À partida, este seria um grupo quase matemático: Portugal e França passavam discutindo entre si o primeiro lugar para um melhor cruzamento nos quartos, Geórgia e Polónia tentavam fazer a melhor figura ficando na terceira posição. Chegados à última jornada, tudo isto poderia manter-se intacto mas com uma nuance que fazia toda a diferença: o futebol evoluiu, alguns países aproveitaram da melhor maneira o reforço de todas as suas infraestruturas nacionais e os resultados mais imediatos são sentidos numa primeira instância entre os mais novos. Os georgianos são um exemplo paradigmático disso mesmo, jogando contra a Seleção na última ronda da fase de grupos com tudo em aberto em relação à passagem. Já Portugal poderia apenas “empatar” para passar mas também sabia que um triunfo poderia valer depois o primeiro lugar rumo aos quartos.

Portugal goleia Polónia por 5-0 e sobe à liderança do Grupo C do Euro sub-21

“A Geórgia no último Europeu venceu-nos, não nos surpreendeu. O que temos que fazer é ser pacientes e seguros com bola. Eles têm números muito interessantes, nos últimos 13 jogos só não marcaram à Roménia num particular. É uma equipa que não se limita a defender, apesar de o fazer bem. Marcam com frequência, o que não é fácil, fizeram-no às outras duas equipas que temos no grupo. Esteve a minutos de estar apurada para os quartos e já não precisar deste jogo. O que teremos que fazer é ter segurança com bola, sermos agressivos quando tivermos que o ser e impor a nossa qualidade em determinadas situações, porque é isso que nos torna diferentes de algumas equipas”, apontava Rui Jorge, selecionador Sub-21, numa visão mais ampla a recuperar o triunfo da França frente à Geórgia apenas conseguido no final do encontro.

As regras de Tomás Araújo passaram a leis – de Murphy (a crónica do Geórgia-Portugal)

“Empate? Isso é uma questão que se coloca muitas vezes mas que não se traduz na realidade de um balneário. Claro que sabemos que há dois resultados que nos interessam mas a nossa postura competitiva não se altera de um dia para o outro. É uma forma de pensar que vem de há muito tempo. Fazemos para que seja algo que saia naturalmente e não podemos de um jogo para o outro mudar isso. O nosso grande objetivo passa muito por mostrar às pessoas o nosso nível, mostrar do que somos capazes de fazer. Atrás disso, vem um resultado. Há situações pontuais em que o empate servir nos pode levar a agir de outra forma mas será apenas nesses pequenos pormenores que isso se pode pôr, não na forma de encarar o jogo”, tinha também referido o técnico dos Sub-21, assumindo mudanças na equipa mas não por qualquer gestão.

A expulsão de Odisharia logo no arranque do encontro acabou por ter influência em tudo o resto mas, até num encontro em que esteve longe de apresentar a qualidade exibicional que teve na goleada com a Polónia, Portugal revelou sempre uma maturidade competitiva que permitiu não só carimbar a passagem aos quartos com essa “vingança” da Geórgia depois da derrota de 2023 como somar mais uma vitória nesta fase final, carimbar o primeiro lugar do grupo e manter a série de jogos com a baliza a zeros. Mais: com o triunfo que voltou a ter Geovany Quenda em destaque por terras eslovacas, a Seleção Sub-21 chegou também ao golo 500 no escalão, ficando agora à espera do adversário nos quartos de final que sairá entre Ucrânia, Países Baixos e Finlândia, tendo em conta que a Dinamarca tem praticamente assegurado o primeiro lugar.

Tal como Rui Jorge prometera, a Seleção mexeu mas pouco e de forma cirúrgica, regressando às opções iniciais Mateus Fernandes e Tiago Tomás para os lugares de Pedro Santos e Henrique Araújo com a mesma linha defensiva que não consentiu qualquer golo nos jogos inaugurais. No entanto, e em pouco mais de três minutos, aquilo que o jogo poderia ser tornou-se numa realidade paralela completamente diferente: depois de uma boa entrada da Geórgia, a assentar arraiais no meio-campo nacional com bola, Odisharia quis levar demasiado à letra a agressividade na reação à perda, atingiu Nazinho de forma negligente e foi expulso com vermelho direto após intervenção do VAR (5′). Em lágrimas, o jogador do RFS pedia desculpa às bancadas, era confortado pelos companheiros mas todos percebiam que a missão georgiana acabara de mudar.

Na forma foi instantâneo, no conteúdo nem por isso. Apesar de ter recuado linhas e de tentar explorar apenas as transições ou o jogo direto nas referências ofensivas, Portugal continuava sem criar oportunidades e foi a Geórgia que deixou o primeiro sinal de perigo num remate de meia distância de Azarov desviado por Samuel Soares para canto (13′). A partir daí, fechou a loja. E mesmo quando a Seleção procurava espaços para tentar desequilíbrios que continuavam a escassear sem remates enquadrados com a baliza, houve mais um “brinde” daqueles que não se desperdiçam: Rodrigo Pinheiro combinou na direita com Quenda, tentou o cruzamento que saiu demasiado chegado à baliza mas Luka Kharatishvili deu um “frango” que valeu o 1-0 (24′). A parte mais complicada estava feita, o resto estava ainda por escrever tendo em conta o 3-0 da França com a Polónia em meia hora. E o segundo não apareceu por Paulo Bernardo porque Kharatishvili se redimiu (30′).

Geovany Quenda ainda teve um remate perigoso numa altura do jogo em que Diogo Nascimento conseguia agarrar mais nas ações nacionais e com isso dar outro critério à exibição de Portugal. Contudo, nem mesmo o intervalo conseguiu desbloquear a boa réplica da Geórgia, que teve ainda duas ações com relativo perigo no final da primeira parte e foi fazendo o suficiente para não deixar de estar na luta. Só o talento individual poderia desfazer o nó e foi aí que apareceu mais uma vez o génio de Quenda, que combinou com o recém entrado Gustavo Sá, furou pela defesa georgiana e fez o 2-0 (62′). Com a França a “travar” na cadência de golos, Portugal foi controlando o triunfo em posse, voltou a não sofrer e assegurou o primeiro lugar com uma bola de Rodrigo Gomes isolado na área que acabou por bater no poste da baliza da Geórgia (86′) antes do 3-0 marcado pelo jogador do Wolverhampton, na sequência de um canto marcado à direita (87′). Já em período de descontos, Henrique Araújo fechou as contas num penálti sofrido por Gustavo Sá (90+5′).