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Fabien Toulmé: a dedicação e a amargura de um pai em nome da fillha ★ ★ ★ ★ ★

Este artigo tem mais de 1 ano

Desenhos simples, que deixam o leitor preso ao substrato emocional de "Não eras tu quem eu esperava", drama familiar em que as contradições do narrador constroem óptima literatura.

Os momentos de honestidade emocional do narrador chegam a ser desconfortáveis, e até confrangedores para o leitor, que vê à sua frente uma vida sem pó sem arroz
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▲Os momentos de honestidade emocional do narrador chegam a ser desconfortáveis, e até confrangedores para o leitor, que vê à sua frente uma vida sem pó sem arroz

▲Os momentos de honestidade emocional do narrador chegam a ser desconfortáveis, e até confrangedores para o leitor, que vê à sua frente uma vida sem pó sem arroz

Livro autobiográfico em forma de romance gráfico, Não eras tu quem eu esperava conta a história da rejeição e da posterior aceitação da segunda filha do autor, diagnosticada com síndrome de Down. Publicada originalmente em francês (Ce n’est pas toi que j’attendais), a novela pega no inconfessável e faz dele material literário – cerne. Os momentos de honestidade emocional do narrador chegam a ser desconfortáveis, e até confrangedores para o leitor, que vê à sua frente uma vida sem pó sem arroz.

O título já faz adivinhar a fractura, o desfasamento. Após o parto, o pai, que não sabia da síndrome durante a gravidez, vê-se incapaz de amar a filha. Aliás, logo no início, assim que a vê, identifica-lhe os traços de trissomia 21, mas, à sua volta, os médicos negam tudo. Um diagnóstico posterior confirma o que já ele intuía, e o pai demora meses a aceitar, com crises de choro e uma distância que não consegue encurtar. Nos primeiros meses, nem pega na criança. Em páginas de puro horror, chega a esperar que morra. A narrativa é crua, e em nenhum momento se adoça ou acalenta o processo de aceitação, que vem ao leitor como o pai/autor o terá sentido: uma coisa lenta, cheia de dúvidas, de culpas, de esperança misturada com desespero, de raiva, de vergonha, de desalento.


Título: “Não Eras Tu Quem Eu Esperava”
Autor: Fabien Toulmé
Tradução: Helena Guimarães

Edição: Asa
Páginas: 256

Todas as conversas de outros pais com crianças com uma condição semelhante caem-lhe no vazio. Não lhe interessa que digam que as crianças com trissomia 21 são amáveis, sorridentes, muito menos lhe interessa que digam que há adultos funcionais com a síndrome. Focado na dor e na rejeição, não vê mais nada, e quando vê casos de adultos dependentes mete-se num charco. Eventualmente, o amor lá nasce, e aí o amor de pai voa, e é pura beleza, mas o leitor não deixa de se sentir amargurado. Custa, até para o leitor, que a criança não tenha sido amada desde o primeiro segundo, embora o livro já venha com traços de redenção, assim como momentos ternos em que a irmã mais velha não só não se apercebe de qualquer excepcionalidade na irmã mais nova como não deixa de a achar excepcional.

Talvez, para o autor, tivesse sido mais fácil usar o tema para a lágrima fácil, para cair no tom agradável e romântico, para fazer da paternidade um plácido jardim, e também isso seria elogiado. Há sempre público para a vida cor-de-rosa, e em momentos deste livro deve ser difícil não se querer que haja mais disso. Mas boas intenções não fazem boa literatura, e as contradições do narrador são desconfortáveis para quem lê, também porque se sente que o são para ele. Com isso, aproxima-se o leitor da experiência real de uma família: à medida que folheia, também ele está ali de coração em brasa. Há uma reviravolta na acção no momento em que Julia deixa de ser a filha com síndrome de Down e passa a ser a Julia. Ei-la então como criança, e ei-la então como amor total. Mas essa reviravolta não é um ponto, um momento – é simplesmente o tempo a passar, trazendo com ele a vida, os laços, a sensação de casa, e a ideia de que aquela filha não poderia ter sido outra qualquer.

▲ Boas intenções não fazem boa literatura, e as contradições do narrador são desconfortáveis para quem lê, também porque se sente que o são para ele

Em termos gráficos, os desenhos são simples, quase infantis, dando espaço ao leitor para que se foque no substrato emocional, que come tudo. Ninguém se distrai com o que não pertence ou sublinha a tensão, e os cenários minimalistas são pano de fundo para a parte emocional. Aliás, todo o livro é emoção, que vai perpassando através de cores suaves e de um uso eficiente dos silêncios, úteis não só para o leitor respirar mas também para aguentar a tensão que o narrador não só conta como veicula para o outro lado da página.

Há momentos da leitura que não fogem à sensação de repulsa, mais do que incómodo. Ver um pai a rejeitar uma filha cria anti-corpos, mas é essa a parte que faz um livro que não seja só a tal historinha cor-de-rosa. É essa dor, que passa para o leitor por ser uma dor proibida, que faz com que o livro seja inesquecível, contundente – dorido, portanto.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico

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