitragem como um todo e o VAR de forma inexplicável. São só 33 câmaras e uma equipa inteira a ver. As pessoas têm de explicar, têm de divulgar, divulgar as notas dos árbitros, as notas do VAR, os áudios”, completou.