Livro autobiográfico em forma de romance gráfico, Não eras tu quem eu esperava conta a história da rejeição e da posterior aceitação da segunda filha do autor, diagnosticada com síndrome de Down. Publicada originalmente em francês (Ce n’est pas toi que j’attendais), a novela pega no inconfessável e faz dele material literário – cerne. Os momentos de honestidade emocional do narrador chegam a ser desconfortáveis, e até confrangedores para o leitor, que vê à sua frente uma vida sem pó sem arroz.
O título já faz adivinhar a fractura, o desfasamento. Após o parto, o pai, que não sabia da síndrome durante a gravidez, vê-se incapaz de amar a filha. Aliás, logo no início, assim que a vê, identifica-lhe os traços de trissomia 21, mas, à sua volta, os médicos negam tudo. Um diagnóstico posterior confirma o que já ele intuía, e o pai demora meses a aceitar, com crises de choro e uma distância que não consegue encurtar. Nos primeiros meses, nem pega na criança. Em páginas de puro horror, chega a esperar que morra. A narrativa é crua, e em nenhum momento se adoça ou acalenta o processo de aceitação, que vem ao leitor como o pai/autor o terá sentido: uma coisa lenta, cheia de dúvidas, de culpas, de esperança misturada com desespero, de raiva, de vergonha, de desalento.
Título: “Não Eras Tu Quem Eu Esperava”
Autor: Fabien Toulmé
Tradução: Helena Guimarães
Edição: Asa
Páginas: 256
Todas as conversas de outros pais com crianças com uma condição semelhante caem-lhe no vazio. Não lhe interessa que digam que as crianças com trissomia 21 são amáveis, sorridentes, muito menos lhe interessa que digam que há adultos funcionais com a síndrome. Focado na dor e na rejeição, não vê mais nada, e quando vê casos de adultos dependentes mete-se num charco. Eventualmente, o amor lá nasce, e aí o amor de pai voa, e é pura beleza, mas o leitor não deixa de se sentir amargurado. Custa, até para o leitor, que a criança não tenha sido amada desde o primeiro segundo, embora o livro já venha com traços de redenção, assim como momentos ternos em que a irmã mais velha não só não se apercebe de qualquer excepcionalidade na irmã mais nova como não deixa de a achar excepcional.
Talvez, para o autor, tivesse sido mais fácil usar o tema para a lágrima fácil, para cair no tom agradável e romântico, para fazer da paternidade um plácido jardim, e também isso seria elogiado. Há sempre público para a vida cor-de-rosa, e em momentos deste livro deve ser difícil não se querer que haja mais disso. Mas boas intenções não fazem boa literatura, e as contradições do narrador são desconfortáveis para quem lê, também porque se sente que o são para ele. Com isso, aproxima-se o leitor da experiência real de uma família: à medida que folheia, também ele está ali de coração em brasa. Há uma reviravolta na acção no momento em que Julia deixa de ser a filha com síndrome de Down e passa a ser a Julia. Ei-la então como criança, e ei-la então como amor total. Mas essa reviravolta não é um ponto, um momento – é simplesmente o tempo a passar, trazendo com ele a vida, os laços, a sensação de casa, e a ideia de que aquela filha não poderia ter sido outra qualquer.
▲ Boas intenções não fazem boa literatura, e as contradições do narrador são desconfortáveis para quem lê, também porque se sente que o são para ele
Em termos gráficos, os desenhos são simples, quase infantis, dando espaço ao leitor para que se foque no substrato emocional, que come tudo. Ninguém se distrai com o que não pertence ou sublinha a tensão, e os cenários minimalistas são pano de fundo para a parte emocional. Aliás, todo o livro é emoção, que vai perpassando através de cores suaves e de um uso eficiente dos silêncios, úteis não só para o leitor respirar mas também para aguentar a tensão que o narrador não só conta como veicula para o outro lado da página.
Há momentos da leitura que não fogem à sensação de repulsa, mais do que incómodo. Ver um pai a rejeitar uma filha cria anti-corpos, mas é essa a parte que faz um livro que não seja só a tal historinha cor-de-rosa. É essa dor, que passa para o leitor por ser uma dor proibida, que faz com que o livro seja inesquecível, contundente – dorido, portanto.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico