Os caminhos foram distintos, o ponto de chegada tornou-se o mesmo. Por um lado, Aryna Sabalenka teve tudo menos facilidades no complicado caminho traçado até à primeira final da carreira em Roland Garros, com duelos titânicos contra Amanda Anisimova e Zheng Qinwen antes de afastar nas meias aquela que era apontada por muitos como uma sucessora natural do legado de Rafa Nadal mas no feminino, Iga Swiatek. Já Coco Gauff, num plano oposto, sentiu apenas dificuldades (e muitas) nos quartos frente a Madison Keys, com um acesso “facilitado” à final depois do triunfo claro frente à sensação Loïs Boisson que não tinha mais para dar depois de duas semanas de sonho. Agora, Paris iria consagrar uma nova campeã e tinha logo pela frente as duas primeiras classificadas do ranking, à semelhança do que acontecia no quadro masculino.

Principal lição para ambas? Fazer uma final à luz do caminho até lá chegar. A bielorrussa, que nos últimos dez Grand Slams apenas por uma vez não chegou às meias e alcançou seis finais, procurava expressar toda a afirmação no circuito aos 27 anos com um triunfo que provasse a maturidade competitiva que foi ganhando nos últimos anos e que lhe permitiu ganhar encontros como frente a Zheng Qinwen ou Iga Swiatek, sabendo perceber os momentos do jogo para nunca desligar do mesmo e ser melhor nos momentos chave. No caso da norte-americana, que voltava à decisão de um Major depois do triunfo no US Open de 2023, a partida com Madison Keys mostrava como era possível ganhar mesmo nos dias com mais erros forçados (e foram muitos ou demasiados nesse duelo) também pela capacidade que tinha de receber nos jogos de serviço adversários. Tudo poderia contar numa final com casa cheia e um ligeiro favoritismo da número 1 mundial.

“Uma vitória aqui vai significar tudo para mim e para a minha equipa. Durante quase toda a vida disseram-me que isto não era para mim. Não tinha qualquer confiança. Nos últimos anos, não sei bem quantos, fomos conseguindo desenvolver muito o meu jogo e sinto-me muito confortável nesta superfície. Aliás, gosto de jogar em terra batida. Se conseguir este troféu, vai significar muito. A meia-final com a Iga [Swiatek] foi um duelo como uma final mas o trabalho não está feito ainda, tenho de ir lá e apresentar o meu melhor ténis. Estou pronta para fazer tudo o que for preciso para conquistar o título”, apontara Sabalenka, que com esta decisão era a primeira jogadora este século desde as irmãs Williams a ter mais do que uma final de Grand Slams em três épocas consecutivas (Venus conseguiu entre 2000 e 2003, Serena entre 2008 e 2010).

“Na minha primeira final aqui estava muito nervosa e desisti antes mesmo de o jogo começar. Agora tenho muito mais confiança, por já ter jogado uma final de Grand Slam e por ter corrido bem. Vou dar o meu melhor, tentando estar o mais calma e relaxada possível. O que tiver de acontecer, acontecerá e sei que darei tudo de mim. Toda a gente enfrenta coisas muito mais importantes na vida do que perder uma final e também percebo que há muitas jogadoras que gostariam de estar nesta posição. Tenho a certeza de que há centenas de jogadoras que dariam tudo para ganhar ou até para perder uma final, por isso, só o facto de saber isso faz-me perceber o quão sortuda e privilegiada sou por estar aqui. No início achava que seria o fim do mundo se perdesse, mas o sol nasceu no dia seguinte”, relativizava Coco Gauff, que se tornara a primeira jogadora a alcançar as finais WTA de Madrid, Roma e Roland Garros de uma forma consecutiva.

Faltava o passo seguinte depois de uma derrota num encontro equilibrado frente a Sabalenka em Madrid (depois de ter “atropleado” Swiatek nas meias com duplo 6-1) e um desaire já mais desnivelado com Jasmine Paolini em Roma após vencer Emma Raducanu, Mirra Andreeva e Zheng Qinwen. Foi difícil, muito difícil, mas deu. A nova Teoria da Relativização, que permitiu que continuasse alheia a todos os momentos que puxavam mais pela parte anímica, fez com que nunca quebrasse e conquistasse pela primeira vez o torneio parisiense aos 21 anos tendo pela frente a número 1 do mundo… e muitas estrelas a compor as bancadas.

Depois de um primeiro jogo de serviço ganho sobretudo pelos erros nas respostas de Sabalenka, Coco Gauff afundou-se antes de voltar à cadeira, cedendo o 1-1 em branco e sofrendo o break logo de seguida também em branco. A bielorrussa tinha o set inicial na mão e chegou a ter mais três pontos de break para fechar de vez essa parte com um 4-1 que seria quase decisivo. A norte-americana reagiu, levando tudo para vantagens, a norte-americana voltou a ceder, fechando as cinco primeiras partidas com uns modestos 36% de pontos no seu primeiro serviço. Também com a questão do vento a ter a sua influência, tudo mudou com Sabalenka a favor: após perder o primeiro a servir nessa condição, “perdeu-se” em erros, deixou que Cauff fosse ganhando confiança com o passar dos pontos e reabriu aquilo que parecia estar quase fechado.

A dupla falta no sexto jogo mexeu e muito com a bielorrussa, que teve depois 11 pontos seguidos perdidos que viraram as contas de 40-0 com 4-1 para 0-40 com 4-3. Ainda anulou cinco pontos de break, nem por isso estabilizou o seu jogo a 100% e Gauff aproveitou a janela de oportunidade para empatar tudo a quatro, com as duas quebras de serviço devolvidas e um ascendente anímico claro na partida. Era impossível prever uma final tão atípica, o mais “estranho” estava ainda para vir: Sabalenka fez o break para o 5-4, cedeu depois o seu jogo de serviço após 18 pontos onde teve dois set points pelo meio e tudo seguiu para o tie break após mais dois breaks que mostraram uma Coco Gauff sempre ligada ao jogo e a começar a ganhar por 3-0 naquela que era a chance para se soltar de vez. A bielorrussa não deixou, recuperou o nível inicial sem os mesmos erros básicos que estava a cometer e fechou o parcial com um amortie fantástico para o 7-5.

A forma como perdeu o primeiro set poderia ser um golpe para Coco Gauff. Ao invés, foi quase um estímulo para a norte-americana fazer das fraquezas forças e, sobretudo, lidar da melhor forma com os sucessivos erros que Aryna Sabalenka cometeu quase entre o desespero de ver que as bolas não saíam. A número 2 do mundo começou logo a quebrar o serviço, voltou a fazer o break para o 4-1 e reagiu da melhor forma ao único jogo de serviço perdido com o contra break para o 5-2, fechando com um jogo em branco o 6-2.

Estava tudo em aberto para um terceiro set onde quem errasse menos ganharia pela primeira vez o torneio de Roland Garros e Coco Gauff não se fez rogada em assumir o comando da partida perante a instabilidade da adversária, fazendo o primeiro break no 2-1. A norte-americana nunca deixou de ser agressiva para impedir que Sabalenka comandasse sempre a partida mas foi jogando também com os erros não forçados da jogadora bielorrussa para emendar a mão de algumas duplas faltas em momentos críticos. No entanto, e sempre que a número 1 aparecia, voltava a incerteza: após evitar dois pontos de break, Sabalenka quebrou o serviço de Gauff mas logo de seguida viu a norte-americana fazer o contra break com um jogo em branco, levando tudo para o decisivo décimo jogo onde chegou a evitar um break point antes de fechar o 6-4.