Citou Shakespeare, Camões e Cervantes. Denunciou a cultura da mediocridade, alertou para a possibilidade de “loucos” alcançarem o poder e denunciou “a fúria revisionista que assalta pelos extremos”. Mas foi sobre o passado colonial português e a memória da escravatura que mais incidiu a escritora Lídia Jorge num discurso esta terça-feira, enquanto presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, em Lagos.
Numa intervenção de cerca de 30 minutos, a também conselheira de Estado começou por notar como “os países escolhem datas de referência para celebrar a sua história”, muitas vezes com datas de batalhas que “promovem o orgulho patriótico”, mas que em Portugal é a data da morte do poeta mais relevante da sua cultura, Luís Vaz de Camões (1524-1580), que constitui o “momento cívico de unidade mais relevante”.
A escritora algarvia realçou a importância das “terras do infante”, entre Lagos e Sagres, na História de Portugal, salientou a atualidade de Camões, mas não se poupou a expor as dores da escravatura como “remorso” da epopeia dos Descobrimentos.
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“Hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género. Um paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação de um Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império”, atentou. Referindo-se a Os Lusíadas, Lídia Jorge descreveu um “poema que, no fundo, justifica que o Dia de Portugal seja o dia de Camões”, pois “expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia”.
De igual forma, se “Sagres passou para a História e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo”, a escritora lembrou que “existe uma outra perspetiva e hoje em dia o discurso público que prevalece é sem dúvida sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora”.
“A deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade. É preciso sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel tão antigo quanto a Humanidade. O que sempre se verificou foi diversidades de procedimentos e diferentes graus de intensidade. É indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização, longo e doloroso”, insistiu. “Lagos oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico”.
A conselheira de Estado — nomeada por Marcelo Rebelo de Sousa em 2021, no início do seu segundo e último mandato — disse falar “com sentido justo da reposição da verdade e do remorso, por aqui se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, com pólos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.”
“Lagos expõe a memória desse remorso” e “mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita”, considerou. “Desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia. Alguém que muito prezamos encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos que o próprio Infante D. Henrique. Lagos não se furta a expor essa verdade histórica”, continuou. “Lagos também mostra o local onde depois iam ser mercadejados os escravos e, mais recentemente, relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos”, especificou. A cidade onde decorreram as comemorações do Dia de Portugal “mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui no dia de hoje”, notou, lembrando que a UNESCO criou a Rota do Escravo, em 1994, e inscreveu Lagos nessa rota “para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sobre os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos”.
“A cidade dos sonhos do Infante D. Henrique, de que Sagres é metáfora passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros”, acentuou a escritora que presidiu à comissão organizadora do 10 de Junho.
“Ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade”
Numa crítica ao racismo, Lídia Jorge referiu ainda que, “em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana”. “Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui e nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou, filhos do pirata e do que foi roubado, mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.”
A escritora ressalvou ainda a importância da Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, escrita em 1448, como documento histórico que prova que “sempre houve quem repudiasse por completo a prática [da escravatura] e o teorizasse”.
“Só conhecemos o que sucedeu naquele dia de agosto de 1444 porque o cronista do Infante D. Henrique o narrou. Gomes Eanes de Azurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel”, disse. “Felizmente que dispomos dessa página da crónica dos feitos da Guiné, para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse. Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.”
A autora exaltou ainda a importância da criação de “documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos”, como a Carta dos Direitos Humanos. “Durante algumas décadas foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa”, lamentou.
A escritora Lídia Jorge foi a figura escolhida para presidir à comissão organizadora do 10 de junho este ano
“Os cidadãos regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas”
Neste contexto, a conselheira de Estado criticou “a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje um pouco por toda a parte”, um revisionismo que coloca em causa “os fundamentos institucionais científicos, éticos e políticos”, e criticou a cultura da mediocridade e o triunfalismo tecnológico.
“O princípio da exemplaridade – essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre dignos – está a ser subvertido. A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende”, apontou. Numa alusão ao Presidente norte-americano, Donald Trump, referiu que “o chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, disse “adoro-vos, adoro os pouco instruídos”. “E os pouco instruídos aplaudiram. Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?”, lançou.
“O poder demente aliado ao triunfalismo tecnológico faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como mais uma vez se tratasse de um berloque. E os cidadãos são apenas público que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas. É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as comunidades portuguesas usem o nome de um poeta por patrono.”
Cervantes, Camões e Shakespeare “expuseram os meandros da dominação”
Na sua intervenção, Lídia Jorge citou três autores que, “de modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e entre eles os mecanismos universais do poder”.
Camões, Cervantes e Shakespeare “expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram”, comparou. “Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque. Os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.” “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”, disse, citando o trágico Rei Lear (1606), do autor inglês.
Lembrando como os portugueses acabaram com uma longuíssima ditadura e estabeleceram novas relações com os países colonizados, Lídia Jorge disse hoje ler Camões, “aquele que nunca morreu”, com a certeza de partilhar “da sua ideia de que o ser humano é um ser de resistência e de combate”. “É só preciso determinar a causa certa”, concluiu.
Lídia Jorge nasceu no Algarve, em 18 de junho de 1946, em Boliqueime, no concelho de Loulé. Estreou-se em 1980 com o romance O Dia dos Prodígios e tem sido uma voz incontornável na literatura contemporânea. É autora de livros como A Costa dos Murmúrios, O Vento Assobiando nas Gruas, O Vale da Paixão ou Os Memoráveis. Além de romances, da sua bibliografia fazem igualmente parte coletâneas de contos, obras de literatura infantil, de ensaio, de teatro, de poesia e de crónicas. O seu último romance, Misericórdia, venceu variados prémios, entre eles o Prémio Fernando Namora e o Grande Prémio de Romance e Novela 2023 da Associação Portuguesa de Escritores.