Se hoje já é difícil conseguir uma consulta num Centro de Saúde, imaginem depois do apocalipse zombie, quando já não há médicos. Que o diga o pequeno Spike (Alfie Williams), o herói de 28 Anos Depois, terceiro filme da série de terror e ficção científica realizada por Danny Boyle e escrita por Alex Garland, iniciada em 2002 com 28 Dias Depois; e primeiro de três novos ambientados na Grã-Bretanha devastada pelos infetados com um potente vírus da raiva libertado de um laboratório, e em quarentena do resto do mundo (Boyle nunca quis chamar zombies às suas criaturas, mas isso é apenas um pormenor, e foi ele o primeiro a pô-las a correr como atletas de alta competição, o que a partir daí se tornou numa convenção dos filmes e séries do género).
Passaram quase três décadas sobre os acontecimentos de 28 Dias Depois. Spike vive com o pai (Aaron Taylor-Johnson) e a mãe (Jodie Comer) numa comunidade de sobreviventes numa ilha ao largo do continente, ligada a este por um passadiço que fica submerso quando a maré sobe. A mãe está sempre acamada, afligida por uma doença que ninguém sabe o que é, porque não há ali quem tenha conhecimentos médicos. E quando, após ter ido ao continente com o pai numa incursão de caça aos infetados, ele lhe fala num médico louco sobrevivente que queima cadáveres continuamente, e cuja fogueira se vê à distância, o miúdo pega na mãe, cria uma distração para poder sair pelo portão fortificado que está sempre vigiado, e vai tentar encontrar o doutor, para que ele a examine.
[o trailer de “28 Anos Depois”:]
Nem 28 Dias Depois nem a continuação, 28 Semanas Depois (2007), esta realizada por Juan Carlos Fresnadillo, acrescentavam nada de especial ou de original aos filmes de apocalipse zombie (ou de infetados, para fazer a vontade a Danny Boyle), tirando o citado dote da corrida dado àqueles. Mas o seu sucesso comercial ditou que um terceiro título seria inevitável, até mesmo mais, como se verifica agora (o quarto, 28 Years Later: The Bone Temple, assinado por Nia DaCosta, foi rodado em simultâneo com este). Realizado por Boyle mais uma vez e escrito por Alex Garland, 28 Anos Depois quer abrir um novo capítulo na série e dar-lhe outras dimensões de horror e de aventura, mas não passa de um verbo de encher. E empapado em sangue até transbordar.
Falhos de imaginação e perros na criatividade, Boyle e Garland recorrem ao gore em jato e à overdose de macabro, para preencherem as quase duas horas de 28 Anos Depois. Há cabeças de infetados atravessadas por setas ou esmigalhadas contra pedras, cabeças humanas e de animais arrancadas à mão, infetados rebentados à metralhadora, um parto detalhadamente gráfico de uma infetada num comboio abandonado e um infetado mutante (vulgo Alfa) empalado numa enorme flecha em chamas. Enquanto isso, o médico, interpretado por um Ralph Fiennes todo besuntado de tintura de iodo, entretém-se a erguer uma torre de crânios humanos e a fazer postes com ossos, numa variante tétrica da arte performativa.
O livro de estilo visual de Danny Boyle continua limitado e grosseiro (ângulos excêntricos, cores saturadas, imagens aceleradas arbitrariamente e planos desengonçados, tudo acompanhado por uma banda sonora massacrante). O que, acrescentado à sangueira destemperada e ao horror mórbido desmesurado, faz de 28 Anos Depois um filme feio, boçal e mau, que não traz qualquer inovação ao cinema e às séries passadas após o apocalipse zombie (ou de infetados, para o caso tanto faz). Que já de si, diga-se, também andam pela hora da morte do morto-vivo.