1. Esperança. Fez Domingo passado uma semana que Pedro Passos Coelho deu uma entrevista na SIC Notícias a Maria João Avilez. Nessa entrevista, para surpresa de alguns, terror de outros, e alegria de muitos, Passos Coelho disse algumas coisas que são dignas de nota.
Primeiro, que há esperança para Portugal. Há coisas que podem ser feitas, reformas que são possíveis de implementar, ideias que poderão ser postas em prática para retirar Portugal do impasse político e inexorável declínio económico e social em que se encontra. Passos é, portanto, um optimista. Talvez este pormenor tenha passado despercebido à maioria dos “comentadores”, mas para mim será porventura aquilo que de mais relevante se poderá retirar daquela entrevista. Digo isto, naturalmente, porque a mim, desse há muito já, me parece que o país não tem grande solução.
No entanto, admito que posso estar enganado. Aliás, uma vez que Passos Coelho, um homem que governou o país nas condições em que governou (as mais difíceis em quase 50 anos), que foi arredado do poder da forma como foi, um homem que cada vez que fala é vilipendiado pela “opinião”, pela maioria dos “jornalistas”, ofendido pelos “agentes culturais”, chamado de racista, de xenófobo, de sádico pela sinistra e vetusta esquerda indígena, enfim, se esse homem ainda acredita, isso só pode querer dizer que há alguma coisa em que acreditar.
Depois, claro está, se há alguém que percebe de governação, de dificuldades, de reformas, de pastas ministeriais, de consensos partidários, de segurar políticos irresponsáveis com rédea curta (olhó irrevogável do Dr. Portas!), de enfrentar os interesses instalados, de dizer não aos “donos disto tudo” (olhó Dr. Salgado!), enfim, se há alguém que percebe da poda, da boa poda, esse alguém não sou eu, tal como nenhum dos comentadores, jornalistas, articulistas, opinadores nacionais. Não, se há alguém que sabe do que fala, esse alguém é Passos Coelho. Assim, se Passos diz que há esperança, eu encho-me de esperança. E se, tal como disse na entrevista, Passos afirma que sabe o que faria como primeiro-ministro, eu acredito.
Depois, Passos disse também que estaria disponível para ser candidato a primeiro-ministro se, primeiro, a actual governação “não for bem-sucedida” e, depois, “se conseguir oferecer algo diferente”, não “mais do mesmo”. As condições são, portanto, cristalinas: uma vez que Passos Coelho entende que a estratégia e o alcance da actual governação é errada, qualquer que seja a sua proposta, aquela que enquadrará aquilo que ele “sabe” que faria enquanto primeiro-ministro, será, por definição, muito diferente da proposta de Luís Montenegro.
Não será, desse modo, mais do mesmo, nem poderia ser. Quanto ao resto, alguém duvida que, uma vez chegado o desaire eleitoral que se aproxima a passos largos, saindo Montenegro de cena, Passos seria recebido de braços abertos pelo PSD? Quem assim não pense não conhece o PSD.
A bola está, portanto, do lado de Montenegro. Ou governa, reforma, apresenta resultados e é “bem-sucedido”; ou Passos Coelho estará disponível para fazer aquilo que Montenegro, até agora, não conseguiu. Qualquer uma das duas hipóteses será boa para o país. A modos que há, em suma, esperança. E isso já é muito por estes dias que correm.
2. Soberba. Luís Montenegro teve a oportunidade de responder. Poderia, por exemplo, ter dito que agradece as sugestões, que estudará sempre as propostas de um ex-primeiro-ministro que deu tanto ao país, que acha, no entanto, que Passos Coelho é capaz de não estar a ver ainda bem os resultados de todo o seu trabalho, que esses resultados aparecerão a breve trecho, que já fez muitas reformas, que são reformas fundamentais, que fez isto e aquilo e, mais importante, que fica feliz porque Passos será poupado ao sacrifício ao qual se propõe porque está firmemente convencido que a governação será bem-sucedida. Montenegro poderia ter dito tudo isto e mais alguma coisa. Mas não. Aquilo que disse, do alto de um microfone e evidentemente enervado, cheio de soberba, foi, e parafraseio, Passos “que espere sentado”.
Bom, quem chamou Montenegro de “rural” foi o Prof. Marcelo. Ele lá saberia porquê. No entanto, não consigo imaginar nenhum político do interior, da tal “ruralidade”, que respondesse de forma tão rude à entrevista serena, frontal, honesta, de um ex-primeiro-ministro, ainda para mais para quem trabalhou. Montenegro, um político que até ao momento não alcançou grande coisa além do cargo que ocupa, na persona que escolheu para imagem pública, tem procurado mostrar sempre serenidade, tranquilidade, pacatez, porventura até em demasia, escolhendo normalmente o recato e a sobriedade como estilo político. Curiosamente, toda essa fachada desaparece quando se trata de Passos Coelho e das suas opiniões. A mostrar alguma coisa, Montenegro assim revela que a sua máscara política é curta, ao contrário do nervoso, que é miudinho e bem comprido.
Fica-lhe, naturalmente, mal. Em democracia, as pessoas podem discordar. Nada obriga Passos a achar que Montenegro governa bem, pelo contrário. E como Passos também explicou na entrevista, alguém com as responsabilidades que teve, alguém para quem tanta gente no país olha, tem a obrigação de falar verdade, com frontal honestidade, para as pessoas. De dizer o que pensa. Montenegro não gosta? Pica-lhe as orelhas? Arde-lhe o nariz? Temos pena.
No final, sobra uma imagem de fraqueza do actual primeiro-ministro. Com sondagens terríveis, uma estratégia importada da manipulação mediática do PS de Costa (aquele “não é não” ao qual cedeu, contrariado, e que lhe ditou o destino), acossado politicamente pela esquerda e pela direita (foi ele que se enfiou ao centro), agora com a entrevista de Passos Coelho, a pergunta deixou de ser até quando é que o actual governo conseguirá governar, mas quando é que se espera que ele caia. A nuance não é despicienda.
3. Decadência. Entretanto, a sorte também não tem sorrido a Luís Montenegro e ao governo. Por estes dias, agita-se o mundo mediático com manifestações e acampamentos urbanos ilegais nos centros de algumas cidades. As razões? Alegadamente, a “luta” pela habitação. Sobre este assunto importam três circunstâncias que resumem muito dos problemas políticos das actuais democracias Ocidentais: primeiro, o que motiva o descontentamento é absolutamente real, no caso, falta habitação onde as pessoas desejam morar, assim desequilibrando o mercado para valores que não são comportados pela maioria da sociedade portuguesa.
Segundo, as causas do problema (falta de crescimento económico, deterioração da produtividade, saque fiscal, hiper-regulamentação, pouca atractividade para investimento estrangeiro, excesso de burocracia, década e meia de sub-construção socialista, para não falar de uma economia débil, cristalizada, baseada em sectores de baixo valor acrescentado e dependente, na sua maior parte, das gorjetas dos turistas de paragens mais endinheiradas, no fundo, uma economia que gera baixos salários), essas passam ao lado da contestação acampada que imagina que a habitação se resolve por decreto. Não resolve. Pior, as medidas pelas quais os manifestantes tanto gritam só iriam piorar a situação.
Aliás, de facto, a coisa acaba por ser azarada para o governo que se diz reformista e ao qual se aponta, fundamentalmente, o defeito de não ser reformista, porque, se há uma pasta onde medidas correctas, com impacto real, foram tomadas, foi precisamente na habitação. A redução do IVA de 23% para 6% na construção e reabilitação de casas com preços de venda moderados (até cerca de 661 mil euros, inclui muitas casas), a descida do IRS sobre rendas abaixo dos 2300€ para 10% ou 0% em contratos de longa duração, diversas isenções fiscais como no IMT, Imposto de Selo e IMI para jovens e para investimentos em arrendamento até 25 anos, apoios diversos a jovens compradores, a simplificação e maior previsibilidade dos licenciamentos urbanísticos e garantias públicas ao financiamento para gerar confiança aos investidores, tudo isto configuram medidas importantes que vão no sentido certo, ainda que, obviamente, os seus efeitos demorem tempo a aparecer.
Naturalmente, apesar desta boa vontade e intenção governativa, o problema de fundo subsiste: uma economia parada, subserviente, pouco produtiva, sem capacidade de investimento e particular inovação, salvando-se o sol, o mar e uma gastronomia milenar que no turismo emprega quase um quarto da força laboral. Em cima disto, um estado hiper-pesado, monstruoso, metido em tudo, garante que, por mais medidas que o governo tome “pela habitação”, não se muda grande coisa.
Tudo isto passa ao lado do activista. No fundo, aquilo que nenhum manifestante parece compreender é que ninguém daquela gente ali acampada está disposta a abdicar daquele estado para melhorar, não apenas a habitação, mas o país inteiro. Assim se encerra o ciclo vicioso que nos condena a esta decadência: quanto mais se procura legislar e “criar mecanismos” para satisfazer “as necessidades das populações”, pior essas populações ficam. Naturalmente, os manifestantes estão longíssimo de alcançar a ironia do seu predicamento.
4. Ignorância. O que é que não ajuda também certamente a resolver “o problema” da habitação? Andar a abanar bandeiras da Palestina. Aliás, a bandeira da Palestina é um fenómeno curioso: uma manifestação pela habitação? Abana-se a bandeira da Palestina. Uma manifestação contra o racismo? Abana-se a bandeira da Palestina. Uma manifestação contra a extrema-direita? Abana-se a bandeira da Palestina. No fim, a situação resume-se por uma quantidade de manifestantes, muitos deles que se identificam como, ou se acham no direito de falar em nome de, gente que os Palestinianos tratam a calhau, atiram de prédios, ou fuzilam em praça pública, todos vivendo sob a impressão que lutar pela causa palestiniana lhes certifica uma certa virtude rebelde e contestatária.
Enganam-se, obviamente. Tal como se enganam em quase tudo o resto, desde as “medidas” que exigem (e que lhes piorariam o problema), nas reformas que criticam (e que são no interesse da solução para aquilo contra o qual se manifestam), terminando no maior engano de todos, uma estranha capacidade para perorar em público pelas grandes vantagens do “socialismo”, da “justiça social”, da “inclusão”, não esquecendo a obrigatória referência à génese diabólica do “capitalismo”.
Compreende-se, no entanto. Para se alcançar intelectualmente as virtudes do livre-mercado, tudo o que ofereceu à sociedade, ao mundo em geral e a estes filhos do Ocidente em particular, tal como aferir o pesadíssimo rasto de destruição, morte, exploração, miséria e pura crueldade que o socialismo real (comunismo) largou por todo e qualquer canto onde tenha passado, quer num caso quer no outro, seria necessário que se estudasse, e percebesse, a História, o Homem e o Mundo em que vivemos.
Foi esse conhecimento, no entanto, que, por facilitismo, preguiça e desleixo, toda uma geração criada na opulência, no conforto da paz e segurança, a quem nunca faltou grande coisa, tratou de negar aos seus filhos. Ei-los aí agora, incapazes de pensar, incapazes de conhecer, de telefone na mão e bandeira da Palestina ao vento, a clamar pelo suicídio convencidos que nele vislumbram a cura de todos os seus males. O mundo, claro está, tratará de os desapontar severamente, a maior parte dos quais, muito provavelmente, sem que algum dia perceba porquê.