O escritor britânico de thrillers Frederick Forsyth, autor de êxitos como O Chacal, Odessa e Os Cães da Guerra, morreu aos 86 anos. A confirmação foi dada pelo seu agente, Jonathan Lloyd, que adiantou que o autor faleceu esta segunda-feira de manhã, rodeado pela família, após doença súbita.
“Lamentamos o falecimento de um dos maiores escritores de thriller do mundo”, declarou, citado pela BBC. A sua carreira literária, iniciada nos anos 70, saldou-se em mais de 20 livros, vendendo 75 milhões de cópias em mais de 30 países.
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Antes de tudo isso, porém, Forsyth — nascido em Kent em 1938 — foi um piloto da Força Aérea Real (RAF) e jornalista, tornando-se correspondente da Reuters e da BBC. Como recorda o The Guardian, o seu golpe de sorte chegou em 1961, quando o correspondente em Paris teve problemas de saúde, forçando-o a regressar a casa.
Forsyth, que sabia falar francês, alemão e russo, foi então destacado para França, numa fase em que o país estava em convulsão, com militantes de direita a ameaçarem assassinar o presidente Charles de Gaulle após este oferecer a independência à Argélia.
“Estávamos todos à espera da mega-história, o momento em que um atirador o atingisse na testa”, recordou na sua coluna de opinião no Daily Express, espaço de escrita que manteve durante quase 30 anos. Segundo o escritor, soube quando estava em França de uma operação de segurança bem sucedida por parte dos guarda-costas de De Gaulle para evitar um assassinato. No entanto, disse a um amigo que o atentado podia ter acontecido, mas só se fosse conduzido por “um assassino sem nome, sem rosto, sem registo, sem dossier”. Foi assim que se inspirou na sua estreia na ficção, O Chacal, lançado em 1971.
“Chocado com o que viu e usando a sua experiência durante um período como agente dos serviços secretos, escreveu o seu primeiro e talvez mais famoso romance, O Dia do Chacal, e tornou-se instantaneamente num autor best-seller mundial”, afirma Lloyd na sua nota de pesar. Além de ser adaptado para dois filmes — em 1973 e 1997 —, este romance foi mais recentemente transformado numa série protagonizada por Eddie Redmayne.
Antes, porém, de se iniciar como romancista, Forsyth teria ainda outra experiência que marcou profundamente a sua vida, ao ser enviado pela BBC para o Biafra em 1967 para cobrir a guerra civil na Nigéria. Chegado à recém-independente região três dias após a invasão do governo federal, foi-lhe dito que o exército iria suprimir a rebelião num par de semanas.
“O meu objetivo era noticiar a marcha do exército nigeriano que tudo conquistava. Isso não aconteceu. De forma ingénua, arquivei o relatório”, recordou num artigo escrito no The Guardian nos 50 anos do conflito. Acusado de parcialidade a favor dos rebeldes do Biafra, foi recambiado para Londres. Desgostoso da decisão, demitiu-se e tornou-se freelancer, regressando à região em 1968. Foi nessa condição que ajudou a divulgar a famosa história da fome no Biafra, plasmada na sua primeira obra de sempre, The Biafra Story.
Foi também aí, no entanto, que começou a trabalhar para os serviços secretos britânicos, o MI6, como informador. Recusando o epíteto de “espião”, admitiria na sua autobiografia de 2015, The Outsider, que foi um “ativo” dos serviços secretos durante mais de 20 anos. “Não havia nada de estranho nisso, era a Guerra Fria. Grande parte da força dos serviços secretos britânicos provinha do número de voluntários. Um homem de negócios podia estar a ir a uma feira comercial numa cidade de difícil acesso e era abordado, muito gentilmente, com um cortês ‘Se tiver a amabilidade de aceitar um envelope debaixo da porta do seu hotel e trazê-lo para casa…’ e era isso que eu fazia, recados”, contou numa sessão promovida pelo The Guardian.
Após o final da guerra, Forsyth regressou ao Reino Unido, apercebendo-se que estava “sem emprego, sem perspetivas, sem apartamento, sem carro, sem poupanças”. Foi assim, com o engenho aguçado pela necessidade, que recorreu à sua experiência em França e às suas notas para escrever O Chacal em 35 dias, inaugurando também uma máxima que seguiria doravante: manter os nomes reais das personagens e contar a história com o máximo de precisão técnica possível.
Inicialmente rejeitado por cinco editoras diferentes, foi publicado pela Hutchinson & Co, tornando-se num sucesso fulminante. A partir daí, Forsyth recorreria a essa fórmula de juntar pessoas e eventos reais a enredos extasiantes para tornar-se um gigante dos thrillers.
“A sua formação jornalística trouxe um rigor e uma eficiência metronómica à sua prática profissional e o seu faro e compreensão de uma grande história mantiveram os seus romances simultaneamente contemporâneos e frescos”, afirmou o seu editor Bill Scott-Kerr a propósito da sua morte. O mesmo revelou também que sairá uma obra póstuma em agosto, Revenge Of Odessa, sequela do original de 1972 escrito a meias com Tony Kent.
Trabalhar com Forsyth foi “um dos grandes prazeres” da sua vida profissional, declara Scott-Kerr. “Para além do fluxo de enredos e ideias brilhantes, ele era o escritor mais profissional que um editor poderia desejar”, afirmou.