Durante largas semanas, e apesar de ter chegado às meias-finais de Wimbledon, Lorenzo Musetti era visto como uma promessa mais pelo hype que atraía à sua volta do que propriamente pelos resultados que tinha conseguido. Foi assim em 2024, começou por ser assim este ano. Pela derrota na terceira ronda frente a Ben Shelton no Open da Austrália, pela saída de cena precoce em Indian Wells com Arthur Fils, pelo desaire com Novak Djokovic nos oitavos de Miami. O piso rápido não queria nada com o italiano, o italiano também não queria mais nada com o piso rápido. Parou, recuperou de alguns problemas físicos, respirou para dar a volta na terra batida. Apesar de ter o melhor resultado da carreira em Grand Slams na relva, foi aí que encontrou a sua zona de conforto para escalar em toda a linha e colocar na prática o mais objetivo que tinha na teoria.

“Quero deixar de ser visto como o rapaz bonito que não sabe sofrer. Quero que isso termine de vez e estou disposto a sujar as minhas mãos em cada partida por isso”, prometia numa frase para fora que funcionava tanto ou mais como uma mensagem para o próprio. Prometeu, cumpriu. Mais confiante no seu jogo, mais consistente no plano anímico e mais solto em termos físicos, Musetti começou a temporada de terra batida da melhor forma com a final de Monte Carlo perdida para Carlos Alcaraz depois de eliminar dois top 10 além do compatriota Matteo Berrettini (Stefanos Tsitsipas e Alex de Minaur). De seguida, em Madrid, meia-final com derrota frente ao inglês Jack Draper. E outra meia-final no torneio antes de Roland Garros, em Roma, com Alcaraz a ser de novo o carrasco num equilibrado 6-3 e 7-6 (4). Agora chegava o maior teste do ano de 2025.

Mais do que jogar bem, ser melhor ou avançar rondas, Lorenzo Musetti fez da terra batida de Paris um porto de abrigo acompanhado por uma enorme empatia que chegava das bancadas no torneio onde o público mais influência pode ter no bom e no mau. Venceu o alemão Yannick Hanfmann, bateu o colombiano Daniel Elahi Galán, superou o argentino Mariano Navone, ganhou ao dinamarquês Holger Rune, foi superior ao norte-americano Frances Tiafoe. Pela segunda vez na carreira, primeira na terra batida, estava nas meias-finais de um Major mas tendo pela frente o maior pesadelo de 2025. Contra Alcaraz, não houve duas sem três.

O campeão em título conseguiu um autêntico “atropelo” nos quartos a Tommy Paul, chegando com moral em alta à luta pela primeira vaga na decisão de domingo. Mais uma vez, Musetti soube perceber o contexto, ter noção dos momentos e surpreender o espanhol, ganhando o set inicial por 6-4 com um break na parte final e levando a decisão do segundo parcial para o tie break após ter conseguido dois contra breaks na sequência da perda do seu serviço. Estava ali a chave do encontro e de uma potencial surpresa, foi ali que apareceu aquela que é a melhor versão de Alcaraz (7-3). Voltava a estar tudo empatado mas não mais o jogo seria o mesmo, com o italiano, que entretanto subiu a número sete do mundo, a quebrar por completo no plano físico, a somar erros sem conta, a pedir assistência médica perante os problemas musculares que sentia na coxa e a desistir mesmo depois do 6-0 e do 2-0. A versão de gladiador de Musetti conhecia os seus limites.

Por seu turno, Alcaraz, que em 2025 ganhou em Roterdão, Monte Carlo e Roma, regressava à final de um Grand Slam para colocar à prova a senda 100% vitoriosa que tem em finais de Majors, tendo conquistado o US Open de 2022, dois títulos seguidos em Wimbledon (2023 e 2024) e mais um em Roland Garros (2024). Agora faltava saber quem encontraria pela frente, entre dois antigos terrores de gerações diferentes mas para os quais se foi preparando Novak Djokovic, o passado/presente, e Jannik Sinner, o presente/futuro.

Nunca desejo a ninguém que sofra uma lesão, muito menos numa meia-final de Grand Slam e a primeira ainda por cima. Sei do que ele capaz de fazer. Desejo-lhe o melhor, em breve estaremos novamente a desfrutar do seu ténis”, comentou Carlitos logo após o encontro no court.

Se o ténis da atualidade está cada vez mais assente na força física e mental dos jogadores, em Roland Garros essa premissa acentua-se ainda mais (com a vantagem que extraterrestres como Rafa Nadal ganhavam nesse contexto). Aqui, ao contrário do talento, da vontade ou das intenções, ou se tem ou não se tem. Foi aqui que o segundo encontro ficou resolvido, com Djokovic a ficar por metade mostrando que os 38 anos já pesam. O recordista de Grand Slams, que fazia a 13.ª meia-final em Roland Garros e a 51.ª em Majors, jogou bem, deu tudo e teve momentos de magia mas, nos momentos chave, Sinner foi mais forte – não que isso signifique exatamente que é melhor mas mostrando como a disponibilidade em campo faz muita diferença.

Aliás, um exercício simples para explicar aquilo que aconteceu nos dois primeiros sets era colocar o que se passou nos jogos de serviço numa folha e colocar duas hipóteses. Aquele que, em qualquer outro jogo, seria Djokovic era, na verdade, Sinner. Porquê? No parcial inicial, fez o break no 3-2, ainda ameaçou outra quebra de serviço mas fechou o 6-4 com um jogo em branco; no segundo set, fez o break no 4-3, teve uma ligeira quebra que permitiu o empate a cinco mas fez de imediato o contra break, fechando depois com 7-5. Encostado às cordas, e a pedir assistência médica antes do arranque do terceiro parcial deitado em cima de uma toalha junto ao seu banco, o sérvio voltou a subir o seu jogo indo buscar forças onde parecia só haver fraquezas, jogou pontos para fazer e evitar breaks, teve set points desperdiçados e deixou que tudo fosse para o tie break sem aproveitar um momento em que nem o primeiro serviço estava a salvar o italiano, voltando a mostrar aí sinais de desgaste físico ao perder também na decisão onde costumava quase sempre ganhar (7-3).

Apesar de ter o público rendido e a apoiar desde início, apesar de ter feito alguns jogos fabulosos, sobrou a imagem de um smash perto da rede falhado que valeu o 3-0 a Sinner e quase sentenciou o tie break. Após essa bola, viram-se caras de espanto, mãos na cabeça e um desespero de quem só queria entrar no court para ajudar no que fosse possível. No entanto, não havia nada a fazer, com o sangue frio do italiano a prevalecer perante as dificuldades do sérvio. “Nole” continua a ser venerado em Roland Garros mas, aqui, a parte física faz a diferença. E, se dúvidas existissem, a passagem de testemunho à nova geração está feita.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]