“Portugal é considerado uma das portas de entrada” do Primeiro Comando da Capital (PCC) na “Europa”. O alerta era dado em 2016 pelo procurador Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo. Nove anos depois o mesmo magistrado, que é um dos rostos do combate ao PCC, o maior gang criminoso da América do Sul, diz em entrevista ao Correio da Manhã que “um chefe máximo do tráfico de drogas do PCC” está a operar em Portugal.
Em pouco mais de uma década, o grupo dedicado, sobretudo, ao tráfico de droga aumentou de forma exponencial a presença em Portugal, onde já estarão 87 elementos, sendo que 29 estão presos.
Os dados revelados num seminário de análise do crime organizado transnacional deixam o magistrado do MP brasileiro “preocupado com o ritmo de expansão”, enfatizando que este problema “também deveria preocupar os portugueses”.
Na Europa, Portugal surge destacadamente como o país com mais membros do PCC, sendo que Espanha está em segundo lugar com 26. Apesar do número elevado de elementos presos, as autoridades brasileiras alertam para a atividade do grupo no seio prisional, onde intensificam o recrutamento.
“O maior perigo do PCC” e a sua força nas prisões. “Dissemina-se de forma fácil nas prisões”
“O maior perigo do PCC é a sua origem prisional. É nas cadeias que tem poder de organização e de ideologia, uma disciplina muito rígida e que se dissemina de forma muito fácil no sistema prisional. Esse é o maior perigo do PCC para os países europeus”, defendeu Lincoln Gakiya.
Fora do Brasil, os países com mais membros do grupo criminoso são o Paraguai (699), a Venezuela (656), a Bolívia (146) e o Uruguai (140). No total, as autoridades têm conhecimento de 2078 criminosos do PCC espalhados por 28 países, com mais de metade (1092) atrás das grades, segundo números de 2023.
O grupo é quase uma multinacional do crime, com atividade significativa no mundo do tráfico de droga, sobretudo cocaína, e sede em São Paulo. O maior gang da América do Sul está na mira das autoridades portuguesas pelo menos desde 2009, quando um relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América mencionava a possibilidade de o grupo instalar-se em Portugal. No Brasil há notícia de muitas mortes provocadas pelos criminosos do PCC: em maio de 2006, 564 pessoas (entre os quais 59 agentes da polícia) morreram em motins provocados pelo grupo.
Roberto Ochôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que “existem evidências substanciais que demonstram a expansão e a implementação de atividades criminosas do PCC para além das fronteiras do Brasil. Nos últimos anos, a sua atividade expandiu-se para a Europa, com relatórios a indicarem a presença e operação de membros do PCC em países como Portugal, Espanha, França e Países Baixos”.
“Portugal é uma plataforma giratória de distribuição de droga para o resto da Europa”
Portugal assume, neste processo de expansão, “uma importância estratégica significativa” por funcionar como porta de entrada da droga para o mercado europeu, aproveitando “os portos, como Sines, Leixões e Lisboa”. “São rotas logísticas atrativas para o tráfico de cocaína proveniente da América do Sul”, acrescenta Ochôa, citado pelo Jornal de Notícias.
Em território português, o PCC conta com um responsável do grupo pelo armamento e ainda um elo de ligação com os membros presos nas cadeias portuguesas.
“Portugal funciona como uma plataforma giratória de distribuição de droga para o resto da Europa”, denuncia ainda Ochôa. O aproveitamento de Portugal não passa apenas pelas vantagens geográficas, mas também pelas “fortes ligações culturais” e pela língua partilhada com o Brasil, o que “facilita a infiltração e a operação de membros do PCC em Portugal, permitindo-lhes passar mais despercebidos do que noutros países europeus”.
A presença em território português não assume, pelo menos para já, os contornos violentos registados no Brasil, onde o grupo é reconhecido pela violência “ostensiva”. O PCC aproveita Portugal para “operações discretas de logística, tráfico e lavagem de dinheiro”.
O gang funciona quase como uma multinacional, com atividade em vários ramos: em Portugal os tentáculos estendem-se desde empresas na área do imobiliário às transferências de jogadores de futebol, passando pela restauração e barbearias, como revelou o Expresso em fevereiro deste ano.
O PCC fatura, todos os anos, mais de 150 milhões de euros, e espalha no Brasil e em grande parte da América do Sul um clima de terror e violência que o tornam num dos principais focos das polícias.
Em março deste ano, a Polícia Judiciária portuguesa revelou que a rota de tráfico de cocaína com o número mais elevado de apreensões foi entre o Brasil e Portugal. Tal como em 2023, o número de apreensões foi mais elevado neste trajeto (95 em 2023 e 101 em 2024) — que representa a grande maioria das 183 apreensões das quais há conhecimento sobre origem e destino. Setúbal foi o distrito português com maiores quantidades de cocaína apreendida, seguido de Lisboa, Leiria, Aveiro e Porto, mas o número de apreensões foi mais alto em Lisboa (574), Porto (318) e Faro (202).
Apreendidas mais de 23 toneladas de cocaína em 2024. É a quantidade apreendida mais alta desde 2006