Antes do Mundial de Clubes, era uma discussão “aberta” que entrava ainda no domínio da lógica: as equipas europeias chegavam em final de época com uma carga competitiva demasiado densa com uma pequena fase de férias, as formações sul-americanos estavam a meio da temporada com um pico competitivo preparado para este momento. Ou seja, o desequilíbrio habitual nas decisões da prova no antigo formato poderia ser diluído, Agora, durante o Mundial de Clubes, tudo mudou mesmo que às vezes a conversa fure esse domínio da lógica: como as exibições dos europeus têm ficado aquém e como os resultados dos sul-americanos têm aparecido, os representantes da América do Sul são “melhores” do que os conjuntos que vêm da Europa. O que potenciou isso? O triunfo do Botafogo com o PSG. O que aconteceu depois? Vídeos com a equipa de Rio de Janeiro a ser referida como “campeã europeia” ou equipas portuguesas que ficariam nos últimos quatro lugares do Brasileirão. Agora, com mais ou menos lógica, chegava mais um desses tais “duelos”.

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Olhando para as equipas brasileiras e argentinas nos EUA, o Flamengo era um dos principais expoentes pelo salto qualitativo que deu com Filipe Luís e que ficou de novo de novo patente na estreia frente ao Espérance de Tunis, com um triunfo seguro por 2-0 que colocava o Mengão a discutir o primeiro lugar do grupo… sem nunca fugir às suas ideias. “Nunca vamos abrir mão das nossas convicções, jamais! Temos uma ideia clara sobre como olhamos para o jogo e para a forma como traçamos um caminho para chegar à vitória. Treinamos todas as fases do jogo, treinamos sempre da mesma forma. Jamais iremos mudar a composição da equipa, estou há oito meses a jogar de uma forma que não vamos agora mudar”, assumia o antigo lateral.

Por seu turno, Enzo Maresca, técnico do Chelsea que cumpre a primeira temporada com o regresso dos blues à Liga dos Campeões entre o triunfo na Liga Conferência, falava daquilo que tem assolado todas as equipas do Velho Continente. “Não é fácil devido às altas temperaturas. Vamos tentar rodar os jogadores. Infelizmente, a equipa brasileira está mais habituada a jogar com este calor mas não importa. Vamos tentar dar o nosso melhor e vencer o jogo. Temos de trocar três, quatro ou cinco jogadores em cada partida. É impossível os jogadores estarem a 100% durante 11 meses. Por isso, estamos a tentar treinar menos e a dar prioridade aos aspetos táticos, em vez da intensidade física nos treinos diários. Parece que estamos em pré-época, porque tivemos alguns dias de descanso após a Premier e depois recomeçámos. Mas não é pré-época, é um grande torneio. Estamos aqui para vencer jogos e chegar o mais longe possível”, frisara o italiano. Os dois treinadores tinham razão mas havia um dado paralelo sempre a considerar: os momentos de cada jogo.

Dentro do que era pretendido por Filipe Luís, e com um “empurrão” extra dos milhares e milhares de adeptos brasileiros que voltavam a marcar presença em Filadélfia (adotando mais uma vez a estátua de Rocky Balboa como ponto central da romaria), o Flamengo começou a encostar o Chelsea às cordas, retirando capacidade de saída aos ingleses e andando a pisar terrenos do último terço sem finalização. Entre algumas picardias à mistura, ou não estivessem sul-americanos no meio-campo como Caicedo ou Enzo Fernández, os blues não iam muito à frente mas causavam mossa quando lá chegavam: Liam Delap obrigou Rossi a uma defesa mais apertada na área, Pedro Neto não perdoou após aproveitar um erro crasso de Wesley e correr meio-campo até fazer o remate para o 1-0 (13′). Contra aquilo que o jogo estava a dar, os ingleses estavam na frente.

O intervalo chegaria mesmo com a vantagem dos ingleses, apesar das aproximações que encontraram sempre uma defesa dos blues a dominar a área. No entanto, e apesar da boa reentrada na partida do vencedor da Liga Conferência, o Flamengo conseguiria reagir, com Gonzalo Plata a desperdiçar uma oportunidade flagrante na pequena área antes de fazer a assistência para Bruno Henrique espantar todos os fantasmas dos últimos tempos e fazer o empate (62′). Quando todos esperavam que Pedro fosse lançado no lugar do ala peruano que jogou mais pelo meio, Filipe Luís manteve a aposta, viu Danilo fazer a reviravolta logo a seguir na sequência de um canto com assistência de Bruno Henrique (65′) e colocou Wallace em campo para o jovem avançado marcar na primeira vez que tocou na bola (83′). Pelo meio, Jackson entrou e foi expulso de imediato em dia de aniversário (68′) mas a história do encontro já estava escrita e de novo para os sul-americanos.

A pérola

  • Teve uma lesão grave, seguiu-se o escândalo da acusação de forçar um cartão amarelo num esquema ligado a apostas. Bruno Henrique, que durante muito tempo era um dos avançados da moda no Brasil a ponto de ser uma questão de tempo até saltar para a Europa, já viveu melhores tempos mas voltou aos melhores momentos com a camisola do Flamengo frente ao Chelsea, com um golo e uma assistência saído do banco para uma reviravolta que acabou com o avançado a ser o centro de todos os festejos junto a Filipe Luís, antigo lateral do Chelsea (numa passagem sem grande sucesso) que é agora treinador.

O joker

  • Ao contrário do que aconteceu com o Espérance de Tunis, em que começou e andou quase sempre na ala direita do ataque para tentar as diagonais para dentro, Pedro Neto foi colocado por Enzo Maresca no lado esquerdo do ataque para tentar explorar as costas de Wesley. Foi isso que conseguiu dar vantagem ao Chelsea na partida, com o internacional português a mostrar que é um dos elementos em melhor momento dos ingleses e é também uma peça fulcral naquilo que é a ideia do técnico para cada jogo. Problema? Quando é preciso Maresca dar novamente a volta, o esquerdino sozinho já não chegou…

A sentença

  • Com este resultado, o Flamengo passa a ter seis pontos e tem um pé e meio nos oitavos, que podem ser confirmados caso o Espérance de Tunis pontue frente ao Los Angeles FC. Do lado do Chelsea, tudo fica adiado para a última ronda, sendo que a possibilidade de primeiro lugar é quase uma miragem.

A mentira

  • Ao contrário do que acontecera com o Los Angeles, Enzo Maresca deixou Madueke e Nicolas Jackson no banco, mantendo apenas Pedro Neto no tridente ofensivo. Depois da reviravolta do Flamengo, o técnico italiano não demorou a lançar o avançado senegalês em campo mas a opção acabou por ser o ponto final na ambição do Chelsea em pontuar diante dos brasileiros: o avançado, que cumpria esta sexta-feira o 24.º aniversário, teve uma entrada completamente desproposita sobre Ayrton Lucas, viu vermelho direto e, caso seja sancionado com dois jogos de castigo, só pode voltar nos quartos…