O verão de 2024 foi inundado de verde lima. A causa? Charli xcx e o álbum brat. A inglesa, que hoje atua no Primavera Sound Porto, na sua primeira passagem por Portugal, pôs a palavra “brat” nas bocas do mundo, nos feeds das redes sociais e até nas campanhas políticas mais acesas da história dos Estados Unidos. A expressão “Kamala is brat” virou slogan para a candidata democrata e para os seus apoiantes e Charli, embora afirmando que as suas canções não são políticas, quis estar “do lado certo da democracia e do lado certo dos direitos das mulheres”, explicou na altura à New York Magazine.

Muita tinta correu a partir desse momento, com críticas e apoios a voar de um lado para o outro, mas nada pôs em causa o banho de rave-pop que Charli xcx nos deu com brat, obra-prima de uma carreira que já leva quase duas décadas. Parte do sucesso deste sexto álbum de originais é explicado exatamente pela atitude “brat” da artista de 32 anos. Subvertendo a conotação negativa da palavra, traduzida livremente para “pirralha” ou “fedelho”, Charli encheu-se de assertividade para mostrar que uma rapariga pode ser o que ela bem quiser. Narrativas de meninas bem-comportadas não cabem no seu verde lima.

“Brat”, mais do que uma palavra, assumiu-se como uma atitude rebelde, um modo de estar. E dentro dessa atitude cabe um montão de definições. Mas quem melhor do que os fãs, limas plantadas um pouco por todo o Parque da Cidade, para nos explicarem o que é ser-se brat?

“Viver a vida sem pensar no que os outros vão pensar”

Leandro, 20 anos, dormiu três horas e correu o país quase de uma ponta à outra para estar hoje no Primavera Sound. “Vim por ela” e por ela largou a casa em Quarteira para se “conectar com a artista e com as pessoas”. “Sintam-se mais livres”, diz, abrindo os braços e acolhendo tudo o que o que brat significa para si: “Este é o momento para nos divertirmos como nunca nos deixaram divertir, porque fomos um pouco cortadas e reprimidas”.

Chega de cortes, de censuras, chega de desigualdades entre homens e mulheres. As ideias são repetidas por vários fãs. Letícia, 20 anos, de Braga, diz que prefere falar com gestos do que com palavras, “porque brat é uma vibe”, mas lá nos explica que a música de Charli lhe dá “bué liberdade”.

Alexandre, 17 anos, sentado uns metros ao lado com o seu grupo de amigas de Lisboa, está mais à vontade na conversa e lá deixa o novelo desenrolar. “Eu acho que ser brat é ter poder e segurança em quem somos e na nossa identidade”. Em suma, “respeitar os direitos de cada pessoa”, algo que, a seu ver, está ameaçado: “Na democracia não devia haver lados certos nem errados, mas há um lado que está a tirar direitos”.

A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]

Para esse lado, nem ele nem a amiga Inês, também de 17 anos, querem ir. Ser brat, diz-nos ela com uma t-shirt verde lima em que se lê a palavra “cocó”, é fazer uma crítica. Pela atitude, pelo humor, pelo nonsense. “[A Charli] é icónica, tem uma atitude poderosa em palco. É meio trashy e está-se um bocado a cagar”.

“Ela está-se nas tintas e representa as dirty british girls que eu amo!”, palavras desta feita de Char, aterrada diretamente de Leeds para o Primavera Sound e passeando-se com uma boneca Charli ao peito. Ser brat, em suma, é “viver a vida sem pensar no que os outros vão pensar”, resume Sara, de 20 anos. “A Charli passa essa vibe e esse é um dos motivos pelos quais eu gosto dela”. Charli arrasa, ou “lacra”, como preferem dizer Ana e Sofia, de 16 e 15 anos. Ela faz o que “lhe dá na telha”, reforça Sérgio, de 46 anos, para quem os Cansei de Ser Sexy eram o “brat” da sua geração.

Hoje, perto da meia-noite, o Parque da Cidade será todo “brat”. Verde lima dos pés à cabeça para ver Charli xcx a lacrar na sua estreia em Portugal (Palco Porto, 23h55). Sejamos livres.

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