Morreu Luís Jardim, no dia em que celebrava 75 anos. A sua morte foi anunciada pelo presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, na sua conta de Facebook.
“É com profunda tristeza que me despeço do meu querido amigo Luís Jardim. Natural da Madeira, o Luís foi muito mais do que um brilhante músico e produtor musical, foi uma pessoa generosa, talentosa e inspiradora”, lê-se na publicação.
“O Luís vive agora nas melodias que nos deixou e nas memórias que guardo com imensa gratidão. Partiu, mas nunca será esquecido”, lê-se ainda.
O seu primo, o ex-presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, também já reagiu, através de uma série de publicações na rede social X. “Sempre empreendedor, a vida trouxe-o de volta à Madeira, onde residiu uns tempos e, com o seu talento, até me ajudou em campanhas do PSD/Madeira, muito amigos que fomos desde a infância”, lê-se, recordando também “as suas passagens por programas das televisões portuguesas”, que foram “memoráveis, pelo seu humor e pela sua proatividade”.
X3…infância,Ele mais novo.
Agora residia em Portugal Continental.
Ficaram memoráveis,pelo Seu humor e pela Sua pró-atividade,as Suas passagens por programas das Televisões portuguesas.
Até à vista,Luís!— Alberto Joao Jardim (@AlbertoJoaoJar1) July 4, 2025
Nascido no seio de uma família com predileção para a música — o seu pai, sendo médico de profissão, foi também um dos fundadores da Tuna Académica de Coimbra, escreve o jornalista Paulo Camacho —, estudou em várias escolas do Funchal até vir a formar a sua primeira banda, os Demónios Negros, como um dos guitarristas.
Como recordou o investigador musical João Carlos Calixto no seu programa Gramofone, a banda, que lançou o seu primeiro EP em 1964, assentava o seu som num repertório pop rock e chegou a levantar ondas — em 1965, os Demónios Negros venceram a segunda eliminatória do concurso de bandas Ié-Ié do Teatro Monumental, em Lisboa, mas perderam na meia-final para os Sheiks de Paulo de Carvalho, não sem antes levarem um contrato discográfico com a Valentim de Carvalho. Daí resultou mais um EP, antes de Luís Jardim partir para Londres com o intuito de estudar Administração Comercial, mas onde acabou por fazer da música profissão.
No Reino Unido, obteve algum sucesso com as bandas Casablanca e Rouge, mas foi sobretudo como músico de sessão multifacetado que singrou, sendo capaz de tocar guitarra, baixo, bateria e percussão. Na plataforma Discogs, regista mais de 700 créditos enquanto intérprete, a maioria como percussionista, sendo particularmente profícuo nos anos 80 e 90 em projetos da pop ao rock gótico, do ska à soul e ao r&b.
A título de exemplo, gravou com os Rolling Stones, os Coldplay, os Yes, os Pet Shop Boys, os Buggles, os Wham!, os Frankie Goes to Hollywood, os Garbage, os ABC, os Madness, os Mike + The Mechanics, os The Damned, os The The, os Prefab Sprout, os Duran Duran, os Tears for Fears, os Soul II Soul, os Aztec Camera, os Vaya Con Dios e os Funeral For A Friend.
Trabalhou também em estúdio com artistas como David Bowie, Grace Jones, Björk, Seal, Elvis Costello, Tom Jones, James Brown, Annie Lennox, Bryan Ferry, Nina Hagen, Boy George, Eric Clapton, John Legend e Scott Walker, além de participar também em bandas sonoras de filmes como Gladiador, Um Peixe Chamado Wanda e Thelma & Louise.
Em Portugal, trabalhou com Os Azeitonas e Rui Veloso, assim como com João Pedro Pais, do qual produziu os álbuns Outra Vez e Tudo Bem.
Fora dos estúdios, Luís Jardim acompanhou ainda digressões de artistas como George Michael, Rod Stewart e Tina Turner. A propósito desta última, recordou-a em entrevista à Renascença como uma “verdadeira roqueira” por ocasião da sua morte, em 2023, lembrando concertos que tocou com a sua banda como um no Estádio do Marcanã para mais de 200 mil pessoas.
Além da música, Luís Jardim teve uma breve carreira como guarda-redes, jogando nos juniores do Marítimo e nas equipas de formação do Chelsea, antes de optar definitivamente pela música. O próprio confirmou-o numa entrevista em 2021 ao Mais Futebol. “Eu acho que era bom. Eles até queriam que eu ficasse e fizesse o caminho até ser profissional, mas decidi que a música era mais importante”, afirmou, frisando que tornou-se num sócio dos Blues com camarote em Stamford Bridge.
Mais tardiamente na sua carreira, ficou particularmente conhecido do público português ao ser jurado em programas de talentos na televisão, como Ídolos, Uma Canção Para Ti e A Tua Cara Não Me é Estranha.
Em declarações à Rádio Observador, Pedro Granger — apresentador que trabalhou com Jardim nas primeiras edições de Ídolos e em Uma Canção Para Ti, descreveu-o como um “homem bom, com um coração de manteiga”, apesar do porte físico e da “voz grossa”, com um “jeito para os miúdos inacreditável”. “Puxava pelo artista que há em nós”, frisa, elogiando também a sua proatividade.
O músico e produtor Luís Jardim deixou-nos hoje, inesperadamente. Desaparece um homem talentoso, multifacetado e carismático. Envio as minhas condolências à família e amigos, recordando as colaborações com as maiores estrelas da música internacional e vários artistas portugueses.
— Margarida B Lopes (@margaridalopes) July 4, 2025
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, já reagiu à morte de Luís Jardim na rede social X, afirmando que “desaparece um homem talentoso, multifacetado e carismático” e lembrando que colaborou “com as maiores estrelas da música internacional e vários artistas portugueses.”