Está cada vez mais perto aquela que é, para os aficionados do desporto velocipédico, a melhor altura do ano. A altura em que as tardes quentes de verão transportam os espectadores para bem perto do asfalto. A altura em que mais de centena e meia de bicicletas entram em casa do público através dos canais em sinal aberto da televisão. Faltam quatro dias para o início de mais uma edição da Volta a França, prova que, a par da Volta a Portugal, é um dos principais eventos desportivos do verão em território nacional. No que há Grande Boucle diz respeito, a presença de João Almeida, que luta pelos lugares cimeiros da geral, deu outro ar à corrida e prova disso é o aumento de público a assistir a provas de ciclismo em Portugal.

Ainda assim, não é só em Portugal que aquele que muitos consideram o “desporto do povo” causa furor por esta altura do ano. Também em Espanha se vive de forma particular esta modalidade e, apesar de ainda faltarem algumas semanas para o início da Vuelta, a terceira e última Grande Volta da temporada, o ciclismo tem estado em destaque por estes dias. O impulsionador desse destaque é Javier García Reboredo, mais conhecido por Xinolugo, ciclista recreativo natural da Galiza que, em 2025, decidiu lançar o IGARE, um desafio de ciclismo de ultrarresistência que é inspirado na origem do ciclismo. O desafio ganha particular destaque por conta do seu objetivo: consciencializar e apoiar a causa da Epidermólise Bolhosa, uma doença genética rara que causa grandes fragilidadades na pele, e que também é conhecida por doença da “Pele de Borboleta”.

Perante isso, Reboredo prontificou-se a sair e a chegar de Madrid e a percorrer na totalidade as 21 etapas de cada uma das Grandes Voltas deste ano, num total de 20 mil quilómetros. A primeira parte do objetivo está concluída, já que, em maio, completou com sucesso os quase seis mil quilómetros da Volta a Itália. Segue-se o Tour, onde o desafio se espera mais complicado, por conta do percurso exigente e de outro fator importante: o atleta pretende completar a missão sozinho, sem qualquer ajuda externa. Para já, o desafio está em andamento, já que Javier partiu esta terça-feira da capital espanhola em direção a Lille, local onde começará a sua jornada e a todo o pelotão, no sábado. O objetivo é completar todas as etapas oficiais e chegar a Paris antes dos ciclistas profissionais, dentro de três semanas. Em Itália foi bem sucedido, mesmo tendo por sua conta cada dormida (em acampamentos) e cada refeição.

Em França, Reboredo vai percorrer mais de sete mil quilómetros e, caso volte a ser bem sucedido e consiga o mesmo na Vuelta, em setembro, arrecadará 20 mil euros — um euro por cada quilómetro percorrido — para a associação Debra Butterfly Skin, que apoia pacientes e famílias afetadas pela doença. “O sofrimento que posso sentir durante o desafio não é nada comparado ao que estas crianças passam todos os dias”, afirmou Xinolugo, citado pela Marca. Numa altura em que a temperatura promete subir em território gaulês, e tendo em conta que os deslocamentos entre o fim de uma etapa e o início de outra são mais longos que no Giro, o desafio ganha outros contornos.

A particularidade do IGARE prende-se precisamente com a falta de apoio externo, já que Javier não tem ao seu dispor nenhum carro de apoio, mecânicos, fisioterapeutas ou cozinheiros. O galego tem de transportar na bicicleta tudo o que necessita, seja comida, roupas para dormir ou ferramentas. Todas as noites têm de improvisar o local onde vai dormir, arranjar a bicicleta e planear cada percurso. Para o ciclista, o projeto IGARE afirma-se como “um ato político” e pretende alertar para a mobilidade sustentável, a resiliência e o poder das pequenas ações. O nome IGARE tem origem numa das línguas oficiais do Ruanda, o quiniaruanda, e significa “bicicleta”. A origem remonta a 2020, ano em que Reboredo este em viagem por aquele país africano e percebeu que a bicicleta é fundamental na vida da população.