Portugal pode não ter partido para a 113.ª Volta a França com um ciclista capaz de se destacar, como Afonso Eulálio (Bahrain-Victorious) e João Almeida (UAE Team Emirates-XRG) nos habituaram nas últimas Grandes Voltas, mas saiu de França com o maior exemplo de longevidade do pelotão internacional atual. Aos 37 anos, o ciclista nascido em Anadia completou a 24.ª Grande Volta da sua carreira, com uma particularidade: nunca desistiu, tendo terminado todas as etapas que disputou. Assim, a partir deste domingo, o foguete português tem o maior registo de Grandes Voltas consecutivas da história do ciclismo, superando Sylwester Szmyd.

Para a história contam-se dez Voltas a França completas, dez Voltas a Espanha e quatro Voltas a Itália. Curiosamente, a chegada a Paris contou com mais um registo notável alcançado por Nelson Oliveira, que concluiu a 500.ª etapa consecutiva em Grandes Voltas. Olhando à Grande Boucle, contam-se 210 etapas nas dez edições, ao passo que, na Vuelta, a contagem passa para as 207 por conta da redução ocorrida na edição de 2020 devido à Covid-19. Por fim, no Giro, Oliveira concluiu todas as 83 etapas, dado que a etapa 19 da edição de 2013 não foi realizada devido ao mau tempo. Foi precisamente em Itália que Oliveira esteve presente na primeira fase da temporada, tendo estado ao serviço do líder Enric Mas.

Uma carreira que é escrita entre diplomas: Nelson Oliveira iguala melhor registo olímpico (mas celebrar só quando voltar para casa)

Como habitual nos últimos anos, quando passou por uma transformação de contrarrelogista para um fiel corredor de equipa e um capitão de alto nível na estrada, Nelson chegou a França para chefiar o bloco da Movistar e trabalhar em prol do líder Cian Uijtdebroeks, que acabou por abandonar na sexta etapa e deixou refém o bloco espanhol, que passou a lutar por etapas. O que é certo é que ainda não foi desta que a Movistar colocou fim ao jejum de vitórias em Grandes Voltas, que perdura desde o Giro-2024. No Tour é preciso recuar até 2019, quando Nairo Quintana venceu em Valloire depois de ter atacado no Galibier. Nelson Oliveira foi um dos nomes que tentou quebrar esse registo negativo, tentando integrar a fuga do dia em quase todas as etapas da segunda semana. Com mais insucessos do que sucessos, destaca-se a etapa 11, quando o grupo de quatro ciclistas em que seguia foi alcançado a seis quilómetros de Nevers. No total, atacou com sucesso em quatro tiradas e acumulou 502 quilómetros à frente do pelotão.

“Tentarei passar um pouco da minha experiência em Grandes Voltas para que ele [Uijtdebroeks] possa estar tranquilo. Vai ser um Tour exigente quando comparado com outros Tours. A primeira semana já tem montanha e já se vai ver onde está cada um. A nível individual o objetivo é chegar a Paris e creio que há bastantes oportunidades neste Tour, mas sabemos que todos estão em forma e querem ganhar. Temos um grupo jovem. O Cian é o líder e os demais vão tentar disputar alguma etapa”, explicou Oliveira ao TopCycling antes do início em Barcelona. Curiosamente, o português foi o responsável por apresentar o equipamento especial da equipa que corre o Tour ininterruptamente desde 1983, que visa homenagear Antoni Gaudí.

Ciclista português Nelson Oliveira renova até 2027 com a Movistar

Nelson Oliveira tornou-se profissional em 2010, com 20 anos, quando rumou à espanhola Xacobeo-Galicia, que entretanto desapareceu do ciclismo, onde competiu ao lado de Ezequiel Mosquera, atual diretor da Volta a Portugal, Gustavo César Veloso e Delio Fernández, nomes que marcaram o ciclismo português nos últimos anos. No ano seguinte deu o salto para o World Tour pela mão da RadioShack e por lá continua até hoje. A sua primeira Grande Volta foi feita nesse ano, em Espanha, tendo como melhor resultado o 12.º lugar no contrarrelógio de Salamanca. Na geral foi 117.º naquele que é, até ver, o seu pior registo e o único fora do top 90. A partir daí, Nelson completou duas Grandes Voltas no mesmo ano ao longo de oito temporadas, a primeira ao serviço da Lampre-Merida (2015) e as restantes na estrutura da Movistar (2019 a 2024 e 2026), com quem tem contrato válido por mais um ano, esperando-se que o recorde não fique por aqui.

O maior registo de Nelson Oliveira em Grandes Voltas continua a ser a vitória em Tarazona em 2015, quando integrou uma fuga de quase 30 ciclistas e atacou nos últimos 25 quilómetros, que fez em solitário. Apesar de essa ter sido a única vez que triunfou em Grandes Voltas, contam-se dois top 10 no Tour (2016 e 2024), quatro no Giro (2012 e três em 2021) e dez na Vuelta (três em 2015, 2017, dois em 2018, dois em 2019, 2020 e 2023), com o último a datar de 2024, quando foi sexto na segunda etapa da Volta a França. Apesar de nunca ter vestido a camisola da liderança, Oliveira esteve por cinco vezes no top 10 da geral: terceiro após a quinta etapa do Giro-2021, quarto na Vuelta-2018 (etapa 1), sexto na Vuelta-2023 (etapa 2) e décimo no Giro-2012 (etapas 1 e 2) e Vuelta-2024 (etapa 3, em Castelo Branco). Em termos de camisolas chegou a vestir a da montanha da Vuelta-2018 após o contrarrelógio inaugural, em que foi quarto. Em 2016, 2019 e 2020 fez parte do domínio da Movistar na classificação por equipas da Volta a França.

“Vou continuar até que a minha cabeça me diga o contrário. Vou continuar cá. A melhor estratégia é ir vivendo um dia de cada vez e não pensar demasiado. Dou muitas entrevistas sobre o recorde, mas, na verdade, só quero viver um dia de cada vez. Quando competi na minha primeira Vuelta, em 2011, nunca imaginei que chegaria à 24.ª. Quando era miúdo e andava de bicicleta em Portugal, nunca pensei que chegasse sequer a participar numa. Por isso, é realmente gratificante ter chegado até aqui. Estou a abrandar um pouco mais, é verdade, à medida que vou envelhecendo, porque tenho juízo e sou um ser humano, e o pelotão anda cada vez mais depressa. Mas não estamos no Tour apenas para dar voltas e pensar que isto é fantástico. Falta-nos uma vitória e estamos aqui também para tentar conquistar uma”, disse Oliveira ao Cyclingnews nos últimos dias da Volta a França.

Apesar de a Vuelta ser a sua corrida de eleição, Nelson Oliveira não vai estar na edição deste ano. Em termos de calendário está prevista a sua presença na Clássica de Hamburgo, a 16 de agosto, seguindo-se a Volta à Alemanha, que se disputa entre 19 e 23 de agosto. Em setembro deverá estar nas clássicas do Canadá (Quebec dia 11 e Montreal dia 13) e nos Campeonatos do Mundo que vão acontecer na região de Montreal entre 20 e 27 do mesmo mês.