Era o jogo que todos queriam, era o jogo que todos esperavam, era um jogo que deveria ter pouco ou nada a ver com o último duelo entre ambos na final do Masters de Roma. Jannik Sinner e Carlos Alcaraz são jovens, representam a figura de expoentes máximos da nova geração que veio tomar conta do ténis no fim da década e meia de domínio dos Três Mosqueteiros mas já levavam um histórico de 11 encontros um contra o outro nos últimos quatro anos. O espanhol tinha vantagem nesse particular (7-4) e somava mais triunfos em terra batida (2-1), o italiano aparecia como número 1 e também já tinha ganho em finais em terra batida (Umag). Mais do que números, estatísticas ou sensações, encontrar um favorito era um mero exercício de preferência ou mesmo uma questão de feeling – tudo o resto era imprevisível. Numa ideia quase paradoxal, havia o sentimento claro de que os dois melhores do ranking chegariam lá sem ninguém saber quem era o melhor.

Este Roland Garros, onde a parte física dita leis, já não é para o mestre Djokovic: Sinner vence batalha e defronta Alcaraz na final

As casas de apostas colocavam Jannik Sinner com um ligeiro favoritismo, o feeling geral de quem passava pelos microfones do Eurosport e do público parecia apontar mais para Carlos Alcaraz. Percebia-se porquê. Aliás, basta ver o mais recente documentário do espanhol na Netflix para se ter noção de como estar bem em termos físicos muda por completo aquilo que faz no court e para fora dele. O número 2 estava mais solto, mais alegre, mais confiante, mais empático. Numa comparação a anos luz do compatriota, é como Nadal: não é francês, tem o público a seu lado como se fosse francês. O filho de Múrcia é um dos jogadores do circuito onde essa transparência é mais percetível, com essa nuance extra de nunca perder o controlo dos jogos até quando tinha de fazer um quarto set por um parcial que não corria tão bem. Nesse particular, o Alcaraz de 2025 em Roland Garros parecia uma versão 2.0 melhorada do Alcaraz de 2023 e do Alcaraz de 2024.

“Lutamos para estar neste tipo de situações, nestas rondas, a lutar por jogar finais de Grand Slams. Tentamos não tomar isso como garantido. Não é por ter chegado a cinco finais em pouco tempo, com 22 anos, que damos por feito que nos próximos anos vai ser igual ou melhor. Queremos dar o crédito todo que merece, tentamos dar o valor que merece estar numa final do Grand Slam como se fosse a primeira. Isso é bonito, não pensar o passado e viver o momento. Alterações? Fisicamente não houve grandes mudanças. Temos melhorado, vamo-nos conhecendo à medida que passam os anos, o que precisamos e o que nos ajuda ou não. A partir daí vamos construindo um caminho adequado para a minha carreira. Mentalmente temos aprendido com as situações que vivemos, dos momentos maus aos momentos bonitos, e temos chegado a um nível mental forte e capaz de resolver grandes problemas. Já tenho 22 anos, é tempo de amadurecer um pouco. É momento de crescer e aprender com essas situações”, referira após superar Lorenzo Musetti por desistência depois de dois sets iniciais que ainda tiveram história (4-6 e 7-6) antes da quebra total do transalpino.

Do outro lado, um jogador diferente, com uma personalidade distinta e que parece até gostar de fazer um caminho dispare, longe dos holofotes e de grandes mediatismos. Até pode ser cruel, tendo em conta todas as justificações apresentadas e que fizeram com que merecesse uma sanção mais leve do que é normal, mas os testes anti-doping positivos por uma contaminação por parte do fisioterapeuta deixaram uma marca naquele que estava a ser o caminho de Sinner no circuito. As características de jogo para ser melhor são as mesmas, aproveitando a altura e elasticidade para encher o court de todas as maneiras entre um serviço agressivo que faz grande parte do caminho até ao sucesso, o mindset teve de mudar depois de cumprir suspensão com essa nota de ser o mais novo desde Pete Sampras a chegar a três finais de Majors consecutivas na carreira. Mais: desde 2015 que não havia um jogador a fazer oito finais seguidas de torneios em que participasse.

“Só o tempo poderá dizer se eu e o Carlos [Alcaraz] teremos uma rivalidade como a do Big Three mas o que posso dizer é que ele faz com que eu seja melhor tenista, leva-me para lá dos meus limites e obriga-me a entender o que posso fazer para lhe ganhar nos próximos encontros. O ténis precisa de rivalidades como esta. Jogar contra ele numa final de Grand Slam vai ser muito especial. Somos jovens, somos talentosos e somos diferentes. Vai ser interessante ver como tudo corre. Como em todas as grandes rivalidades, as coisas baseiam-se no estudo tático do que podes fazer mas é preciso contar com variações. Há que estar preparado para tudo”, apontara o transalpino que este ano abriu um canal do Youtube para mostrar o seu “outro lado”, trabalhou mais a parte da época em terra batida e trabalhou muito com Riccardo Ceccarelli, especialista em medicina do desporto que trabalhou com Ayrton Senna, Fernando Alonso ou Max Verstappen, entre outros.

Após uma cerimónia de abertura onde os violinos e os sopros se misturavam com coreografias, enquanto o rol de estrelas e antigos campeões dos mais variados desportos começavam a tomar os seus lugares, a partida teve um arranque que serviria de cartão de visita para tudo o resto: 12 minutos para fechar só o primeiro jogo, três pontos de break não aproveitados e Sinner na frente por 1-0. O italiano teve depois também uma possibilidade de quebrar o serviço não convertida, Alcaraz voltou a ter depois mais dois pontos de break não transformados, Sinner começou o quarto jogo com 0-30 mas permitiu o empate a dois. O espanhol assumia com maior frequência os pontos com várias subidas à rede e volleys, o transalpino continuava a sentir-se mais confortável no jogo no fundo do campo, o set inicial podia cair para qualquer lado até porque quando Alcaraz fez o break para 3-2, Sinner respondeu com o contra break para o 3-3. Tudo igual no resultado, tudo diferente na partida e, a jogar de forma muito mais confiante, o italiano fechou o set inicial por 6-4.

Alcaraz ainda teve um pedido de assistência por algo que lhe entrou no olho direito e afetava a vista mas os problemas do espanhol eram bem maiores. Sinner estava a ganhar cada vez mais pontos no primeiro serviço, mostrava maior consistência de jogo e entrara na cabeça do jogador de Múrcia, menos confiante no seu jogo e a duvidar de muitas bolas que antes eram certezas. De forma natural, o transalpino fez o 1-0 apesar de ter passado pelas vantagens, quebrou o serviço de seguida e conseguiu o 3-0 num parcial só com 13 minutos até aí. O espanhol estava fora do jogo, o regresso depois de uma passagem pela cadeira para beber água e mexer na raquete deu o mote para uma tentativa de redenção que veio muito das bancadas, a puxarem como nunca por Carlitos. Sinner aguentou o serviço para o 5-2 apesar do 30-30, começou o nono jogo com um 0-30 no seu serviço e não aguentou a reação, cedendo o break quando podia fechar o set antes do 5-5 com Alcaraz a jogar de forma mais confiante. Tudo seria decidido no tie break, com o italiano a ser melhor (7-4).

A forma como deixou fugir o segundo parcial quando parecia estar por cima pesou em Alcaraz, que sofreu logo um break a abrir o terceiro set. Se Sinner já estava em vantagem, este poderia ser o golpe fatal do jogo. Pelo menos aí, não foi: o espanhol ainda teve mais alguns erros pouco comuns mas devolver o contra break de seguida e fechou o 2-1 a seguir com o Philippe Chatrier de pé a aplaudir a tentativa de renascer das cinzas do jovem guerreiro que tinha arrebatado por completo o público e deixou tudo em euforia depois de meter mais um break para o 3-1. O italiano fez mais erros, baixou a percentagem de primeiros serviços mas a maior viragem foi, mais uma vez, o nível do espanhol. Aliás, é uma verdade “científica”: quando Carlitos começa a sorrir mais e a colocar a mão na orelha para ouvir o público, não são boas notícias para os adversários. No entanto, o robô Sinner continuava alheio a tudo, quebrando o serviço para o 5-4 e ganhando um “crédito extra” que não serviu de nada perante mais um break que fechou o terceiro parcial em 6-4.

O jogo estava reaberto, com o próprio Alcaraz a querer deixar um sinal ao adversário quando mandou três raquetes para encordoar após fazer o 1-0 nas vantagens. O cansaço acumulado num dia quente e com pouco vento em Paris já se ia notando, as 3h30 de jogo quando Sinner começou a servir na sexta partida davam os sinais mais evidentes, os erros não forçados mais inesperado iam surgindo e a importância de segurar os jogos de serviço ganhava outro peso, com o italiano a ter o único ponto de break não transformado até ao 3-3. Aí, não deu hipóteses: ganhou no serviço de Alcaraz em branco, segurou o 5-3 a perder apenas um ponto e recarregou a bateria qual máquina para assumir o encontro até aos três match points no 0-40. A vitória era uma questão de tempo, alguns segundos até… ou não: o espanhol ganhou cinco pontos seguidos para o 5-4, quebrou o serviço para o 5-5 e tudo seguiu para o tie break, com Alcaraz a virar de 0-2 para 4-2 até ao 7-3.

A final estava completamente ao contrário, com aquela sensação de vitória iminente de Jannik Sinner a ser agora um feeling certeiro numa reviravolta que seria épica de Carlos Alcaraz, muito mais solto em termos físicos e com um apoio fabuloso das bancadas que sabiam ter à frente uma página para a história do ténis mundial. Logo a abrir, o espanhol reforçou essa condição com um break, que lhe dava outro conforto para o que restava de uma partida que voltou a ter mais um volte-face inesperado no décimo jogo: a servir para ganhar, o espanhol foi surpreendido pela melhoria do nível do italiano que foi buscar forças onde ninguém conseguia antever, sofreu o break e ficou mesmo a perder na decisão por 6-5, voltando a deixar tudo em aberto na final mais longa de sempre de Roland Garros com 5h30. Sinner cresceu, Alcaraz voltou a errar onde antes não falhava e tudo chegou ao tie break a dez pontos, com a vitória a cair para o espanhol por 10-2, que ganhou o segundo Roland Garros consecutivo e o quinto Grand Slam da carreira aos 22 anos.